A máscara veio para ficar

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Joaquim Urbano Médico

Nesta última crónica é inevitável versar sobre o atual estado pandémico que assola o nosso País e o mundo inteiro, por força da covid-19, provocada por um imprevisível coronavírus, tendo presente as suas variantes e as consequências que determina nos indivíduos infetados, desde os assintomáticos, aos que apresentam situações com necessidade de internamento hospitalar e, mesmo o recurso a intervenções mais complexas (ventilação invasivas, ECMO*, etc.), em contexto de Unidades de Cuidados Intensivos (UCIs).
Ainda será prematuro prever com exatidão as sequelas desta doença, mas sabemos que a recuperação da função respiratória, a mais atingida, é lenta, exigindo uma reabilitação adequada e carecem ainda de estudo eventuais complicações a outros níveis, nomeadamente no sistema cardiovascular. É indiscutível a enorme pressão a que a totalidade dos hospitais do SNS se encontram submetidos e que atingem todos os serviços, em especial urgências, enfermarias, UCIs e meios complementares de diagnóstico, os equipamentos e, de forma muito intensa, os recursos humanos (médicos, enfermeiros, assistentes operacionais e administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticas e técnicas de farmácia, técnicos de instalações e equipamentos, gestores e tantos outros).
O desdobramento dos serviços de urgência (covid e não covid), a requalificação de enfermarias em resposta ao constante aumento do número de internamentos de doentes infetados, a sua recuperação mais prolongada e a sua instabilidade clínica; a definição de circuitos independentes; o aumento da capacidade das UCIs e a reafetação de profissionais de saúde para apoio a estes doentes exigiram um esforço enorme de todos e uma mudança radical nas rotinas habituais dos diversos serviços hospitalares.
Todas as Unidades de Saúde terão os seus planos de catástrofe, com vários níveis, para responder adequadamente a situações de emergência com grande número de vítimas. Mas, habitualmente, o fluxo de doentes tende a estabilizar num período geralmente curto. O que está a acontecer é muito mais exigente e inimaginável do que se esperava algumas semanas atrás. A exaustão é visível, a angústia adivinha-se, o desespero é compreensível nos profissionais de primeira linha. Mas há sempre alguém a precisar de cuidados e é com a maior motivação, disponibilidade, dedicação, solidariedade, competência e humanismo que as equipas continuam presentes. E esta postura é hoje de enaltecer e será sempre recordada por todos nós.
Em Saúde todos os recursos (humanos, infraestruturas, equipamentos, financeiros) serão sempre escassos como esta pandemia está a provar. Mas é, sobretudo, na insuficiência de recursos humanos que se encontra a maior fragilidade do nosso SNS, considerado um dos melhores do mundo.
Podemos hoje dizer que o SARS-CoV-2, com todas as suas variantes, consegue surpreender o mundo inteiro, apesar de todo o conhecimento já adquirido pelos estudos genéticos, imunológicos, epidemiológicos e clínicos efetuados. A humanidade tem falhado no controle desta dramática pandemia. Talvez… exigisse uma maior capacidade de monitorização e avaliação para a tomada de decisões e implementação de medidas mais atempadas e adequadas. Talvez… a comunicação das medidas de prevenção, contenção e outras pudessem ser mais intuitivas, adequadas e assertivas. Talvez… Talvez…
O que temos por certo é que esta dramática pressão sobre o SNS só irá ser controlada com a diminuição da transmissão da Covid-19 na comunidade. A vacinação está em curso. As medidas de prevenção são para respeitar e manter (uso de máscara, distanciamento social, etiqueta respiratória, higiene das mãos e confinamento enquanto durar) enquanto seja entendido pelas autoridades de saúde. Vamos todos fazer o que nos compete. Nunca esqueça – protegendo-se, está a proteger os outros. Os profissionais de saúde, a sociedade, os nossos filhos e netos agradecerão.
ECMO* – Oxigenação por membrana extracorporal. Disponível em UCIs de referência. ■

Joaquim Urbano
médico