As três facetas do rapper caldense Elton Malta

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“No improviso não há heróis todos os dias, ali és um acrobata sem rede”, diz Elton Malta | ISaque Vicente

Com fortes críticas à organização desta sociedade, o rapper O Mago, lançou recentemente “A Farsa Ocidental”. De nome Elton Malta, este caldense apresenta as suas reflexões em brincadeiras com as palavras e apela a uma vida mais real e menos aparente. Além de O Mago, o seu lado idealista, é também RS, na sua versão mais espontânea e o Pirata, nos momentos corrosivos.


Alertando para comportamentos e práticas que são usuais, mas nem por isso correctas, o caldense Elton Malta usa três facetas de si mesmo para se expressar e reflectir sobre o estilo de vida ocidental. Além de O Mago, Elton é também RS e o Pirata.
RS é o seu primeiro “eu”. Significa Rap Soul, “uma espécie de alma do freestyle, que não aparece, um rap que se esfuma, porque o improviso nasce e morre no momento”, explicou à Gazeta das Caldas.
O Pirata é o seu lado mais corrosivo. “Apareceu em 2009 e quando vem, cumpre a sua missão e desaparece, não quer a fama”, descreveu.
O Mago, o mais recente e equilibrado heterónimo, usa recursos estilísticos associados e não pretende colar rótulos. “É imparcial e usa uma linguagem acessível”.
Em termos práticos e com um exemplo: O Mago criticaria a corrupção entre médicos e farmaceuticas, mas de uma forma diplomática. O Pirata já pegaria numa (ou duas ou três) pessoas para usar como exemplo, denunciando e dando rosto às acusações. “Perde o respeito pelo erro e só surge quando as coisas já não vão lá a bem, até porque não faz bem ser pirata todos os dias”, gracejou o caldense.

“O improviso era o meu psicólogo”

Elton Malta é um caldense de 28 anos. Com 12 anos foi viver para a Quarteira e por lá descobriu o hip-hop. “Eu gostava de outros estilos musicais, no rap comecei a ouvir Sam The Kid e Xeg e foi a mensagem que eles transmitiam que me cativou”, contou Elton.
Quando voltou para as Caldas, três anos mais tarde, começou a fazer letras, mas, por vergonha, não as mostrava. E assim, durante um ano, apenas escreveu, sem nunca gravar. “Nessa altura, influenciado pelos TMS [uma crew de hip-hop das Caldas] e pelos seus improvisos, comecei a soltar-me, a desbloquear a mente e a ganhar gosto por verbalizar as ideias e não apenas escrevê-las”, recordou.
Se ao início a principal e quase única preocupação era rimar, com o tempo Elton aperfeiçoou a sua arte para lhe conferir uma mensagem. Eliminou as “bengalas”, aprendeu a encaixar as suas rimas no beat e a conferir-lhes o seu flow.
O improviso tomou conta de si, a tal ponto que em 2007 lançou “Sem Pena Nem Pen”, uma mixtape toda de improviso em que nenhuma frase passou por uma caneta ou papel.
Ainda assim, afirmou humildemente, “no improviso não há heróis todos os dias, ali és um acrobata sem rede”.
Depois de um período de amadurecimento que durou seis anos (em que nenhum som seu saiu para a rua) reapareceu em 2014 como O Mago. “Não queria transmitir a revolta pela revolta, mas sim apresentar uma reflexão pessoal e uma aproximação às soluções”, esclareceu. “Não sou dono da verdade, nem salvador do mundo, mas tenho obrigação de partilhar as minhas conclusões e ajudar os mais novos, como o rap me ajudou a mim”.
O curso superior em Comunicação Social (Coimbra) deu-lhe “a conhecer temáticas e técnicas para as investigar, mas também ferramentas para fazer rap”.

Um vídeo de um minuto por dia

Hoje O Mago tem definida na sua cabeça “uma linha de raciocínio que vai além das faixas de um EP, mas que é contada ao longo de sete projectos”. A Farsa Ocidental é o primeiro e aborda as dicotomias entre o ser e o ter, entre o real e o aparente. O próximo, a Profecia Persa, abordará a divisão vs união. E também já há nome para o terceiro: Carrossel do Inferno. “É como se cada EP fosse um capítulo de um livro”, comparou.
Entre os EP’s vai desenvolvendo outros projectos mais espontâneos, como uma das mais recentes ideias: todas as semanas lançar um vídeo de cerca de um minuto nas redes sociais em que canta 16 barras (versos) sobre um dos temas da actualidade.
O projecto O Mago mobiliza mais de uma dezena de pessoas. São todos amigos de Elton, alguns há já 15 anos e o artista não hesita em elogiar a sua cooperação.
Além de actuações, por exemplo, em festivais de Verão e no Caldas Late Night, recentemente fez uma digressão pela costa (da Ericeira a Quarteira) em que rimava pelas ruas e praças com o instrumental de uma coluna ou de um jambé. Agora, segue-se, no dia 8 de Setembro, uma actuação na festa das Gaeiras.
Tal como a maioria dos rappers, Elton gosta de explorar os duplos sentidos e de brincar com as palavras, fazê-las rimar não apenas na última sílaba, mas em várias, de abusar de uma específica letra e levá-la ao seu expoente.
Apresenta um discurso consciente e sempre humilde, mas não se coíbe de apontar as falhas que o progresso ocidental trouxe consigo.
E como, actualmente, o rap está muito mais na moda do que há 10 anos atrás, há outras oportunidades, mas em contrapartida “arrisca-se a perder um pouco da essência”. É que, “hoje há muito mais público, mas muito mais público que não percebe nada de rap, porque o rap nasce para amenizar conflitos”.