Órgão de tubos da Igreja de N. Sra. Pópulo voltou a tocar

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Instrumento, com quase 200 anos, foi recuperado e voltou a tocar no dia em que se comemorou o 96º aniversário da elevação das Caldas a cidade. Objetivo da autarquia é realizar concertos regulares

O órgão de tubos da Igreja de N. Sra. Pópulo foi recuperado e voltou a tocar na tarde de 26 de agosto, com um concerto comemorativo do 96º aniversário da elevação das Caldas a cidade.

Este é um instrumento da autoria de António Joaquim Fontanes e tem uma indicação por cima do teclado do ano de construção, 1826 (está a três anos do bicentenário).

O órgão foi recuperado pelo mestre António Simões, que contou aos jornalistas que o órgão “estava totalmente inoperacional, o móvel estava deteriorado, tinha sido cortado e colocado de lado, os tubos estavam partidos, faltava-lhe material”. O objetivo desta recuperação passou por fazê-lo voltar a cumprir os objetivos para o qual foi construído: dignificar a liturgia e ser cultura em concertos. A recuperação procurou ao máximo repor o original e, nesse campo, a pintura original do órgão, que estava escondida, foi descoberta durante os trabalhos e recuperada. “Este vermelho era a cor de origem”, conta. “A sonoridade foi puxada para a sonoridade da época”. A recuperação demorou cerca de um ano, com os constragimentos causados pelas obras de recuperação da igreja e também pela burocracia. “O órgão neste coro mexe muito e tive que o agarrar à parede, mas demorou seis meses a ter a autorização para fazer os buracos na parede”, contou.

António Simões realça ainda a importância da conservação e de não deixar a manutenção nas mãos de curiosos. “A primeira coisa é tocar, é uma peça mecânica, tudo funciona por mecanismos, se não fizermos a manutenção correta, vai parar”, explica. “Os instrumentos estragam-se mais pela mão humana do que pela ação do tempo”, frisa. “Este órgão serviu muitas vezes para ser andaime de obras, pouso de holofotes para a igreja e, quando foi construída a escada de caracol, o fole foi levado para os Pavilhões do Parque e por lá ficou perdido”, contou. Tal terá acontecido em meados do século passado, mas antes, conta António Simões, o instrumento “foi restaurado em 1880 por Paul Le Gros” e que crê que “foi nessa altura que se tentou transformar o órgão em expressivo, colocando na frente e laterais tubos de imitação em madeira que, em vez de serem sonoros, faziam parte de um sistema de janelas expressivas, mas que, dada a sua complexidade, não devem ter funcionado muito tempo”.

O mestre, que é natural de Ansião, afirma que, apesar de já ter realizado 200 restauros de órgãos, “este é importante porque vivo nas Caldas há dez anos”. Segundo António Simões, “este órgão não tem valor, é algo que não se vende, mas se hoje fossemos fazer uma peça como esta custaria um valor entre os 100 e os 200 mil euros”.

António Duarte (que é natural de Lisboa e que é professor de órgão na Escola de Música do Conservatório Nacional e organista titular da Sé Patriarcal de Lisboa), foi o artista convidado para estrear o órgão e trouxe um reportório dos séculos XVI, XVII e XVIII.

O concerto atraiu tantos interessados que a igreja foi pequena para tanta gente. A organização colocou cadeiras no exterior, mas o frio e o volume da música (baixo no exterior) levou a que alguns optassem por se ir embora.

O presidente da Câmara, Vítor Marques, notou que esta terá sido a primeira vez que o órgão tocou desde que as Caldas foi elevada a cidade. Agora pretendem criar oportunidades para usufruir do órgão e instalar, este mês, iluminação cénica no exterior da igreja.