Caixa Negra. Reflexão Sobre a Vida e a Morte da Cultura na Cidade

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JOSÉ CARLOS FARIA – O que José Carlos faria…

Foi há cerca de ano e meio que José Carlos Faria deu o seu contributo apaixonado sobre a cidade de Caldas da Rainha, nas entrevistas do Caixa Negra. Num paralelismo metafórico fui recuperar as palavras do seu camarada Oscar Niemeyer, e encontro beleza igual nesta simbiose de utopias e de bem querer pela urbanidade e pelo bem estar da cultura local.
Óscar diria no seu livro “As curvas do tempo, Memórias, 2000”, algo que me inspirou a escrever este breve texto.
“Fui sempre um revoltado. Da família católica eu esquecera os velhos preconceitos, e o mundo parecia-me injusto, inaceitável. Entrei para o partido comunista, abraçado pelo pensamento de Marx que sigo até hoje. Mas a vida é feita de alegrias e tristezas e, desprotegidos, só nos resta caminhar rindo e chorando neste mundo de pedras. Talvez por isso mesmo, tenha aceitado os momentos de prazer que ela nos oferece, certo de que devemos vivê-los plenamente, usufruindo o que nela existe de beleza e amor” (Niemeyer, 2000).
Passado algum tempo, reencontrei José Carlos Faria atrás do palco numa interpretação de Brecht sobre a 2ªGrande Guerra. No entanto e após a apresentação no Teatro da Rainha, eu que estava na primeira fila, vi os olhos enevoados de emoção do ator, encenador e figurinista a rejubilar de alegria, por poder contribuir com o seu tempo neste mundo, por um momento de catarse e plenitude que foi essa sua representação.

Estamos perante um homem que dedicou todo o seu tempo de vida ao mundo das artes, e deixa um legado à comunidade através de um projeto maior, o Teatro da Rainha. Não há maior prazer do que entender que cada um tem o seu lugar, e que este mesmo, ocupado por José Carlos faz dele um homem maior e cheio de plenitude na representação.
José Carlos “faria” muita coisa, tem inúmeras ideias e projetos fruto de um coração palpitante e apaixonado pelo ser humano. Um humanista, um homem das artes e que luta com honestidade pelos seus sonhos, utopias, e que um dia encherão os olhos deste nobre homem de emoção….O seu Teatro da Rainha.
Nesta cidade de enorme respeito democrático vivem-se afluências às urnas acima da média, contribuições politicas, sociais e humanitárias quase transversais, fruto dos Caldenses que cedo sempre se manifestaram pela justiça social e que todos eles independentemente da sua escolha, são aqui acolhidos e respeitados no seu querer.
O fervor que corre nas veias deste artista permite-lhe uma obra que todos nós respeitamos, e que, denota-se pela entrega e pelo entusiasmo de um ator que fez formação em Belas Artes, e que por isso mesmo vê o mundo pintado de cores palpitantes e dramáticas, qual Jackson Pollock que no meio do caos encontra a sua graça.
Diria José Carlos: “A cidade tem projetos muito interessantes, inclusive uma relação que agora começa timidamente a ser mais presente com a intervenção da ESAD, no entanto com esta presença na nossa cidade, os conteúdos e o desenvolvimento urbano de pensar a polis enquanto rede urbanística de práticas de convivialidade social, poderia ser muito mais interessante.”
José Carlos Faria poderá ser encontrado a representar uma qualquer obra de teatro na Companhia de Teatro da Rainha nos edifícios da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste.

Mariana Calaça Baptista
info@marianacalacabaptista.pt