Praça da Fruta – O eterno dilema ou uma falsa questão na história recente da cidade das Caldas da Rainha?

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A Praça da Fruta, como é comummente conhecida, que se realiza quase ininterruptamente há muitos anos, desde a fundação para alguns, provavelmente desde o séc. XIX para os mais precisos em datas históricas, na principal praça das Caldas da Rainha, nunca deixou de levantar polémica.
Significativo que no primeiro número da Gazeta das Caldas, saído a 1 de Outubro de 1925, um dos textos estava titulado: “O Mercado fechado será um facto?”. E depois explicava que “na montra dos Grandes Armazéns do Chiado tivemos hoje o prazer de admirar o grandioso projeto do novo mercado municipal que a Câmara desta vila projeta construir no centro da chamada Quinta dos Loureiros.”

Prometia-se para a edição seguinte voltar ao assunto, mas apenas na terceira o assunto volta numa entrevista ao Coronel de Artilharia J. A. Ferreira Madail, “ilustre filho das Caldas” e diretor da Sociedade Propaganda de Portugal, que interrogado sobre um possível mercado fechado respondia: “É um melhoramento muito apreciável para a vila. No entanto, entendo, que o mercado aos domingos não deve desaparecer do local onde atualmente se realiza”.
E acrescentava sensatamente: “Este mercado é qualquer coisa de importante, ocupando duas grandes praças, não me parecendo que se possa realizar dentro do âmbito de quatro paredes, por amplo que fosse.”

A discussão volta à liça a partir da elevação das Caldas a cidade
Afinal só em finais de 1928, depois de resolvida a questão da administração do concelho, pós golpe de Estado autoritário de 1926 e também da elevação de Caldas a cidade em 1927, a Gazeta das Caldas volta ao tema do mercado fechado, considerando um dos três temas centrais dos investimentos que se exigem ao poder central. Dizia: “É a necessária mudança do mercado da Praça da República, e a consequente reunião, num só local, dos vários mercados que estão espalhados aí por esses largos.” E acrescentava a título de aviso: “Muito embora à primeira vista pareça que isto vai ferir interesses, não é assim. Depende da escolha do sítio onde ele se fizer”.
O principal objetivo dessa mudança para um local na orla da mesma Praça e do Hospital Termal, na época seria para “uma fiscalização mais rigorosa e onde o imposto de terrado se pague convenientemente de modo a que ninguém se possa escapar”, para além de evitar “aquela exposição anti-higiénica dos vários produtos de venda, que se encontram espalhados no chão, sujeitos a toda a casta de porcaria.” E nesta época as ideias eram “modificar o taboleiro, abrir ali novos arruamentos, ajardinar”, naquilo que era o pensamento e as tendências da época.
No início do ano de 29 volta o articulista da Gazeta a insistir a mudança do mercado e a “junção de todos os pequenos mercados que por aí existem espalhados por esses largos e ruas, sem respeito pela estética da cidade”. Voltava a argumentar-se que a Câmara teria de efetivar “a mais completa cobrança do imposto do terrado”, para “aumentar as suas receitas, que bem míseras elas são, para o que há a fazer”. Nessa época havia mercados espalhados na Praça da República, Largo Dr. José Barbosa, Largo do Matadouro Velho, Praça 5 de Outubro, sendo proposto juntá-los todos e colocá-los num recinto vedado agora provisoriamente junto ao Chafariz das 5 Bicas.

