Escrito a Chumbo 24

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15 de junho de 1974

Esta semana é destaque na Gazeta das Caldas a vinda de Spínola, então Presidente da República da Junta de Salvação Nacional, à cidade termal, onde foi “recebido festivamente”.
“Estamos a fazer tudo para que a paz volte ao ultramar Português, no respeito pela vontade soberana dos povos desses territórios”, afirmou o Presidente da República.
A Gazeta conta que a cidade o recebeu “com uma grande e significativa manifestação – manifestação a revelar a firme disposição do povo caldense de defender fervorosamente as liberdades conquistadas”, num artigo com algumas passagens do discurso de Spínola nas Caldas, como os votos “que os soldados se mantenham vigilantes e firmes na defesa dos ideais de liberdade ameaçada por quantos defendem uma política de «terra queimada para a reconstrução do País. O 25 de Abril foi a demonstração e concretização prática da fusão da Pátria com as suas Forças Armadas através dos Soldados”, ou que “nasceu no coração de todos os portugueses a esperança da construção de um Portugal novo em paz, onde todos os portugueses pudessem viver uma vida digna, uma vida livre, uma vida com mais justiça social, traduzida numa mais equitativa distribuição de riqueza. Mas esse Portugal novo só pode ser construído na PAZ e no TRABALHO”.

O Presidente da República garantiu ainda que “as Forças Armadas não deixarão derrubar a liberdade que vos foi restituída. É esta a certeza que desejo ficar bem vincada nas Caldas da Rainha. Tenham confiança no VOSSO regimento porque representa a força que levou ao 25 de Abril” e que “os que pretendem arruinar o país, levá-lo ao caos económico, à crise do desemprego, à falta de pão esses não são portugueses. Esses são traidores do Povo”, terminando a recordar que “Liberdade é dar ao Povo a oportunidade de escolher livremente o seu destino”.

 

O PROGRAMA INTERROMPIDO
A Gazeta das Caldas questiona também nesta edição “porque foi interrompido o espectáculo que estava a ser transmitido no Mercado da Primavera?”, num artigo de António Avelãs.
“Na Televisão começaram as questões. Como toda a gente já sabe, no dia 10 de Junho – dia de Portugal a R. T. P. decidiu cobrir os acontecimentos do «Mercado da Primavera». E o programa começou por nos demonstrar a maneira nova, simples, informal com que o nosso povo quis comemorar o 10 de Junho, associando-se à feliz ideia de alguns artistas que decidiram fazer um painel enorme tendo como tema o 25 de Abril. A estas comemorações juntou-se também a Comuna. E aqui começam as complicações: a Comuna é um grupo que ao que parece pretende fazer um Teatro nitidamente popular, numa linguagem e temas facilmente acessíveis ao cidadão menos letrado. E achou por bem que a «sua» colaboração na festa fosse caricaturizando as figuras do regime fascista”, conta o articulista do jornal.
“E não houve problemas enquanto se caricaturizou a PIDE identificando-a com a asquerosa GESTAPO hitleriana (de resto nem é sequer uma caricatura: a identificação é correcta e real). Surgiu o Américo Tomás caricaturizado num «corta-fitas» bem caquético. E isso também a Televisão deixou passar. O pior foi quando surgiu nos écrans a referência directa ao antigo Patriarca de Lisboa o Cardeal Cerejeira. Foi só então que o major Mariz Fernandes, delegado da Junta de Salvação Nacional, ordenou o corte do programa. É justo perguntar: porquê tal atitude? Que motivos se poderão invocar para tal decisão? Seria o programa defensor do fascismo? É evidente que não! Divulgaria o programa segredos militares? Também não, é claro. Seria o programa de baixo nível cultural? Talvez fosse, mas a seguir esse critério, teríamos de cortar (ainda) muitos programas da televisão. Seria o programa politicamente pouco oportuno? Esta questão já é mais delicada. Não duvido de que o que a Comuna queria dizer ao associar o Cardeal Cerejeira ao regime fascista seja correcto e verdadeiro. A Igreja Católica foi, realmente, um dos sólidos pilares do regime deposto. Isso não discuto. Mas será politicamente correcto fazer essa acusação em termos que vão bulir com os preconceitos religiosos de grande parte da população, sobretudo a menos preparada politicamente? Parece-me que não é, até porque poderia fazer com que essas mesmas pessoas confundam o actual momento político com um movimento anti-religioso, o que, além de não ser verdadeiro, pode afastar e pôr contra o Governo Provisório parte da população pouco politizada que os fascistas procurarão manipular. É preciso denunciar a responsabilidade que cabe à Igreja na manutenção do regime fascista no país; mas há que fazê-lo em termos correctos, claros, que não possam bulir com a religiosidade das pessoas.
Concluo, portanto, que o espectáculo era pouco oportuno: mas será isso razão suficiente para a intervenção da Junta de Salvação Nacional ordenando o corte do programa? Que diferença há entre esta intervenção e o método usado pela censura fascista?
Por outras palavras: aceitaremos que os meios de comunicação continuem sujeitos a «cortes» só porque determinado programa ou artigo não agrada a tal ou tal corrente política, ideológica ou religiosa?
Concretamente se aceitamos que a R. T. P. transmita as missas dominicais e, portanto, pondo-se ao serviço de uma Igreja – não teremos de aceitar, para defender o espírito de isenção da R. T. P. – que ela também transmita programas que apontem os erros dessa mesma Igreja? E que garantias temos nós que o que aconteceu agora com este programa não venha acontecer com outros só porque pode «magoar» determinada corrente política ou religiosa?
Tenhamos a coragem de aceitar que a censura acabou mesmo e não teremos outra hipótese senão considerar infeliz a decisão do delegado da J. S. N.”, afirma. “No fundo, há dois responsáveis: a Comuna porque apresenta um programa politicamente inoportuno, e o delegado da J. S. N. que interpretou erradamente a sua missão. De tudo o que disse, parece haver contradição.
Mas a solução era muito fácil: Se a Igreja se sentisse ofendida pelo programa, teria ao seu dispôr as câmaras da R. T. P. para dizer da sua justiça, rebater a acusação que lhe era feita ou lamentar os termos em que era apresentada. Se algum partido político, a Junta de Salvação Nacional, ou o Governo Provisório julgasse condenar o programa de um ponto de vista político, procederia do mesmo modo:usava a R.T.P. para esclarecer os espectadores. Se assim se tivesse feito, teria o nosso povo recebido uma bela lição de democracia e de liberdade.
Se assim se tivesse feito, teria o nosso povo percebido que há liberdade de dizer as coisas mas que há que exigir responsabilidade naquilo que se diz. Assim, fomos postos perante um modo de actuar a que já estamos felizmente desabituados e que o povo português quer afastar definitivamente”, aponta.
“Resta-me pedir calma e serenidade a todos. Considere-se este facto um acidente próprio de um período de evolução e transição, não lhe dando uma importância e significado que ele não tem. Não permitamos que estes factos, embora lamentáveis, possam servir o interesse dos que estão mais interessados em levantar e provocar problemas do que em consolidar as liberdades tão dificilmente conquistadas. Mas estejamos atentos para evitar que intervenções tão infelizes como esta não voltem a repetir-se”, termina.

