CILA PIMENTEL – a professora primária que teve de pedir autorização para casar

0
8983
cila pimentel professora primária
Leccionei em dez escolas, mas foi nesta que estive mais tempo e de onde tenho as melhores recordações | CARLOS CIPRIANO

80 ANOS
CASADA, UMA FILHA E UMA NETA

O meu nome verdadeiro é Maria Lucília Rebelo Soares e há quem me pergunte porque não tenho o apelido do meu marido, mas a resposta é simples: quando me casei, em 1960, era preciso pagar para que a mulher ficasse com o nome do cônjuge, coisa que recusámos porque não tínhamos dinheiro para isso. À época éramos os dois professores primários, estávamos em início de vida e o ordenado fazia-nos falta para coisas mais importantes. E no entanto, hoje toda a gente me conhece por Cila Pimentel.
Nesta fotografia estou em frente àquela que foi a escola da minha vida. Não foi a única. Que eu me recorde, leccionei em dez escolas primárias, mas foi nesta, na Encosta do Sol, que passei mais tempo (18 anos) e é desta que levo as melhores recordações. De tal maneira que, quando me reformei, não fiquei contente nem aliviada; fiquei triste e com vontade de chorar porque já sabia que iria ter muitas saudades da escola, dos meus meninos e das colegas.
Ser professora não era propriamente um sonho. Eu fui para o Magistério Primário porque naquela época, em 1954, quem terminasse o liceu da Guarda e não tivesse posses para ir estudar para Coimbra ou Lisboa, acabava por ir para o Magistério. Era quase natural.
Eu nasci em 13 de Janeiro de 1936 na Granja, uma freguesia do concelho de Trancoso. Foi na minha aldeia que fiz a escola primária e não fiquei por lá, na costura ou à espera de casar, porque os meus pais eram lavradores e puderam financiar a minha ida para a Guarda onde fiz o liceu. Tinha os meus 12 anos e fui viver com uma tia, mas como a casa dela era pequena, mudei-me para uma casa particular onde me alugaram um quarto que eu partilhava com mais três meninas.Optei por Leiria porque o acesso por comboio era mais fácil

Mal sabia eu que os primeiros anos da minha vida profissional iriam ser passados em quartos alugados consoante as escolas que me calhavam em cada ano lectivo. Em 1956, dois anos depois de ter entrado, concluí o Magistério Primário e é óbvio que teria gostado de ficar na Guarda. Eu tinha 20 anos e gostava de ficar pela Beira Alta, mas éramos muitos professores novos a concorrer e tive que me render à evidência de que não haveria lugar para todos. Deram-me a escolher entre os distritos de Aveiro, Setúbal e Leiria e optei por este último porque o acesso por comboio era relativamente fácil.
Foi assim que fiquei colocada em Santa Margarida, na freguesia das Colmeias (Leiria). No ano seguinte fui para as Caldas da Rainha, para a escola do Bairro da Ponte, mas não foi nesse ano que cá fiquei de vez. Seguiu-se a Serra D’El Rei e depois a Moita, perto de Pataias (Alcobaça), sempre arrastar uma pesada mala com as minhas coisas e a ficar alojada em casas particulares.
No ano seguinte fui dar aulas para a Escola da Ordem, na Marinha Grande que, curiosamente, foi inaugurada pelo ministro da Educação, Baltazar Rebelo de Sousa. Fui eu, que até era a professora mais novinha, que o fui receber e estava longe de imaginar que um dia o filho dele viria a ser Presidente da República.
Entretanto, quando eu tinha estado na Serra D’El Rei, costumava vir passar os fins-de-semana às Caldas para visitar umas colegas que viviam numa casa onde arrendavam quartos a professores. Era ali no antigo Hotel Madrid e foi lá que conheci um rapaz, também professor primário, que viria a ser o meu marido – o João Dias Pimentel.
O namoro começou ali e é claro que eu concorri para as Caldas, mas não consegui logo cá ficar.  Vida de professor é isto: andar em bolandas de um lado para o outro. Hoje é capaz de ser pior porque em 1960 eu consegui efectivar nos Cabreiros. Acabei por não dar lá aulas porque casei-me nesse mesmo ano e, ao abrigo da Lei dos Cônjuges (que permitia que um casal ficasse colocado na mesma terra se ambos fossem funcionários públicos), fiquei a leccionar nas Caldas.
Eu acho que essa lei era muito justa porque naquele tempo os professores ganhavam muito pouco. Quando casámos, ficamos a viver num quarto alugado no tal edifício do Hotel Madrid. Só depois nos mudámos para uma casinha fria e húmida na rua da Electricidade e depois para a rua dos Loureiros. Já éramos crescidos, com quase 40 anos, quando finalmente compramos o andar em que hoje vivemos na Praça 5 de Outubro. O meu marido, entretanto, deixou de ser professor primário pois licenciou-se em Direito e foi advogado durante 40 anos.
Antes de casarmos, porém, eu tive que pedir autorização ao Estado! É verdade. Os mais novos poderão rir-se disto, mas as professoras primárias – talvez por serem das poucas mulheres que tinham um ordenado e podiam ter uma vida independente – eram obrigadas a pedir ao Ministério da Educação que as autorizasse a casar. E para isso era preciso identificar o futuro marido, o que ele fazia, quanto ganhava, se tinha posses para a sustentar, a fim de obter o necessário aval do Estado. Ou seja, uma professora primária não podia casar com quem quisesse. E a autorização, essa até era publicada em Diário da República.
Nas Caldas da Rainha dei aulas na escola que havia aqui na Praça 5 de Outubro. Mais tarde fui para os Pavilhões do Parque, onde também havia uma escola primária, e a seguir para o antigo tribunal, que é hoje o Museu do Hospital e das Caldas onde foi o Palácio Real.
Este corrupio de escolas só acabaria no ano lectivo de 1974/75 quando fui para a Encosta do Sol e por lá fiquei até me reformar. Lembro-me bem porque foi no ano do 25 de Abril e nós professores estávamos a viver uma época formidável, um período de mudança incrível em que aprendíamos uns com os outros e até com os nossos alunos. De repente eu dei por mim a ajudar a fundar o sindicato dos professores, a aprender o que era a Democracia e como era viver em liberdade.
Se houve sectores onde o 25 de Abril foi realmente uma revolução, um deles foi no ensino. Eu cresci a ter aulas e a dar aulas em salas com carteiras de madeira, um quadro de ardósia preto, um crucifixo em cima e os retratos do Salazar e do Américo Tomás de cada lado.
Às crianças, sempre vestidas de bata branca, ensinávamos a ler, a escrever e a fazer contas. A tabuada aprendia-se a cantar, as vezes necessárias até que todos a decorassem. Ensinávamos História – a sucessão de reis de Portugal todos seguidos, que era preciso saber de cor. E na Geografia, os rios, as serras, as linhas de caminhos-de-ferro, as produções agrícolas de Portugal, mas também das “nossas províncias ultramarinas” de Angola, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Timor, Goa, Damão e Diu.
Não se explicava o que eram rios, serras ou vales. O que importava era recitar os nomes todos de corridinho. Parecia que o importante era memorizar tudo, independentemente de se compreender ou não a matéria.