Transformar a Praça da República no polo com a fundadora
A certa altura a insistência do mercado fechado passa pela ideia de transformar a Praça da República no local onde seria construído o monumento à Rainha D. Leonor, que viria mais tarde a ficar no sítio onde hoje está: Largo Conde Fontalva.
Mas a argumentação da época (14/7/1929) sobre a Praça das Caldas era muito cativante: “É rica e inconfundível a Praça das Caldas! Cheia de frutas saborosas e fresca hortaliça, a Praça das Caldas, especialmente aos domingos, é um dos atrativos para o visitante, que fica maravilhado com tanta fartura.
Mas, não é só a abundância que caracteriza o mercado caldense, tornando-o inconfundível; é especialmente a óptima qualidade dos produtos expostos! É o peixe magnífico da Nazaré, são as deliciosas lagostas de S. Martinho, é o marisco excelente da Lagoa, são as frutas da Usseira e da Cela, as hortaliças dos lados da Amoreira e Sobral, as batatas saborosas, a óptima carne, o pão magnífico, os bons ovos que gozam fama nos mercados de Lisboa, é toda essa caixa de tintas que é a praça das Caldas, que tenta o visitante e o obriga a levar para a sua terra, um cabaz com um delicioso mostruário da rica e farta praça caldense!”
E nas colunas da Gazeta se continuaram por muitos anos a insistir, sem réplica aparente, a ideia do criar um mercado fechado, incluindo quando foi entregue ao Arq. Paulino Montez o Plano de Urbanização da cidade nos anos 30. Subjacente a este plano estava a ideia da destruição das construções antigas, desajeitadas e sujas, para construir edifícios “apreciáveis em estética e beleza”, seguindo um “plano artístico e arquitetónico” que a câmara já tinha aprovado.

O novo centro da cidade à roda do “Borlão”
Havia sempre a ideia de abrir duas largas avenidas que ligassem a estação do caminho de ferro ao Hospital Termal e da estrada da Foz em direção a Rio Maior, podendo esquartejar um pouco a Praça da República e colocando no seu centro a estátua da Rainha D. Leonor, a Fundadora da cidade.
Várias vezes o assunto era titulado por esta afirmação quase irreversível: “Uma das coisas mais urgentes nas Caldas da Rainha é um mercado fechado”. Fruto do acaso ou da falta de verbas que o pudessem concretizar o assunto foi permanecendo entre as intenções benévolas dos caldenses, que encontraram respaldo parcialmente na ideia do Arq. Paulino Montez que em entrevista à Gazeta do final do ano de 1932 justificava terem tirado o projeto do mercado fechado dos terrenos junto ao Chafariz das 5 Bicas para o Borlão, onde estava a ser concebido um novo centro para a cidade. Dizia “no “Borlão” também ficará central e o que se perde em economia de terreno propriamente do mercado, ganha-se em novos arruamentos e novos aspetos”.
Mas às dúvidas lançadas pelo jornal o arq. Paulino Montez respondeu: “O mercado das Caldas da Rainha não pode ficar – como nalgumas cidades sucede – reduzido a um recinto coberto rodeado de barracões para unicamente se lhe aproveitar o rendimento do terrado.” E acrescentava com uma afirmação curiosa: “O mercado das Caldas tem um valor pitoresco e turístico que não deve desaparecer numa terra essencialmente de turismo.” Propunha então um projeto para o “Borlão” “abrindo-lhe grandes páteos interiores, onde o Sol entre a jorros e superfícies cobertas onde o movimento do mercado se mostra quanto possível no seu máximo de pitoresco e beleza de cor.”
Mais à frente dizia: “A higiene dum edifício desta natureza condena, de facto, todas as ideias de cobertura total, onde a desinfeção e ventilação se não pode nunca fazer duma maneira satisfatória. O que se vê na praça da Figueira, em Lisboa, e noutras terras que lhe copiaram o exemplo – aquele cheiro, aquele aspeto sujo e sombrio deve desaparecer. Não há nada que substitua a ação química direta dos raios solares e convencidos disto estavam os antigos povos quando construíam os seus “fóruns”, de que temos em Portugal algumas reminiscências, infelizmente esquecidas pela fúria cega de macaquear, sem racionalismo”.

Muita participação na discussão
Até aos anos 50 foram recebidas algumas cartas na Gazeta que seriam publicadas com opiniões favoráveis ao mercado fechado, mas notava-se uma ligeira inversão da tendência. Nessas mudanças de sentido encontra-se, como um auto-intitulado artista (não identificado nesta edição) escrevia, na edição de 25 de Abril de 1936: “Oiço dizer que se precisa em construir nessa cidade um mercado fechado, ideia que a mim, como artista, me entristece profundamente. A ir por diante, acaba um dos mais típicos espetáculos de Portugal!”
E acrescentava: “As montanhas de batatas, as hortaliças, as frutas em cestos de vime, os burros com as canastras ao lombo, tudo aquilo é nosso, é portuguesíssimo! Os senhores das Caldas nem sabem a riqueza que tem a sua terra, com aquele mercado cheio de colorido, iluminado pelo nosso lindo sol e coberto pela abóbada azul do nosso céu. Não estraguem o mercado das Caldas, metendo-o dentro de paredes revestidas de azulejos e coberto com chapas de zinco. Não façam esse crime!”
Numa edição de 1954, numa entrevista a um conceituado jornalista nacional de visita por Caldas da Rainha, João Magalhães Villas-Boas, titula-se a sua afirmação ”O mercado das Caldas da Rainha é o mais completo, alegre e opulento mercado de frutas do país”. Neste mesmo ano a Gazeta das Caldas lançou um inquérito público em que vários leitores apresentaram as suas opiniões, maioritariamente viradas para o mercado fechado.

A revolta e reviravolta encabeçada pelo jornalista Luís Teixeira
Até que na edição de 25 de Janeiro de 1955, há quase 70 anos, em caixa na primeira página se antecipava: “No próximo número: O Mercado Fechado “melhoramento” desnecessário – Artigo de Luiz Teixeira”. Luiz Teixeira era nesta época um consagrado jornalista e escritor nacional, identificado com o regime, e que colaborava com a Gazeta das Caldas desde a fundação do jornal, onde nos números iniciais teve várias iniciativas em prole das Caldas da Rainha, sua cidade natal. Mas como se poderá ver a sua influência e as suas relações eram transversais com outras figuras do país, mesmo da oposição, tendo sido fundador e Presidente da Direção do Sindicato dos Jornalistas português.
Num artigo ocupando página e meia do jornal de 1 de Fevereiro de 1955, defendia desassombradamente: “O Mercado Fechado “melhoramento” desnecessário” e perguntava, questão que se mantém atual aos anos 2024, quase 70 anos depois: “A Câmara – que decidiu e a população – que aplaudiu, basearam essas suas iniciativas num estudo minucioso e sério em que um assunto tão grave fosse analisado, profundamente sobre todos os aspetos?”
Argumentava depois se perguntassem a qualquer visitante as razões que o trazia às Caldas, responderia, talvez como ainda hoje: “As águas, o clima, as árvores e o mercado”. Acrescentava: “O mercado das Caldas – integral, como a memória guarda os seus aspetos colhidos de uma visão em dias de Setembro – uma das maiores e mais sugestivas atrações turísticas da terra, verdadeiro cartaz animado que todos os dias fomenta, com a simples razão de existir na força da sua espontânea naturalidade, na graça rústica do seu encanto incomparável, na singularidade surpreendente do seu emparceiramento de documentário humano e opulência naturalista, o nome o renome das Caldas da Rainha”.
E fazia ainda ao desafio: “Procurem no território nacional espetáculo do seu género que se lhe possa comparar.” E respondia: “Não o encontrarão.” Desmontava as especificidades do mercado fechado: Esse mercado “traria a necessidade municipal de recuperar as verbas do seu custo e de atender às despesas da sua manutenção através do expressivo aumento das taxas de terrado, e, ainda, pelas exigências do seu funcionamento, não dispensaria o sistema em uso da permanência da posse continuada (em muitos casos vitalícia) dos lugares de venda por “comerciantes” ou “contratadores” da produção. Isto levaria, é claro, ao afastamento do rural da cidade, ao encarecimento dos produtos, ao mais acentuado abandono dos estabelecimentos do comércio por parte da sua mais assídua, mais fiel, mais normal clientela.”
Depois de descrever o que se passou em várias localidades do país em relação à construção de mercados fechados e, em contrapartida, descrever o que se faz no estrangeiro como em Inglaterra e na Suíça em relação ao mesmo, acabava com uma pergunta provocadora: “Então não é verdade que a terra precisa de tanta coisa? Responderei apenas: Sim. Precisa de muita coisa. Precisa, por exemplo, de não fazer o mercado fechado…”

