Dragagens na Lagoa deverão estar concluídas em abril

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A draga está atualmente no Braço da Barrosa, de onde deverão ser retirados 70 mil metros cúbicos de sedimentos

A decorrer a bom ritmo, a intervenção deverá estar finalizada em abril, mas a conclusão da empreitada apenas está prevista para finais de outubro. A draga está agora a desassorear o Braço da Barrosa

Iniciadas no verão, as dragagens na Lagoa de Óbidos entraram, esta semana na sua fase 3 bis (de quatro fases), que consiste na dragagem do canal do Braço da Barrosa, de onde deverão ser retirados mais de 70 mil metros cúbicos de sedimentos. Neste momento já está concluída a dragagem do canal comum, do canal da foz do rio Real, da bacia da foz do rio Real e do canal do Bom Sucesso.
A empreitada, que está a ser concretizada pelo consórcio Alexandre Barbosa Borges, SA/Vinci – Construction Maritime et Fluvial, tem por objetivo a dragagem de 875 mil metros cúbicos de areia, ao longo de quatro quilómetros de canais e 27 hectares de bacias daquele ecossistema.
A areia retirada do fundo da lagoa está a ser depositada no mar, a partir da arriba do Gronho, por ‘rainbow’, ou seja, o transporte por tubagem flutuante, com auxílio de estações intermédias de bombagem, denominadas boosters.
A intervenção prevê, ainda, a valorização ambiental de uma área de 78 hectares a montante da foz do rio Real, sobretudo através da erradicação de vegetação infestante e plantação de espécies vegetais autóctones.
Com um custo ordem dos 14,6 milhões de euros (financiados em 85% pelo POSEUR e em 15% e pelo Fundo Ambiental), as dragagens deverão durar 12 meses a ser feitas, num total de 18 meses de intervenção.
De acordo com Filipe Daniel, presidente da Câmara de Óbidos, a intervenção estará a decorrer dentro dos prazos previstos no programa de trabalhos.
“Da monitorização ambiental efetuada à qualidade da água, não se têm verificado resultados fora dos parâmetros normais para a lagoa e águas costeiras”, explica o chefe do executivo municipal à Gazeta das Caldas.
Ainda de acordo com informações prestadas pelo autarca, já foi executado um volume de dragagem de cerca de 507 mil metros cúbicos, com rejeição para o mar, a sul do penedo do Gronho.
“O prazo da empreitada termina em 29 de outubro, mas prevê-se que a operação de dragagem esteja concluída em abril próximo”, avança Filipe Daniel.
Também Fernando Ângelo, presidente da Associação de Pescadores e Mariscadores da Lagoa de Óbidos, considera que as dragagens estão a decorrer dentro do prazo que era expectável e teve um impacto muito reduzido nos mariscadores, mas lembra que já se registaram alguns percalços. Um desses casos deu-se com a máquina giratória que ficou “atolada” durante algum tempo na lagoa, num local onde havia marisco e que implicou algumas manobras dos mariscadores para fazerem o seu trabalho.
Aquele responsável destaca a boa relação com a fiscalização da obra, que permite minimizar incómodos. No entanto, nem sempre foi assim. Fernando Ângelo lamenta que a associação “não tenha podido ter uma voz mais ativa antes do início da intervenção, participando no processo para a sua realização”.
Agora, a associação faz parte do processo, até com alguns protocolos estabelecidos, nomeadamente com o IPIMAR, para a recolha de água para amostragem.

