José Carlos Nogueira: o socialista que foi cicerone dos jornalistas no 16 de Março

0
105
José Carlos Nogueira, com uma saudação maçónica, foi o Supremo Grande Comendador do Grau 33 da Grande Loja Regular de Portugal da Maçonaria,

José Carlos Nogueira trabalhou na RTP antes do 25 de Abril e, por isso, ligaram-lhe para “receber” os jornalistas no 16 de março. Foi um dos fundadores do Partido Socialista nas Caldas e chegou a Supremo Grande Comendador da maçonaria

Após a saída dos militares das Caldas, no dia 16 de março de 1974, o caldense José Carlos Nogueira recebeu uma chamada da RTP a informá-lo de que haviam problemas no quartel das Caldas. “Não sabia o que se passava”, recorda. Dizem-lhe também que iam a caminho de sua casa quatro jornalistas estrangeiros que deveria ajudá-los a obter informações sobre o golpe. Isto porque este caldense tinha trabalhado vários anos na RTP, de onde saíra em 1973.

Na visita de Ramalho Eanes (com quem travou amizade) às Caldas

José Carlos Nogueira foi, assim, o cicerone dos jornalistas estrangeiros que vieram cobrir o 16 de março às Caldas. “Falei com algumas pessoas para darem entrevistas”, lembra o caldense, que há poucos meses tinha regressado às origens. Quem lhe ligou da RTP foi… o realizador e amigo do caldense Alfredo Tropa.
Mas esse foi “apenas” mais um episódio de uma vida cheia de histórias. Do 25 de Abril soube da revolução pela voz de um militar, de nome Geraldes e que tinha a particularidade de ser afilhado de Ramalho Eanes. “Ligou-me a dizer que a tropa tinha saído para a rua”, evoca. Sobre essa revolução diz que “foi corporativa e estudada ao milímetro”.
Outro episódio curioso dá-se pouco depois do 25 de Abril, a 25 de novembro, quando os estúdios da RTP em Lisboa são ocupados por Duran Clemente, que manda interromper a Telescola e colocar música portuguesa.
À época, o sinal transmitido para o Porto era diferente do de Lisboa e há a necessidade de tirar do ar esta emissão. A quem se ligaria por volta das 15h00, para ir a Montejunto, à estação de radar que existe no topo da serra, para alterar o sinal de Lisboa para o Porto, colocando no ar na capital o mesmo filme de Danny Kaye que estava a ser transmitido no Norte? Exato, a José Carlos Nogueira.
A imagem que fica é de Duran Clemente a perguntar se não podia falar por razões de ordem técnica antes de a transmissão ser comutada. E foi o fim da instabilidade caraterística do PREC.

O Dia do Estudante no Técnico
Nascido em 1941, José Carlos Nogueira viveu nas Caldas da Rainha, onde os pais se decidiram instalar em 1936. “Gostaram muito das Caldas e ficaram cá, onde o meu pai abriu a loja Tália, que vendia livros, artigos de papelaria, bugigangas e que foi das primeiras a vender discos”, lembrou.
Até ao 7º ano estudou no Externato Ramalho Ortigão e aí foi para Lisboa, formar-se em Engenharia no Instituto Superior Técnico.
Foi lá que viveu o Dia do Estudante de 1961, sendo um dos que ocupou a cantina da escola.
“O Ministro mandou fechar a cantina e prender toda a gente. Fomos levados, em carrinhas azuis, que eram chamadas de Creme Nivea, para o Regimento de Artilharia Pesada de Oeiras e na parada estavam várias secretárias com agentes da PIDE. Cada um de nós tinha que dar os seus dados, como o nome, a idade, entre outros. Fomos todos identificados”, recorda.
“Alguns, que já eram vigiados, foram presos”, faz notar. Nesse momento da sua vida, valeu-lhe (e a vários outros caldenses) o inspetor Mendes Del-Rio Nazaré, da PJ, um caldense de quem se viria a tornar grande amigo. “Ele zelou por nós e garantiu à PIDE que não eramos comunistas perigosos”. Tal facto valeu-lhes não ficarem com cadastro político. No entanto, não os livrou do primeiro castigo: ir para a tropa. Foi para Mafra, onde fez a recruta, seguindo depois para o Quartel de Serviço Material, em Sacavém. Posteriormente foi para a capital, para o Regimento de Caçadores nº5 e, por fim, para o Regimento de Lanceiros nº2.
“Estive seis anos na tropa e como fui o melhor classificado do curso não tive que ir para fora do país”, faz notar. “Eu não era anti-militar, mas via a tropa de uma outra maneira”, conta.

“Lembro-me de estar a gravar programas com os agentes da PIDE atrás a dizer: -corta! O quarto poder, que são os meios de comunicação social, era altamente controlado”

José Carlos Nogueira

 

A entrada na RTP
Em 1967 José Carlos Nogueira fez o curso de Psicologia Aplicada e depois o de Antropologia e Sociologia das Religiões e do Pensamento Religioso, mas nunca exerceu. É que nesse mesmo ano começa a trabalhar para a RTP.
“Vi um anúncio do concurso para operadores de televisão, fui, fiz as provas e chamaram-me”, conta. Foi contratado para operador de 3ª, a receber então 1100 escudos por mês. Conseguiu chegar à área do videotape, que dentro da televisão era o que toda a gente queria fazer, “até porque aparecia o nome do autor nos programas”.
Dessa experiência recorda que enquanto quarto poder, os media eram altamente controlados. “Lembro-me de estar a gravar programas com agentes atrás a dizer: “corta!”, partilhou, acrescentando que a presença de um PIDE no estúdio era obrigatória. “Chamávamos-lhes os regentes de Emissão”.

