É preciso dotar o SNS de mais técnicos de saúde mental neste período pós pandemia

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Na região, o CHO regista uma “evolução”, com mais recursos e investimentos na área da saúde mental e anseia pelo internamento, que deverá começar a funcionar no próximo ano, em Peniche

“A pandemia tem uma grande importância em termos do agravamento da saúde mental. Os serviços de psiquiatria e saúde mental estão subfinanciados e se não forem tomadas medidas muito rápidas o panorama vai-se agravar ainda mais”. O alerta foi deixado pelo psiquiatra Daniel Sampaio, a 10 de outubro, na sessão comemorativa do Dia Internacional da Saúde Mental, que decorreu no Edificio da Psiquiatria, da unidade caldense do CHO.
O especialista, que esteve infectado com o vírus da Covid 19 no início do ano, considera que a pandemia é mais uma razão para que sejam criados serviços que possam dar uma resposta adequada às pessoas que sofrem de perturbações psiquiátricas. “É importante percebermos que em Portugal existe subfinaciamento para a saúde mental e não é fácil ter acesso a uma consulta de psiquiatria nos nossos hospitais, apesar dos excelentes profissionais que temos espalhados pelo país”, disse. O também professor universitário considera que tem-se combatido muito pouco o estigma e que há uma iliteracia muito evidente no que respeita à saúde mental, defendendo que é preciso falar mais sobre este assunto, nomeadamente as figuras públicas, mas também nas escolas, e levar as pessoas a procurar ajuda.

O CRI de Psiquiatria a e Saúde Mental do CHO assinalou o Dia Internacional da Saúde Mental com um evento nas suas instalações, nas Caldas

“Não é fácil ter acesso a uma consulta de psiquiatria nos nossos hospitais”

Daniel Sampaio

Perante uma plateia de profissionais de saúde, Daniel Sampaio partilhou a sua experiência de luta contra o vírus, que o levou, no início do ano, a estar 50 dias internado, 15 dos quais em coma induzido. Teve pouquíssimos sintomas “de uma doença muita grave”, apenas uma pequena obstrução nasal, que assumiu como sendo constipação, e quando por insistência de amigos foi verificar os níveis de oxigénio estes estavam baixos e foi internado. Um dia depois estava nos Cuidados Intensivos. Foi dessa experiência “muito dificil”, que também quis falar, porque tratou-se de um período confusional em que desejou que houvesse um psicólogo ou psiquiatra com quem pudesse falar e partilhar a sua ansiedade.
Daniel Sampaio considera que são necessários mais técnicos, sobretudo a nível da psicologia e terapia ocupacional. “Precisamos de dotar o SNS de recursos que possam fazer face a este período pós pandémico, que vai ser particularmente difícil para as questões de saúde mental”, defendeu, acrescentando que também nos centros de saúde as equipas de saúde mental são muito importantes para tratar as perturbações psiquiátricas mais frequentes, como a ansiedade e depressão.

Internamento de Psiquiatria
Daniel Sampaio, que foi diretor do serviço de psiquiatria no Hospital de Santa Maria, esteve na coordenação do projeto de psiquiatria do CHO e destaca que este é particularmente importante para si. O serviço, que começou com consultas feitas pelos médicos do serviço de psiquiatria do Hopsital de Santa Maria foi-se desenvolvendo e a equipa de saúde mental do CHO é agora constituída por oito psiquiatras, quatro psicólogos, cinco enfermeiros, que dão resposta aos utentes das unidades das Caldas da Rainha e Peniche. Está também já a fazer a transição em Torres Vedras, onde o serviço tem sido assegurado por profissionais do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.
“Espero que em breve possa existir um serviço de psiquiatria com internamento e hospital de dia, como é desejo dos profissionais e, sobretudo, das populações dessa zona”, referiu o psiquiatra, destacando as necessidades existentes em termos de saúde mental e que o acesso a Lisboa, apesar de não ser longe, por vezes não é fácil para as famílias oestinas.
Um desejo também partilhado pela presidente do Conselho de Administração do CHO, Elsa Baião, que espera que o serviço de internamento de Psiquiatria, no Hospital de Peniche, possa estar concretizado dentro de um ano, com 15 camas, e a perspetiva de depois alargarem para mais 10 camas.
De acordo com a responsável, este centro hospitalar bons motivos para comemorar a data, tendo em conta a “evolução extraordinária ao nível da saúde mental” dos últimos anos, com mais recursos e investimentos para esta área, que está a crescer.

“O serviço esteve sempre a funcionar durante o período de pandemia ”

Patrícia Frade

Patrícia Frade, diretora da CRI de Psiquiatria a e Saúde Mental do CHO, considera urgente a resposta de internamento, em Peniche

Sem lista de espera
De acordo com Patrícia Frade, diretora da CRI de Psiquiatria a e Saúde Mental do CHO, o tempo de espera para uma consulta da especialidade, depois de referenciada pelos médicos de família, é inferior a três meses. “Melhorámos imenso em relação há uns anos”, explicou, acrescentando que esta melhoria deveu-se ao aumento de recursos humanos. Antes havia um psiquiatra e um prestador de serviços, mas a equipa foi sendo alargada e atualmente é constituída por oito psiquiatras, quatro psicólogos e cinco enfermeiros, que vão dando resposta em função da prioridade.
Este serviço esteve sempre a funcionar durante o periodo de pandemia. “Organizámo-nos de forma a manter sempre uma atividade presencial para doentes que necessitavam de ser vistos presencialmente e fazer teleconsultas para doentes que não tinham essa necessidade, nos casos dos doentes não covid”, especificou. A mesma equipa deu apoio à Unidade de Internamento Covid nas Caldas da Rainha, com psiquiatras e psicólogos a ajudar doentes internados e família.
Patrícia Frade considera “urgente” que se façam obras no Hospital de Peniche para conseguirem dar resposta localmente aos doentes. Com o internamento serão necessários mais recursos humanos, nomeadamente psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes operacionais, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, concretizou a responsável.
Atualmente os internamentos são assegurados em Lisboa, os utentes das Caldas e Peniche vão para o Hospital de Santa Maria, e de Torres Vedras para o Centro Hospitalar Psiquiátrico. ■