Memórias felizes!

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Teresa Serrenho | DR

Curiosa de me debruçar sobre este assunto e de tentar aceder às mais antigas memórias que conseguir, viajo prazerosamente à minha infância até a um lugar onde cheguei a ir comprar leite de vaca com os meus pais, gentes humildes, que vendiam esta riqueza de leite, de repente até o cheiro e a temperatura daquele local (quentinho) me parece tão real. Viajo em seguida para uma casa de uns familiares, o João e a Adelaide, onde acontecia a habitual reunião da matança do porco, um ritual aparentemente macabro, mas que eu adorava e que simultaneamente reconheço que era tão rico pela união, partilha e alegria que estimulava. Recordo-me de ver uns coelhinhos impressionantes sem pelo e olhos fechados, acabados de nascer, frágeis e estranhos que me obrigaram a tomar consciência do que é o ciclo da vida, animais tão queridos que adorava tocar, mas que também comia e que também podiam servir para agasalhar e embelezar, tive uma casaco de pele de coelho branco que ADORAVA! Nunca, nem por um momento senti desrespeito pela vida animal, aliás no período de vida dos animais, eles eram cuidadosamente estimados e alimentados como se de um tesouro se tratasse. Lembro-me de ir ao pão-por-Deus, e de ver as ruas cheias de miúdos de porta em porta, de chegar ao fim da manhã com um saco cheio e pesado. Adorava ir à casa da Júlia e da Naná, a casa da avó Gracinda também era boa, era longe, mas valia a pena! Lembro-me ir ao médico, de me falarem de lombrigas (fez-me imensa confusão) e tudo por eu ir a comer um chocolate que me tinha saído num jogo da regina “furos” em que escolhíamos um numero num cartão, furavam com uma caneta da bic e saia um prémio, um chocolate. Lembro-me do meu gato Nini, das brincadeiras dos primos, da alegria que era juntar os amigos e os filhos dos amigos dos pais nas festas de anos, o Pedro, o Luís, a Maria Cristina, a Sandra, a Alexandra (xana) a Andrea, o Miguel a Rita, a Joana e alguns que nem sei o nome. Aí e quando recebi o meu careca, presente do Madail e da Margarida! Também me veio à memória o tio Dinis que simulava engolir uma faca, nunca percebi como é que aquilo acontecia. Numa singela viagem às minhas memórias de infância percebo que são as pequenas coisas que dão sabor à vida, gestos pequenos, gestos genuínos impregnados de amor verdadeiro, que nos ensinam o que é a vida e através das experiências, dos modelos e daquilo que nos rodeia, crescemos e seremos nós também criadores de memorias, que memórias deixaremos nós nos outros?