A fundação do PS
José Carlos Nogueira não é um dos membros fundadores do Partido Socialista, mas esteve presente desde o momento em que este chegou a Portugal.
Das histórias dos primeiros tempos do partido recorda-se, por exemplo, de “ir ao aeroporto buscar um funcionário do PS que havia ido à Suécia buscar uma mala cheia de dólares do partido de Olof Palme para financiar o Partido Socialista português”.
Outros episódios curiosos deram-se após uma reunião em casa de Mário Soares em que “o Jaime Gama entrou a dizer que estávamos lixados, porque a América ia entrar em Portugal pela via dura, com o Carlucci, porque os Partidos Comunistas na Europa estavam a ganhar força”.
Depois de um encontro entre Kissinger e Mário Soares, conseguiram marcar um encontro entre este último e Carlucci. “Foi na sede do PS na Rua da Emenda, levei o Carlucci pelo elevador”, contou.
A nível local, José Carlos Nogueira foi um dos fundadores do PS e foi eleito para deputado municipal nas primeiras eleições democráticas, que colocaram o seu amigo Lalanda Ribeiro como presidente de Câmara, eleito pelo PSD. ■

 

Nos jantares do 31 de janeiro que eram organizados nas Caldas

O caldense que chegou a Supremo Grande Comendador da Loja Regular da Maçonaria

Foi no meio de uma vinha, ainda antes do 25 de abril, que José Carlos Nogueira foi iniciado à maçonaria

Numa vida repleta, o caldense José Carlos Nogueira tem ainda a particularidade de ter sido Supremo Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 da Grande Loja Regular de Portugal da Maçonaria.
Deixou esse cargo há cerca de dez anos. Ainda assim, “nunca desligamos da maçonaria, uma vez maçon, sempre maçon. É uma luta constante pela liberdade tout court”, faz notar, acrescentando que dentro da maçonaria não entram questões partidárias.
José Carlos Nogueira iniciou-se na maçonaria em 1974, ainda antes do 25 de abril, numa vinha e a convite de Vítor Cesário da Fonseca, um republicano de Torres Vedras “que era o mais velho maçon do país, boa gente”.
Para a maçonaria, explica, “o templo maçónico não tem limitações, e a natureza é tudo, daí que a iniciação possa ser numa vinha, numa sala, possa ser onde for”, esclareceu.
“A iniciação é o depositar em ti a apetência pelo conhecimento, pelo estudar e pelo saber”, resume. “Antes do 25 de abril era mais perigoso ser maçon do que ser comunista”, afirma.
Enquanto maçon visitou vários países para as reuniões anuais, em sítios rotativos, como a Rússia, Bulgária, França, Alemanha, Austrália, entre outros.

Com o caldense Mendes Del-Rio Nazaré, que era inspetor da PJ, travou uma grande amizade, defendendo-se mutuamente

Amizade com inspetor
Do pós-25 de abril recorda o momento em que utilizou os seus conhecimentos e influência política para defender o caldense inspetor Nazaré.
“Disse que ele não era fascista e que podia ser mais útil à democracia do que muitos e ao ponto de ter sido!”, exclamou, concluindo: “ele era das Caldas e depois comprou um casal ao pé da Serra do Bouro, que tinha um moinho com vista para o mar, e foi aí, nesse moinho do inspetor Nazaré, que se deu uma reunião do Grupo dos Nove que contribuiu para evitar uma guerra civil”.

Inspetor chegou a intimar José Carlos Nogueira e outros amigos para… jantarem

Sobre o inspetor Nazaré lembra que “convocava-nos por uma intimação. Éramos intimados a aparecer na Polícia Judiciária e ficávamos surpresos, mas quando aparecíamos era o Nazaré para irmos jantar, por exemplo”, conta entre sorrisos.

A adaptação de uma empresa
Foi também no pós-25 de abril que José Carlos Nogueira, que já havia casado em 1969, com festa no restaurante da Simone de Oliveira, ajudou o cunhado, Carlos Gil, na gestão da Vidraria Marinhense, que era propriedade do seu sogro e que se localizava perto do agora Hemiciclo João Paulo II.
“A construção civil não parou, mas havia uma grande dificuldade em que os fornecedores trouxessem material e que os clientes pagassem, era tudo sobre o joelho, havia empresas a renovar letras com letras”, disse.
Tal levou-o a adaptar a empresa para criar uma casa de construção de stands de exposição, chamada de Vimar (nome inspirado na Vidraria Marinhense).
“Chegou a ser a maior casa de construção de stands para feiras do país e tinha capacidade para montar 900 módulos com 8100 metros quadrados”. Era um sistema inovador em Portugal, com placas de contraplacado e tabopan que eram unidas por peças que trouxe da Alemanha.
A empresa era contratada por entidades privadas e públicas que organizavam eventos como feiras e exposições. Os stands da Vimar eram requisitados para todo o país, e não só, também Espanha, França e onde houvesse solicitações.
A empresa tinha arquitetos a desenhar stands, eletricistas, assentadores de carpetes, serralheiros, canalizadores, etc. “Eu podia construir uma casa, porque afinal de contas, um stand era uma casa pequena”, refere.
Simultaneamente, enquanto adaptava a empresa, ajudava o pai na gestão da Tália até ao encerramento.
Entretanto, nos finais da década de 1980, reformou-se. Daí para cá tem procurado continuar a aprender e a conviver com os amigos.
“Continuo a estudar no dia-a-dia, a ler, a contatar com os meus amigos e a contar umas anedotas e umas piadas, a viver”, referiu. “Gosto imenso de estar com os meus amigos!”, concluiu. ■