SÃO GREGÓRIO
Nesta edição temos a freguesia de São Gregório em grande foco, com a eleição da comissão para a Junta de Freguesia e dos representantes à concelhia do Movimento Democrático Português.
“O desmantelar da máquina fascista continua”, principia o artigo. “As Juntas de Freguesia, pela sua ligação directa com o povo, constituem objectivos importantes a conquistar pelas forças democráticas. É por isso que se considera tarefa urgente a substituição das juntas de freguesia, de modo a pô-las ao verdadeiro serviço do povo”, realça a Gazeta, notando que “a freguesia de São Gregório já se encontra lançada neste processo: escolheu na reunião de sábado passado, os nomes para a junta de freguesia”.
E nesta edição apresentam as reivindicações da freguesia: “uma escola nova com duas salas de aula, em local a escolher pelo povo”, sendo que a escola existente seria reconstruída para albergar a Casa do Povo e Junta de Freguesia. A criação e melhoria das estradas, o abastecimento de águas e a rede de esgotos, a eletrificação e até o horário a que tinham acesso ao pão (às 11h00, desde que a padaria havia encerrado) fazem parte da lista.

 

CONVERSANDO SOBRE FUTEBOL
Nesta edição temos ainda um interessante diálogo sobre o futebol profissional e a vida dos jogadores há 50 anos, com José Manuel Ventura Inácio e João Morais a debater a temática.

 

 

 

O MUSEU ARQUEOLÓGICO
Para quando a criação do Museu Arqueológico nas Caldas?”, questiona a Gazeta. “É sabido há já muitos anos, principalmente através das colunas da «Gazeta das Caldas», que nesta Cidade e arredores, existe um valioso espólio Paleontológico e Arqueológico, em parte reunido mas a maioria disperso, abandonado e sujeito a destruições irreparáveis”, começa por referir a peça. “Em face disso, há cerca de sete anos que um carola estudioso, vem fazendo diligências junto da entidade Municipal para que se crie aqui um pequeno Museu Municipal, mesmo em instalações provisórias, não tendo sido nunca possível encontrar uma sala para êsse efeito. O Fialho Gouveia diria: PARECE IMPOSSÍVEL!
Sabe-se, entretanto, que na presidência do Senhor Engenheiro Paiva e Sousa foram envidados esforços a nível oficial e até religioso para a cedência da Igreja de S. Sebastião, considerada satisfatória de princípio, para aquele fim, mas até hoje nada foi resolvido”, lê-se.

A EDUCAÇÃO
Esta semana prossegue a temática da educação, integrada na Semana da Criança, na primeira vez que se comemorou a data nas Caldas. A não perder, 50 anos depois, a visão sobre a educação partilhada na conferência com José Francisco Nereu na sede do CCC (não, não é o CCC – Centro e Cultural de Congressos das Caldas! É o CCC – Conjunto Cénico Caldense!).

O CENTRO HOSPITALAR
Destaque ainda para a eleição da Comissão de Gestão Administrativa do Centro Hospitalar de Caldas da Rainha. “Foi destituída a Comissão Instaladora, substituída por uma Comissão de Gestão Administrativa”, conta o jornal, esclarecendo que a votação terminou com 99 votos a favor e 37 contra, registando-se ainda 5 nulos.

A SEDE DO PS
Nota também para a inauguração da sede do PS no Bombarral, no rés-do-chão do número 91 da Rua D. Afonso Henriques e para mais um cartoon de Figueiredo Sobral na primeira página do jornal.

 

 

 

 

 

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá.