Grande Regata

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Dora Mendes
técnica de museu

Aos “banhos” e às termas estiveram sempre associadas práticas que oscilaram ambiguamente entre a cura do corpo e o prazer, é nesta medida que a deslocação às termas é apontada, por Armando Narciso (1994) – médico hidrologista – como o primeiro movimento turístico da viagem “da cura pelo prazer”.
No período renascentista, onde se insere a fundação do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, é apenas à dimensão da cura que se pretende dar enfase, ligando-a à esfera religiosa. Esta ligação, que confere às instituições termais da época um vinculo marcadamente religioso, manifesta na componente da Assistência Espiritual um dos factores mais importantes para o alcance da cura do doente.
A partir do século XVIII, assiste-se a um reabilitar das termas pela aristocracia, com as idas da corte a banhos, sendo este movimento acompanhado por uma mudança no paradigma do termalista.
“Ir a águas” ou “ir a banhos”, acompanha uma transformação na forma de conceber as termas, deixa-se de ir apenas em busca das águas como único agente terapêutico e motivação primeira para uma deslocação, passado a cura a estar associada a outras dimensões.
A prescrição da “cura termal” estava associada á necessidade de “mudança de ares”, a qual implicava uma viagem. A importância desta viagem, tal como afirma Ramalho Ortigão na sua obra “Banhos de Caldas e Águas Minerais”, residia sobretudo na introdução de uma mudança da vida quotidiana, o que era mais fa cilmente conseguida através da viagem, considerada por si só um factor importante do tratamento, ou mesmo o seu primeiro momento.
Vários autores escreveram sobre a vida nas termas no século XIX e inícios do século XX enfatizando a vertente lúdica, a procura do repouso e dos divertimentos, ressaltando até o papel preponderante do jogo e dos casinos no desenvolvimento destes lugares. Philys Hemphry é disso exemplo quando se refere, em 1815, ao conceito de “thakinga the cure”, que provocava nos visitantes das termas uma atracção maior pelos divertimentos sociais ai existentes do que propriamente pela busca da saúde.
As termas das Caldas não foram excepção a estas mudanças, sendo a Mata e o Parque locais privilegiados que proporcionavam aos aquistas a possibilidade de preencher as horas livres, ou complementar a sua recuperação, através de um conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre. É neste contexto que se enquadram as Regatas no Lago, da qual a imagem é ilustrativa.
A recriação da Grande Regata no Lago foi uma iniciativa levada a cabo pelo Museu do Hospital e das Caldas em 2010, que pretendia fazer uma alusão ao ambiente cultural que animava o parque e a cidade, durante a época termal, nos finais do século XIX.
Dado o enorme sucesso da primeira edição, outras se seguiram.
Após dois anos de interrupção, surge o desafio de organizar de forma conjunta uma actividade dirigida ao público em geral, em parceria com Gazeta das Caldas, por ocasião das comemorações do 90º Aniversário do jornal, em 2015.
Em 2017, a organização passa a contar com o apoio da União de Freguesias de Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório e também da Câmara Municipal de Caldas da Rainha.