Os novos peixeiros: uma tradição com olhos no futuro

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Rui Santos e Beatriz Pinto partilham responsabilidades na empresa fishify

Há setores que se estão a reinventar. Na região, o tradicional peixeiro começa a ser substituído por jovens empreendedores com olho nas novas formas de mercado, sobretudo o online

A tradição da venda do peixe de porta em porta continua bem vincada no Oeste. Mas o tradicional peixeiro começa a dar lugar a uma nova geração de empreendedores, que apostam no digital para reinventar o setor. Vale a pena, assim, olhar para os novos peixeiros.
Mesmo que a inovação seja a palavra de ordem, há coisas que não mudam. A ida à lota no dia anterior para comprar o peixe, seguida da venda nos mercados, são costumes enraizados há gerações.
Emanuel Baptista é vendedor ambulante há mais de 25 anos e distribui, diariamente, o melhor que o mar de Peniche tem para oferecer. Trabalhar na área tem muito de sentimental. “Gosto porque é como se estivesse com a minha família, isto é, ser peixeiro é uma homenagem à minha família”, assume, orgulhoso, o penichense.
A modernização é uma palavra de ordem. A venda porta a porta moderniza-se e pode ser feita, nos dias de hoje, através de uma simples encomenda online, o que permite chegar a outro tipo de clientes.
Foi a pensar nessa alternativa que, ainda antes da pandemia, Rui Santos fundou, em 2019, a fishify, empresa que surgiu no âmbito de uma unidade curricular do curso de Comunicação e Media, do Instituto Politécnico de Leiria.
“O que fizemos foi manter o lado mais tradicional do negócio de comércio de peixe, estando presentes em Mercados Municipais, mas também no online”, explica o empreendedor, de 23 anos, que trabalha com Beatriz Pinto, natural da Vieira de Leiria, responsável pela presença da empresa na Marinha Grande.
O dia de trabalho começa na lota em Peniche. O ambiente é adornado pelo cheiro a maresia e pelo som das gaivotas, atentas a qualquer oportunidade para saírem de peixe na boca. Aqui é o sítio indicado para muitos peixeiros escolherem e comprarem o pescado para colocar à disposição dos clientes.
Leandro Machado, funcionário da Gialmar, assiste diariamente ao que se vive na lota, onde os comerciantes apenas podem comprar peixe se estiverem registados. “Temos um comando, o peixe é leiloado e se chegar ao preço de compra que estamos dispostos a pagar é que podemos comprar”, explica.
O próximo passo é levar o pescado até aos mercados e tratar das encomendas online. Para a fishify, esta gestão tem de ser articulada com os dias do mercado. Isto porque, presencialmente encontram-se nos mercados do Bombarral e Marinha Grande, mas distribuem ainda por Peniche. “Como na Marinha Grande, o mercado só funciona às quartas, sextas e sábados, articulamos a maioria das nossas entregas para as terças e quintas, pois, nesses dias, conseguimos somos dois a trabalhar a tempo inteiro” conta o vendedor.
A oferta é da mais variada e a lista de opções é atualizada diariamente no Facebook e Instagram da empresa, para que o cliente possa escolher. No que toca ao peixe mais vendido a escolha é fácil. “Robalos selvagens, provenientes da ilha da Berlenga”, assevera Rui Santos.
A venda de peixe continua a ser um setor da economia muito tradicional, tornando-se difícil de revolucionar. E é a partir deste pressuposto que muitos dos novos peixeiros optam por ter lugar marcado nos mercados ou em lojas físicas, complementando com as vendas online ou porta a porta. Depois, o objetivo de cada empresa é conseguir uma diferenciação junto do público. “Queremos diferenciar-nos, ter uma presença online mais assídua, ir de encontro àquilo que são os gostos e preferências dos nossos clientes”, diz o proprietário da fishify.
A preocupação ambiental é também uma forma de inovar e acompanha muitos dos novos negócios, nomeadamente no uso de embalagens recicláveis, como forma de evitar a excessiva utilização do plástico.
Foi no ano passado, com a pandemia, que muitos negócios se viram obrigados a uma adaptação rápida. Para Emanuel Baptista, o facto de as pessoas estarem em casa fez com que o negócio melhorasse. “As pessoas, como não podiam sair de casa, optaram por comprar peixe a vendedores ambulantes”, sublinha. A aposta em plataformas digitais, nomeadamente como a página no Facebook, também compensou a perda de clientes em lojas físicas.
Rui Santos conta que no início da pandemia, notaram “um decréscimo muito acentuado dos clientes nos mercados”, pelo que era necessário encontrar alternativas. “Nessa altura, utilizávamos pouco as plataformas digitais. Foi então que nos dedicámos mais à gestão de redes sociais e grande percentagem das nossas vendas foi realizada através desses canais”, explica o empresário, um exemplo vivo que comprova que a tradição da venda de peixe ainda tem muito futuro.. ■  Miriam Tormenta