“Chegou a Gazeta” fomenta hábitos de leitura na população sénior

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Projeto leva o jornal a quem vive sozinho

Um ano após o lançamento do projeto, a iniciativa de combate à iliteracia e isolamento social tem dado frutos junto de quem, à quinta-feira, já anseia a chegada do jornal que traz as notícias da terra

Há um ano a Gazeta das Caldas lançou um projeto com as autarquias de Caldas e Óbidos para levar o jornal a idosos com o serviço de apoio domiciliário e nos centros de dia. A missão era fomentar hábitos de leitura, combatendo a iliteracia e também o isolamento social. Um ano depois, o “Chegou a Gazeta” tem dado frutos, criando raízes junto desta mais de uma centena de idosos que já anseia, à quinta ou à sexta-feira, a chegada do jornal que lhes traz novidades e lhes faz companhia. A relação criada entre as pessoas e o jornal é uma das principais caraterísticas do projeto.
José Mário Tomás, do Chão da Parada e utente da Associação Social e Cultural Paradense, é um ávido leitor e quando lhe chega a Gazeta começa por ver o que, na primeira página, lhe chama a atenção. Depois procura os artigos relacionados com a Saúde.
No jornal vê “uma montra do que se faz na região” e salienta o impacto económico, social e cultural que tem na comunidade. “Por exemplo, através da Gazeta vou acompanhando a questão do novo hospital, porque tem feito uma boa cobertura e porque é uma questão que me preocupa”, conta o leitor, que chegou a enviar textos para serem publicados no jornal. “Escrevi sobre a professora Perpétua, que dava aulas nas Caldas e fiz poemas sobre o 25 de abril”.
“Como jornal regional é considerado um dos melhores”, destaca, acrescentando que “para quem não lê mais nada, tem na Gazeta matéria suficiente para ficar informado” e considerando as rubricas do Zé Povinho e o Caldastoon “mais-valias para o jornal. Gosto muito!”.
Maria de Lurdes Venceslau, lisboeta que vive em Tornada desde os 17 anos, lê este jornal há décadas. “Gosto muito de ler a Gazeta das Caldas”, referiu. Começa por espreitar a primeira e daí segue para a última. “Até me pinto para ler o Zé Povinho”, gracejou. “Vejo a necrologia, o horóscopo e o tempo e, depois do almoço, sento-me no sofá e leio as notícias”, partilhou. “Gosto de ler e a Gazeta é uma boa companhia, traz-me as novidades”. Elogia também a produção e a qualidade das revistas. “A Gazeta está muito bem!”. Depois de Maria de Lurdes ler, vêm os filhos que também gostam sempre de ver o jornal.
A associação leva também a Gazeta a Jorge Gaspar, que está no Centro de Dia. “Gosto muito do jornal e traz quase sempre revistas com coisas interessantes”, disse. “Vejo logo na primeira página as chamadas que me interessam mais e vou ler. Os temas da economia são os que mais me interessam e depois o desporto”, explicou. “O jornal é muito importante para saber o que se passa”, fez notar. “Posso acompanhar as festas, os concertos, os eventos das Caldas e da região, gosto de ver sempre o meu horóscopo e os passatempos e a necrologia”. Já Aliete Policarpo, de Tornada, diz que “para saber o que se passa é importante ler o jornal” e que gosta de ler. “Eu gosto da Gazeta! Entretém-me e costumo fazer os vossos passatempos”, contou, acrescentando que tenta “ver se reconhece os locais que aparecem nas notícias” e não dispensa “saber o que o Zé Povinho mete a subir e a descer!”. Também Clarice da Silva lê semanalmente o jornal regional. “Gosto da Gazeta, faz parte da nossa vida, entrava e entra todas as semanas nas nossas casas”, frisou, contando que várias vezes, depois de ler, partilhava o jornal com os vizinhos. “É importante para saber o que se passa”, realça.
Vanessa Sobreiro, diretora técnica da Associação Social e Cultural Paradense, disse à Gazeta que o projeto “foi muito importante, especialmente durante a covid, quando foi lançado”, recorda. “As pessoas não estão habituadas a receber nada de graça, é um miminho”, nota, salientando o papel do projeto também na estimulação da parte cognitiva dos utentes. “Como associação somos assinantes e já disponibilizávamos a Gazeta para leitura, mas quando surgiu o projeto achei que era uma ideia muito boa, fiquei muito feliz”, recordou. “A Gazeta é uma companhia”, nota. E permite que os utentes se “integrem nos acontecimentos do concelho através do jornal”. A diretora técnica frisa que “se houvesse possibilidade, teríamos mais utentes interessados em receber o jornal”.
A vereadora com o pelouro da Ação Social nas Caldas, Conceição Henriques, classifica este como “um projeto muito interessante” e “de muita utilidade para os destinatários”. A autarca refere que é para continuar e possivelmente alargar, com mais utentes. “Vamos continuar, estamos a aguardar que nos digam se os números que tínhamos são para manter ou para aumentar”, esclareceu. No primeiro ano foi necessário fazer alguns ajustes, com o jornal, nas Caldas, a passar a ir por correio para as associações. “Faz mais sentido chegar diretamente aos destinatários”, refere. “Aqui o porte faz mais sentido e creio que agora não haverá necessidade de alterar a metodologia”, afirmou, salientando também a abrangência territorial, chegando às várias freguesias do concelho. “Prezo especialmente este projeto porque eu coloco-me no lugar das pessoas e, se estivesse nesta situação, uma das coisas que me daria mais satisfação era receber, regularmente, um órgão de comunicação social da minha terra, com o qual me identifico, que existe desde muito antes de eu existir e de os meus pais existirem. É mais do que um órgão de comunicação, é um meio que já faz parte do tecido histórico e social da cidade e que tem um significado para quem o recebe”, descreve, notando que “a Gazeta é um jornal muito estimado pela população”.
“Consigo rever-me e ver o valor, que é difícil de quantificar, há aqui um valor emocional, intangível, imaterial. Mais do que o valor material de poderem, sem gastar dinheiro, receber a Gazeta e serem informados, há tudo o resto, há identidade, aquela companhia que chega sempre naquele dia e com a qual se estabelece uma relação”, frisou. “Valorizo muito esse projeto e acho que deve ser acarinhado, implementado e expandido, se for possível”.

70 jornais por semana em Óbidos
À quinta-feira, quando o funcionário da Câmara chega à antiga escola primária da Sancheira Grande, agora convertida em Centro de Convívio do programa Melhor Idade, nota-se logo a agitação para ver quem pega primeiro nos jornais para ler. Natália Neves costuma sempre ser das primeiras a ler a Gazeta. “Gosto de saber o que se passa”, conta, especificando que, em primeiro lugar procura por “aqueles que já cá não estão [página da Necrologia], porque por vezes são pessoas que conheço, mas também gosto de ler noticias relacionadas com a escola e a educação… no fundo, gosto de ler notícias boas”. Além de ler as notícias, Natália Neves gosta de as poder comentar com os outros utentes do centro de convívio, combatendo assim a solidão que sente em casa. E são muitas as informações úteis que encontra no jornal. “Ainda hoje disse ao sr. que nos transporta que a 1 de julho começa o OBI para a praia porque li na Gazeta”, exemplifica.
E, se a página da Necrologia reúne unanimidade dos gostos, há alguns utentes a quem interessa a vida do concelho, nomeadamente a política. “Noto bastante interesse por parte dos utentes”, conta a animadora Sara Duarte, acrescentando que a sua grande maioria sabe ler, mas também quem não sabe “vê determinada imagem que lhe interessa e procura saber o que está escrito, pedindo a alguém que lhe leia a notícia”, salienta. A leitura do jornal no centro de convívio, que atualmente possui 20 utentes, também “fomenta o convívio”, porque da leitura dos artigos permite a discussão dos assuntos. “Se, por ventura é algo político, gera-se logo uma discussão do tema, é muito interessante”, concretiza Sara Duarte.
Há também quem não perca os passatempos, nomeadamente as palavras cruzadas. É o caso de António Antunes, de 76 anos, que depois de ler o jornal e “saber as notícias da nossa terra”, aproveita para completar os passatempos. Os jornais não lhe são, de resto, estranhos. “Trabalhei no Diário de Notícias durante 10 anos, fazia parte da manutenção das máquinas, e também estava sempre atento ao conteúdo do jornal. Por vezes estavam a imprimir o jornal e eu tirava um dos primeiros exemplares e punha-me a lê-lo… um dia até descobri duas páginas repetidas e ainda conseguimos parar a máquina para resolver a situação”, partilha.
Neste centro de convívio, depois de lido, o jornal é reabilitado para a feitura de objetos pelos utentes. As páginas da Gazeta transformam-se em caixas com diversas dimensões e feitios, cestos, objetos de decoração e peças de adorno, chegando algumas delas a ser comercializadas, para angariação de fundos para o centro de convívio. Mas o papel é também aproveitado para fazer flores, como as que Armanda Carreira, de 93 anos (a utente mais idosa do centro de convívio), criava, na tarde de sexta-feira. Sara Duarte destaca a importância destas atividades que, a par da leitura do jornal que ajuda ao uso das funções cognitivas e de concentração, permitem aos utentes treinarem a motricidade fina.
Atualmente, no âmbito do projeto Chegou a Gazeta, a Câmara de Óbidos adquire semanalmente 70 jornais, que distribui pelas 11 salas dos centro de convívio do Melhor idade e pelos parceiros sociais, permitindo a leitura por parte de centenas de pessoas. O vereador José Pereira, que tem o pelouro da ação social, explica que adesão das pessoas foi “muito natural e positiva”, tendo em conta que é um meio de comunicação social que as pessoas já conhecem há muitos anos. “Podermos levar a Gazeta das Caldas desta forma regular a todos estes espaços levou a que as pessoas também se interessassem mais”, referiu o autarca, dando conta que os utentes ganharam também a curiosidade de ler o editorial e o espaço noticioso. “Passou a ser um elemento regular e partilhado por todas as pessoas. É um elemento de comunicação indispensável”, salientou. Para José Pereira é importante que as pessoas possam saber o que se passa na região, mas que também têm a possibilidade de se expressar nas páginas do jornal. “Queremos saber notícias dos outros, mas por vezes também temos uma notícia que podemos transmitir”, diz o autarca, que vê este projeto como uma importante ferramenta.
Fernando Xavier, presidente da Cooperativa Editorial Caldense, revelou que este ano a iniciativa deverá chegar a 200 beneficiários. “É um projeto pelo qual temos muito carinho e que nos dá um grande orgulho face aos benefícios que traz”, referiu, agradecendo o apoio das autarquias nesta iniciativa, sem as quais não seria possível realizar. ■