“A imprensa regional está mais próxima dos pobres e desprotegidos”

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D. João Lavrador | DR

Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, o Bispo classifica a comunicação social regional como um motor de esperança aonde mais ninguém está

Paulo Ribeiro

Como analisa a resposta da Igreja Católica a este tempo incerto marcado pela pandemia?
Penso que a Igreja, dentro das suas capacidades e possibilidades, está a responder muito bem. Temos acatado as normas da Direção-Geral da Saúde, ajudando a que todas as pessoas sigam com responsabilidade as orientações para a sua defesa e para a defesa dos outros e com a criatividade necessária para responder naquilo que é possível ao nível celebrativo e da participação comunitária que exige uma adaptação muito grande. Temos hoje a vantagem dos meios digitais que nos ajudam a estar presentes, embora saibamos que não resolve tudo, porque a vida da Igreja assenta numa presença de comunidade que não está resolvida pela questão do digital. Há que favorecer o ambiente familiar, ou seja, que a família seja uma Igreja doméstica aonde haja formação e partilha, em que os pais, filhos e avós, como cristãos, reconheçam que tenham aí um espaço muito importante para poderem exprimir, viver e partilhar a sua fé.

Considera que a comunidade católica tem sabido compreender as exigências da pandemia, nomeadamente na chamada à responsabilidade pela Igreja?
Pelos ecos que tenho, de uma maneira em geral, penso que sim. É uma realidade nova. Foi pela primeira vez que, em 2000 anos da fé cristã, que a Igreja parou as suas celebrações presenciais, o que de tal maneira cria algum impacto e muita gente é capaz de se perguntar ‘porquê’? A Igreja deveria, talvez, estar a exercitar mais a sua presença, mas vivemos tempos em que o conhecimento, a forma de estar, a vivência e a ciência constituem parâmetros que nos vão ajudando sobre como a Igreja se deve comportar no meio da própria sociedade em que vivemos. Depois há aqueles em que, por ventura pelas suas convicções, têm algumas dificuldades em entender como é que a Igreja se vai adaptando a toda esta realidade e como vai criando a sua forma de estar presente para lá da forma presencial e, sobretudo, no que toca a algumas exigências. Por exemplo: há pessoas que acham que a comunhão devia ser na boca e não aceitam bem que haja esta restrição para que seja exclusivamente na mão. Temos que ter a caridade de aceitar, embora não possamos ser transigentes nessa situação e temos que ser responsáveis. Mas, pelo que tenho observado, mesmo comunidades de outras igrejas e mesmo de outras confissões religiosas também se adaptaram a esta nova realidade.

Foi eleito pela Conferência Episcopal Portuguesa para presidir à Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais. Como analisa, nestes seis meses de pandemia, o papel desempenhado pela comunicação social regional?
Já o fiz, mas quero dar uma palavra de reconhecimento pelo papel da comunicação social, sobretudo a de proximidade a que chamamos de regional, tem tido em função de estar presente junto das pessoas, a incentivar e formar, sendo como um motor de esperança aonde mais ninguém está. Nas populações, sobretudo do interior ou das mais carenciadas e das que estão fora dos seus meios normais, sejam emigrantes ou outras pessoas deslocadas, é a comunicação social regional que está presente. Tenho de reconhecer o trabalho que é feito muitas vezes no meio de muitas dificuldades. Por outro lado, realço esta proximidade de um trabalho que, nesta altura, é muito mais difícil, porque a pandemia trouxe restrições a vários níveis e à forma pela qual todos os profissionais que trabalham nesta área. E depois há a grande preocupação pela parte económica. O Governo apresentou um caderno de incentivos para várias áreas, entre as quais a comunicação social, e fui-me apercebendo que ainda não chegou. Entre a promessa e o chegar pode morrer muita comunicação social. E esse é o grande problema e deixo este alerta! A promessa devia ter sido concretizada o mais depressa possível, nomeadamente nestas circunstâncias. Devia ser imediato porque há várias áreas da nossa economia, entre as quais a comunicação social, que não pode tardar receber aquilo que foi prometido e que é necessário e urgente para a sua sustentabilidade. Faço mais uma vez este apelo.

Considera que a percentagem da atribuição do Porte-Pago pelo Estado à imprensa regional deve ser reforçada pelo Governo?
Sim… porque era uma maneira de ajudar claramente a imprensa regional, porque se trata de uma realidade concreta. O mesmo se passa com a publicidade, porque há uma enorme dificuldade para os jornais e rádios. Houve uma descida motivada pela carestia económica que estamos a viver que tem provocado um dificuldade enorme às empresas, e que já vem da crise anterior, pois não têm capacidade de se promoverem através da compra de publicidade. Há fatores que estão a criar muitas dificuldades à comunicação social regional, que está em determinados âmbitos, normalmente junto dos mais pobres e desprotegidos, onde normalmente o tecido económico é também o mais pobre, em que não podemos esperar que venha muita publicidade. O que quer dizer que devíamos ter uma atenção privilegiada, se queremos distinguir pela positiva.

