Poeta premiado inaugura residência literária Ruy Belo

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O poeta Otildo Justino Guido com as suas duas obras publicadas

Otildo Justino Guido realizou, entre meados de outubro e de novembro, uma residência literária em Óbidos, durante a qual continuou o seu terceiro livro e participou em atividades culturais

O poeta Otildo Justino Guido foi o primeiro escritor moçambicano a realizar uma residência literária em Óbidos, no âmbito do prémio Fernando Leite Couto.
O autor, de 21 anos, inaugurou a residência Ruy Belo, situada dentro da vila e descreveu a sua experiência em Óbidos como “fantástica e, sobretudo, inspiradora e impactante”, que lhe permitiu a interação com várias culturas, com diversas pessoas e, sobretudo, com a literatura universal.
À chegada, o poeta já trazia um novo livro iniciado, mas a residência artística fê-lo mudar de rumo. Mantém-se a prosa poética, mas a escrita que até agora sempre versou sobre a sua terra Natal, é agora inspirada em Óbidos e também no “silêncio” entre Moçambique e Portugal, que encontrou relativamente à questão do colonialismo e que o impressionou.
“A visão dos moçambicanos é totalmente diferente da dos portugueses e a minha poesia apega-se ao silêncio que existe sobre o assunto”, disse o autor à Gazeta das Caldas. A segunda das três partes que compõem o livro, que será terminado em Moçambique, será dedicada à metafísica e ao processo criativo do poeta, enquanto que a última parte explora a questão da religiosidade e o mistério que existe na prática da religião. O autor notou, com algum espanto, que em Moçambique parece haver mais devoção do que em Portugal, sobretudo no que se refere ao sentido da vivência da religiosidade.
“Imagino o alvoroço que poderia criar no meu país ao fazer-se uma biblioteca dentro de uma igreja”, salientou Otildo Justino Guido, referindo-se à livraria de Santiago, em Óbidos, que outrora foi um templo católico.
Durante o período em que esteve em Óbidos e que coincidiu em parte com a realização do Folio, o escritor participou também em conversas com alunos na Escola Secundária Josefa de Óbidos, partilhando experiências. A diferença de realidades entre os dois países, sobretudo com o facto de o seu país ter sido palco de várias guerras e até catástrofes naturais, leva a que a cultura para os jovens tenha ficado sempre num segundo plano.
“As prioridades são a alimentação e a própria sobrevivência”, partilhou o escritor acrescentando que, na escola de Óbidos também encontrou um grande interesse pela realidade do seu país, e sobretudo pela poesia.

Parceria continua à distância
A obra de estreia do escritor moçambicano, “O Osso da água”, foi vencedora da edição 2019 do Prémio Literário Fernando Leite Couto, que lhe permitiu a possibilidade de criar na sua terra natal, Inhambane (situada a cerca de 500 quilómetros a norte de Maputo), um centro cultural. A prenda dada à cidade onde nasceu e cresceu permite que aquela comunidade tenha acesso aos livros e à cultura, que até agora estava restrito à biblioteca escolar. “Houve a necessidade de criar não só o edifício que disponibiliza livros, mas uma biblioteca como o organismo vivo que tem a capacidade de se adaptar ao tempo e às necessidades dos leitores e dos artistas”, disse, acrescentando que querem promover programas de leitura, de aproximação de leitores com o autor, conversas literárias e tertúlias, entre outras iniciativas.
De Óbidos segue também a vontade de continuar a parceria com a escola Josefa de Óbidos e agora com o centro cultural, em Moçambique, dinamizando alguns projetos mesmo à distância.
Na mala do escritor, que é formado em Contabilidade e professor numa escola profissional, foram muitos livros sobre a ligação da vila às rainhas, uma temática pela qual tem especial interesse, mas também sobre autores portugueses, entre os quais Ruy Belo, cujo conhecimento aprofundou durante o período da residência literária.
“Estamos ligados pela língua e estas relações não podem ser quebradas, pois a identidade de Moçambique é com Portugal”, observa. ■