O empreendedorismo está no sangue dos beneditenses

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Três empresários falam do empreendedorismo na freguesia da Benedita e todos apontam motivos diferentes para a dinâmica da terra, o que, por si só, já explica a razão do sucesso. Mas há um argumento que é comum a todos: as pessoas

O espírito empreendedor é uma das características mais marcantes dos beneditenses, cujo espírito de iniciativa faz ultrapassar barreiras geográficas e escassez de recursos para tornar a freguesia numa das mais industrializadas do país.
Mas o que é que faz dos beneditenses um povo tão empreendedor? A história dá algumas pistas para o sucesso da apetência destes homens e mulheres para o mundo dos negócios.
No rego citado pela própria Junta de Freguesia da Benedita, na sua página na Internet, faz-se menção às dificuldades atravessadas pela escassez de matéria-prima nos anos 1940, após a Segunda Grande Guerra.

Criação do Externato é visto como elemento fundamental para o surgir de tantos negócios na freguesia

Características da população permitem fazer muito com poucos recursos

“A pobreza do solo agrícola, aliada à falta de água, levou a que o espírito de iniciativa próprio da maneira de ‘ser beneditense’”, pode ler-se na página, que explica que os habitantes da aldeia faziam muito com pouco.
Luís Couto fundou a sua empresa do ramo do calçado, a Trofal, em 1978, então em parceria com o pai. Luís Couto tinha, então, 18 anos. A tradição vinha de família. “O meu avô já trabalhava no setor e o meu pai tinha ajudado a criar outras empresas, por isso tínhamos o know how, e a experiência”, conta.
Para o empresário, um dos maiores contributos para que a Benedita se tivesse um polo industrial tão relevante para a região e para o país tem motivos bem definidos.
A Benedita sempre foi terra de artesãos, desde os seus primórdios. Mas essas dificuldades atravessadas a partir da década de 1940 teve uma resposta decisiva.

“Houve um movimento proporcionado pelo Estado para juntar os pequenos artesãos e criar empresas industriais”, afirma. Esse programa, que decorreu na Benedita dos anos 1960, denominado Desenvolvimento Comunitário, teve, entre outros, apoio da Gulbenkian.
A par deste projeto, a fundação do Externato Cooperativo da Benedita foi um complemento fundamental, considera Luís Couto. “Tinha aulas noturnas, com cursos técnico-profissionais que davam equivalência ao liceu, mas eram dados em componentes industriais e comerciais”, recorda. Em conjunto, essas medidas “criaram dinamismo e conhecimento complementar na juventude, que trabalhava de dia e estudava de noite”, recorda.
Esse dinamismo fez com que, em poucos anos, à arte ancestral dos sapateiros, se juntasse um conjunto de outras atividades.

“Empreendedorismo é um embrião que existe desde sempre”

António Marquês

“Os jovens trabalhavam de dia e estudavam à noite”

Luís Couto

“Há aqui uma concorrência saudável”

Eugénia Machado

Essa complementaridade de atividades económicas é outro dos motivos para o sucesso, acredita António Marquês, fundador da Relgráfica, da Ribafria. “Numa primeira fase da empresa, não havia quem fizesse a serigrafia para a marroquinaria e foi o mercado que me puxou para essa atividade. E o mesmo tem acontecido até hoje, em que fazemos gravação laser e embalagens para produtos da Benedita que seguem para todo o mundo”, realça.
António Marquês corrobora da argumentação de Luís Couto, mas acrescenta um lado mais empírico. “É algo que está no sangue dos beneditenses, há aqui um viveiro de mentes nesse sentido”, acredita António Marquês, que se recorda de, no início da atividade, em 1981, “todas as semanas tinha pessoas a dizer: acabei de me coletar e preciso de livros”. O empreendedorismo, acredita, “é um embrião que existe aqui desde sempre, que se multiplicou e passou de gerações”.
O fundador da Relgráfica, empresa que se tem conseguido adaptar às constantes exigências do mercado, mesmo com a “explosão” do digital na última década, dá um exemplo característico do tal “ser beneditense”.
“Somos uma terra de pecuária, que consome muita água. Houve uma altura que havia falta de água, mas trazia-se carrinhas de água todos os dias, não foi a falta de água que travou”.
Eugénia Machado é sócia-gerente da Padaria Pastelaria Modelo, na Benedita, e junta a estes mais um motivo para o empreendedorismo dos beneditenses. “Nós na Benedita viajamos muito. E onde quer que vá, um beneditense procura o que de melhor se faz na sua área, para trazer e melhorar”, sustenta, acrescentando que é essa capacidade de evoluir que faz as empresas terem sucesso.
A própria história da Padaria Pastelaria Modelo é um exemplo desse empreendedorismo. A empresa foi criada, há cerca de 50 anos, pelos pais de Eugénia, cuja mãe foi a Lisboa tirar a carta de condução para adquirir uma viatura e distribuir o pão, “algo que era muito raro na altura entre as mulheres”.
Eugénia Machado acrescenta, ainda, que na Benedita há uma espécie de “concorrência saudável”, que faz as empresas crescerem juntas. Os resultados estão claramente à vista. ■

 

ALEB pode renovar o espírito empreendedor

Apesar de manter um espírito empreendedor forte, os últimos anos têm sido difíceis para a indústria da Benedita, por falta de uma zona industrial que permita o seu desenvolvimento. Algo que vai mudar com a construção da Área de Localização Empresarial, cujo processo de construção está em marcha após décadas de espera.
Luís Couto afirma que a falta da ALEB “foi um travão muito grande no empreendedorismo na Benedita”, apontando questões políticas para este arrastar. Mas o empresário acredita que a infraestrutura pode recuperar esse tempo perdido. “A juventude da Benedita é qualificada, mesmo os mais velhos são, há novos conceitos de negócio e a ALEB traz esperança”, acredita.
António Marquês concorda. “Com a ALEB, podíamos ter cá podiam estar cá outras industrias ou comércio, que complementava a industria tradicional”, lamenta. Apesar de algumas empresas já terem ficado pelo caminho, “a maior parte vai ter continuadores e vai-se manter”, acredita.
É essa, igualmente, a convicção de Maria de Lurdes Pedro. “A ALEB vai significar um crescimento económico, pelo surgimento de novas empresas e crescimento das atuais e isso impulsiona a fixação de famílias”, adianta, considerando que se trata de “um marco” para a freguesia.
A autarca considera que, construída na altura certa, a infraestrutura teria contribuído para uma Benedita “diferente”, mas sublinha que é altura de “olhar para o futuro e agradecer a todas as pessoas envolvidas no processo, nomeadamente ao município, pelo muito empenho ao longo destes anos”. ■