Teme que, se não forem tomadas medidas de discriminação positiva para a comunicação social regional, será a própria coesão territorial do país que ficará em causa?
É a comunicação social regional que dá esta coesão, ao dar a voz a muito deste povo. Podemos dizer que não é a maioria da população, dado que há uma maior concentração de pessoas junto das grandes metrópoles com acesso a outros meios, mas se devemos privilegiar os mais desfavorecidos, é por aqui que devemos começar. É, também, um problema de democracia participativa devido à pluralidade de expressão, ou corremos o risco de estarmos só a uma voz, ou seja, os grandes meios de comunicação social deixam de fora uma grande parte do território e de pessoas que precisam de ter voz e que a comunicação de proximidade dá. E é também um problema de igualdade para as pessoas, porque as que vivem fora das grande metrópoles não têm as mesmas oportunidades. Há aqui um conjunto de factores que são fundamentais ao nível dos direitos e à visão de uma sociedade que privilegia a integração e o desenvolvimento harmónico de toda a sociedade.

Quero dar uma palavra de reconhecimento pelo papel da comunicação social, sobretudo a de proximidade e a que chamamos de regional, tem tido em função de estar presente junto das pessoas, a incentivar e informar

 

A Igreja ‘redescobriu’ a imprensa regional neste período pandémico?
A imprensa regional está nas nossas preocupações. Não posso falar da Igreja Católica no seu sentido amplo porque as dioceses é que têm os seus meios. A Comissão Episcopal, que tem este pelouro, está ao serviço das dioceses e todas elas estão muito preocupadas com a comunicação social, sobretudo a regional. Não nos podemos separar dos que não são confessionais ou que não estão ligados à Igreja, porque todos eles nos merecem o nosso respeito e empenho. Por isso falamos sempre em comunicação social regional. Os meios humanos e económicos são escassos e sinto que a Igreja precisava de ter mais gente formada e temos dificuldade na obtenção dos recursos necessários para responder às exigências do tempo em que estamos. Mas tem-se feito um esforço muito grande e devo dizer que a Igreja tem estado na vanguarda de encontrar novos meios para comunicar.

Os municípios têm vindo a apostar, nos últimos anos, num claro investimento de meios humanos e materiais dos respetivos gabinetes de comunicação, enquanto que no lado oposto a comunicação social regional vê acentuar cada vez mais as dificuldades. Como vê este paradigma?
Penso que tem que haver uma pluralidade de meios. Numa sociedade plural tem de haver uma expressão dessa democracia. Não ponho em causa que que quem pretende um determinado objectivo não coloque meios ao seu serviço… é legítimo. Agora, não pode é pensar que é detentor da verdade toda. O caso de um município já é um órgão estabelecido dentro da sociedade e, neste caso, tem por dever promover a diversidade dos órgãos da sociedade, porque é nessa pluralidade que se vai aferindo as diversas opiniões e retirar consensos. É, sem dúvida, um imperativo cívico. Ou então estaremos a uni focar o que deve ser a pluralidade, mas deve haver espaço na sociedade para demonstrar a pluralidade onde se inclui a comunicação social. Precisamos reconstruir a comunidade. Criaram-se fraturas na sociedade e ela própria vai ter que se reabilitar e, também, na comunidade cristã.


Perfil

Com 64 anos e natural de Seixo de Mira, aldeia do concelho de Mira, no distrito de Coimbra, D. João Evangelista Pimentel Lavrador é, desde 2016, Bispo de Angra do Heroísmo, diocese que abrange todo o arquipélago dos Açores.
Ordenado presbítero em 1981, foi nomeado Bispo Auxiliar do Porto em 2008. O seu percurso passa pelo distrito de Leiria, tendo colaborado na vida pastoral da paróquia de Pombal. Mais tarde foi reitor do Seminário Maior de Coimbra. Frequentou a Universidade Pontifícia de Salamanca, terminando a sua licenciatura canónica na área da Teologia Dogmática e obteve o doutoramento com a tese “Pensamento Teológico de D. Miguel da Annunciação – Bispo de Coimbra (1741 – 1779) e renovador da Diocese”. Desde 1999 desempenha as funções de Secretário da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, que, a partir de 2005, se denomina de Comissão Episcopal da Cultura, dos Bens Culturais e das Comunicações Sociais.