Intervenção “peca por tardia”
Embora com algum atraso, esta intervenção complementa a primeira fase das dragagens, realizadas em 2015 e que consistiu na retirada de 716 mil metros cúbicos de areia da lagoa, para combater o assoreamento na zona inferior, de ligação ao mar. É sobretudo este espaço temporal que mediou as duas intervenções que preocupa os autarcas das Caldas e de Óbidos, que já solicitaram uma reunião conjunta à APA, para discussão desta problemática e de outras matérias relativas à Lagoa, que esperam “possa ocorrer em breve”, explica o autarca das Caldas, Vítor Marques.
Também Frederico Lopes, presidente da Junta de Freguesia do Vau, reconhece que a intervenção que está a ser feita na zona das cabeceiras é necessária e que lhe parece que “está a ser bem feita”, mas que peca por tardia. “Devia ter sido feita logo a seguir à dragagem da parte inferior da lagoa, dando-lhe continuidade, porque agora já estamos com necessidade de dragar aquela zona novamente”, refere. O autarca acrescenta que essa intervenção não está no caderno de encargos destas dragagens, mas entende que “deveria ser um esforço nesse sentido, por parte das câmaras de Óbidos e das Caldas”.
Por outro lado, o presidente de junta lamenta a falta de comunicação e até de “alguma transparência”, por parte da APA, ao não lhe facultar o caderno de encargos e plano de monitorização e acompanhamento das obras, quando lhe foi solicitado.
Também a realização de testes para o lançamento dos sedimentos para o mar, em plena época balnear, não terá sido a decisão mais acertada, na sua opinião, com impactos ao nível do turismo . Ainda assim, no estaleiro estão afixadas imagens com informação sobre as diversas fases de intervenção e respetiva calendarização, e são disponibilizadas informações na primeira e terceira quarta-feira de cada mês. Afixadas estão também as análises, mas os últimos resultados datam de agosto do ano passado.
Há mais de 40 anos que o braço da Barrosa não era dragado, lembra a presidente da Junta de Nadadouro, Alice Gesteiro, para dar nota da importância desta intervenção para a preservação da lagoa. “É muito importante para a lagoa ganhar aqui peso de água e não assorear tão depressa”, explica a autarca, que também corrobora da opinião de que esta intervenção deveria ter sido feita imediatamente após a de 2015.
A “olho nú” parece que a obra está a “andar bastante depressa, quero acreditar que o processo será normal”, diz Alice Gesteiro, que está a aguardar pela reunião de acompanhamento, que reúne as diversas entidades e o presidente da APA, e que irá decorrer a 27 de janeiro.

Projetos para a envolvente
A Câmara das Caldas está a reavaliar o Projeto de Requalificação da Frente Lagunar, entre o cais e o Penedo Furado. Ao nível da dinamização do território junto à lagoa está a ser “desenvolvido um trabalho para a implementação de projetos ligados aos desportos náuticos e a percursos pedestres e clicáveis”, salientou Vítor Marques. No que respeita ao Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos (CILO), a autarquia irá reunir brevemente com a Liga Portuguesa da Natureza (entidade que implementou o projeto vencedor do Orçamento Participativo de Portugal), para “abordar diversas matérias sobre o Cilo e possivelmente calendarizar para breve a “inauguração “ do espaço do centro de interpretação”, situado na Foz do Arelho. ■

A lagoa vai ficar “com melhor qualidade de água e o impacto é mínimo”

Pescador há 50 anos, Alberto Jacinto destaca a importância das dragagens para a manutenção da Lagoa

Alberto Jacinto junto da sua bateira, Begoto, após uma manhã de pesca de caranguejos

Alberto Jacinto entra diariamente na sua bateira pelas 8h00 e regressa a terra duas a três horas depois com a pesca feita. Agora, aos 58 anos, dedica-se à apanha do caranguejo na Lagoa de Óbidos, uma pesca “mais fácil” para a sua idade, diz, acrescentando que o pescado é para encomendas e também para vender à Aki – D’el-Mar, a empresa de comércio de marisco onde também trabalha, que depois distribui pelos supermercados.
No entanto, nem sempre foi assim. Filho e neto de pescadores, Alberto Jacinto, natural do Nadadouro, começou a pescar na lagoa aos oito anos. Aos 16 anos comprou o seu primeiro barco, depois tirou a cédula marítima. “Durante 30 anos andei dedicado à pesca a tempo inteiro e ainda agora venho cá praticamente todos os dias”, conta, lembrando que também trabalhou, durante oito anos em cerâmica, mas nunca deixou de pescar.
Apaixonado pela Lagoa, o pescador nota grandes diferenças com o passar dos anos, nomeadamente ao nível da falta de pescado, resultado do crescente assoreamento. A intervenção que atualmente está a ser feita nas cabeceiras é, no seu ponto de vista, “a melhor que se podia fazer” porque a lagoa “está a ficar com melhor qualidade de água e o impacto ambiental é mínimo. Isto, de facto, é uma dragagem excelente”, concretiza.
Também o facto dos dragados irem diretamente para o mar não danifica as margens da lagoa, nem prejudica a apanha de bivalves porque a água tem estado com excelente qualidade, acrescenta Alberto Jacinto, que tem acompanhado outras dragagens e considera que estas intervenções são necessárias para a manutenção da lagoa.
De acordo com o pescador, todas as dragagens que são feitas na zona da aberta (ligação da lagoa ao mar) têm uma durabilidade menor do que na parte superior, porque “fazem-se buracos fundos perto do mar e ele transporta areia para o corpo central da Lagoa, por força da corrente”. Considera que terá de ser feita uma nova intervenção nessa zona, mas que também era necessária a que está a ser feita, de modo a garantir a qualidade da água dentro da lagoa.
Alberto Jacinto está optimista que com esta intervenção possa, no futuro, haver mais peixe e bivalves, “porque a qualidade da água será maior, os fundos foram mexidos”, conclui.■