Os castigos corporais eram considerados normais

Os castigos corporais eram considerados normais e entre eles as reguadas. Se eu dei reguadas? Claro que sim, como todas as professoras daquele tempo. Mas tenho a certeza que não batia muito e que procurava fazê-lo com justiça, conta e medida. Aliás, quem o diz são os meus antigos alunos. Eu tinha fama de “boazinha” e eles confirmam.
Havia mais diferenças. A separação de sexo era outra. A mim, ora me calhava uma turma de rapazes ou uma turma de raparigas. Só nas escolas das aldeias é que, por serem menos alunos, se punham ambos os géneros na mesma sala. Mas o que me custava era quando tinha as quatro classes juntas: tinha que dar a matéria da 1ª, 2ª, 3ª e 4ª classe a vários alunos dentro da sala. Enquanto a uns ensinava a ler, a outros preparava-os para o exigente exame da 4ª classe.
O que eu mais gostava de ensinar era a Aritmética. E também gostava de Português e de Geografia. Mas não gostava nada dos ditados nem das cópias e, sobretudo, de ler redacções. Talvez porque, quando era criança, uma vez fiz uma cópia na qual saltei umas frases e a minha professora bateu-me tanto que fiquei com a mão toda negra.
Apesar do crucifixo e de ser obrigatório ensinar Religião e Moral aos alunos da primária, eu nunca fiz a reza diária. E eu que até sou católica praticante. Mas acho que a religião e o ensino da República devem ser coisas separadas.
De vez em quando havia um inspector que vinha verificar o nosso trabalho. Via os nossos registos, fazia perguntas aos alunos e depois ia-se embora. Na verdade, nós tínhamos mais autonomia naquele tempo do que os professores têm hoje pois, pelo que me contam, estão sempre a ser escrutinados e a ter de produzir evidências de tudo quanto fazem.

Não se falava de política e nem se sabia o que isso era

Não se falava de política. Nem se sabia o que isso era. Quando foi o 16 de Março e soubemos que os militares das Caldas tinham saído para Lisboa, eu fui para a escola e levei um rádio para ir ouvindo as notícias. Mas tive colegas que ficaram cheias de medo e pediam-me para desligar o rádio. O medo que havia naquele tempo.
Por isso, quando foi o 25 de Abril eu abracei logo aqueles dias. Fazíamos reuniões de professores, trocávamos experiências, emprestávamos materiais uns aos outros, aprendíamos a Democracia e, ao mesmo tempo, procurávamos também ensinar aqueles tempos novos aos nossos alunos. Aliás, foi nesta altura que eu posso dizer que comecei também a aprender com eles. Antes havia muito rigidez. Agora eu descobria que eles também tinham opiniões, eram curiosos, exprimiam ideias e procuravam resolver problemas. Foram bons tempos.
Em 1992 reformei-me. Tinha 56 anos. Podia tê-lo feito antes porque já tinha tempo de serviço suficiente. Mas mesmo assim tive um desgosto tremendo. Não fiquei aliviada nem feliz. Pelo contrário, ainda hoje tenho saudades dos meus meninos.
Durante estes anos procurei manter-me activa. Ajudei a criar a minha neta, fiz uma experiência na pintura, fui voluntária no hospital e saio à rua sempre que posso. Gosto de me encontrar com as minhas colegas reformadas e com as que ainda estão no activo. E o que oiço não me agrada: a burocracia, aquela papelada toda que têm de preencher, quando, ainda por cima, hoje há novas tecnologias. Tantas mudanças seguidas, tanta legislação, sem dar tempo para respirar! Eu acho que na educação deveria haver um consenso entre os sindicatos, os partidos e o governo para que houvesse alguma estabilidade e deixassem os professores trabalhar. Sem sobressaltos.