A insustentável leveza do novo normal

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Catarina Tacanho
farmacêutica

Porque não parar o mundo, fazer PAUSE e retomar quando a pandemia passar?
Hipotecamos economias, vivências, crescimentos, desejos, relações, emoções, alegrias, lutos, tristezas, desencontros, sempre com a expetativa que vai passar. É este o novo normal a que assistimos, uma sucessão de eventos sem sentido e com o único objetivo: fazer parecer que #VaiFicarTudoBem, e que tudo vai voltar ao que era antes.
A pressão que nada pode parar, ainda que se viva em pleno confinamento, que as escolas apesar de à distância devem cumprir metas curriculares, que os serviços, ainda que por marcação, não param, que a produtividade não pode abrandar mesmo em teletrabalho com miúdos por casa a pedir comida e atenção, que temos que seguir firmes sem enlouquecer.
Há uma estranheza no ar. Há um peso que se abate, quase sem se sentir, e que irá mudar as nossas vidas para sempre. É uma falsa sensação que tudo vai ficar bem.
Entretanto nada parece mesmo normal, apesar de aparentemente se viver este novo “normal”. Vizinhos que chamam a GNR em vez de conversar, transeuntes que chamam a Polícia quando um carro mal parado impede a sua passagem, pancada na farmácia porque uma cliente exerceu o direito de prioridade, insultos na fila do supermercado (sim, esse local onde se pode comprar de tudo um pouco, numa amostra condensada da sociedade capitalista), vizinhos que denunciam obras à Câmara Municipal em vez de perguntar a quem de direito, pessoas que nos conhecem mas que não têm coragem para nos falar nos olhos, e um sem número de outras situações que compõem a espuma suave e louca dos nossos dias.
É este o novo normal? É algo que se repetirá infinitamente até ser, de facto, normal?
Andamos “contidos” (ou confinados) há demasiado tempo. O verão deu-nos uma bolha de “normalidade” e vitamina D para recomeçar. Mas o Natal deu-nos novamente um choque de realidade com números vertiginosos e assustadores. Seria assim tão difícil antecipar que se havia Natal (Natal implicando loucuras consumistas de prendas pré natal e depois refeições bem regadas com familiares de toda a parte sem máscara), haveria também descontrolo da pandemia? Custa-me a perceber que por não se ter cancelado o Natal, agora se cancele tudo até ao fim do ano. O Carnaval já foi e a Páscoa vai pelo mesmo caminho, o que se seguirá? Apostamos tudo na vacina?
E eis a questão: escolhemos o novo normal ou acreditamos que podemos regressar ao normal pré covid? Eu não acredito…
E o leitor, já pensou o que vai fazer quando voltarmos ao dito normal, seja ele qual for? ■