Luís Teixeira foi ouvido por muitos
Esta tomada de posição de Luís Teixeira fez recrudescer a polémica nas Caldas da Rainha, tendo várias pessoas se solidarizado com a sua posição, bem como ainda outros mostrado a preferência por um mercado fechado.
Na edição de 15 de Março seguinte, Gazeta das Caldas publica um abaixo assinado com centenas de assinaturas, antecedidas com a seguinte posição: “Como prova de que a substituição de “O Mercado das Caldas por outro fechado” não é acontecimento puramente local, mas sim um caso que se reveste de aspeto nacional”. A maioria das empresas caldenses também se solidarizaram com a posição defendida por Luís Teixeira e juntava-se ainda mais uma página integral e parte de outra da Gazeta com 5 colunas, de assinaturas com pessoas individuais nacionais e das várias freguesias.

A dúvida continua até hoje
É evidente que esta polémica e discussão prolongou-se até aos nossos dias, sendo que até à queda do regime autoritário em 1974 esteve sempre ligada à possibilidade do prolongamento da Praça da República na direção da Mata, inviabilizada, a certa altura, com a compra do bloco de edifício no topo pela Caixa Geral de Depósitos para ali construir as suas instalações. Esta decisão da CGD viria a enfrentar os obstáculos levantados pela Câmara e pelos caldenses, tendo sido movidas pressões e barreiras através dos governos que atravessaram aqueles anos, sobre quem a autarquia exerceu forte contestação.
O projeto seria abandonado com o 25 de Abril tendo sido regularizada a posse do terreno pela autarquia muito mais tarde. Igualmente o objetivo de derrubar todas as construções entre a Praça e o Chafariz das 5 Bicas viria a cair, dadas as tendências urbanísticas deste período que puseram em causa os objetivos que vigoraram durante muito tempo de tudo transformar em avenidas e destruir as construções antigas. Mesmo assim, por vezes, surgia nas colunas da Gazeta das Caldas, como aconteceu em 20 de Julho de 1963, que a Câmara tinha dinheiro em orçamento para adquirir terreno para o mercado fechado para recinto das feiras semanais e quinzenais… Mesmo no 25 de Abril se repetiam argumentos que devia avançar o projeto do mercado fechado.
Não admira assim que a estrutura urbana das Caldas tenha chegado até hoje como está e que a discussão do Mercado fechado tenha reemergido recentemente, com o funcionamento do mercado no Pavilhão da Expoeste, com todas as argumentações contraditórias que foram apresentadas até hoje.
É evidente que esta discussão sobre a Praça da Fruta não esconde a necessidade de a tornar mais cómoda, eficiente e útil para vendedores e compradores.
Não queremos repetir os argumentos, que nos parecem corretos e interessantes de parte e parte, mas já estamos como Luís Teixeira. Seria vantajoso e oportuno que fosse realizado “um estudo minucioso e sério em que um assunto tão grave fosse analisado, profundamente sobre todos os aspetos”, especialmente agora, que as transformações ocorridas nos últimos anos estão a desertificar o mercado durante a semana, com exceção do sábado e domingo. De outra forma apenas se trata de palpites de interesses de ocasião que movem alguns dos protagonistas e que não medem as consequências para a cidade, concelho e região no seu todo. ■