Para a história do termalismo

0
37

Jorge Mangorrinha
investigador em termalismo

Uma investigadora escreveu, nestas páginas, que a história do termalismo está por fazer. Quero precisar: está sendo feita e há muitos anos.
Porém, uma história nunca está completa, há sempre novos contributos e novas interpretações, isto se houver seriedade e for utilizado o método científico. O que não deve acontecer é escrever-se sobre um tema sem ir às fontes primárias. O que não deve acontecer é um novo estudo ter uma predominância de excertos de livros consultados, sem que haja a apresentação de novas aceções para além das que já existem de outros autores. Pior será se tal servir para um trabalho académico, seja de seminário ou para teses de mestrado e doutoramento.
Em matéria de termalismo, algumas das minhas publicações têm sido a base de teses académicas, sobretudo no que diz respeito a dados históricos e à iconografia que recolhi e publiquei em resultado de anos de investigação. Fazer história com base apenas em estudos publicados denota falta de decoro por parte de alunos e orientadores desses novos trabalhos e ausência de rigor científico. Esses estudos estão em rede para quem os quiser tentar descobrir e depois consultar.
Em Portugal e no estrangeiro há, portanto, bibliografia recente que contribui para a história do termalismo. Inclusivamente, a realidade das últimas décadas já permite reflexões do foro analítico que, naturalmente, necessitam de maior distância temporal para se fazer um trabalho histórico de base científica. A história só nos serve, porém, se tiver aplicação no presente, tanto para os processos de desenvolvimento, como para a perceção do património pelas atuais gerações.
Em diferentes épocas, as estâncias termais deram origem a importantes fluxos e a territórios únicos e identitários face à sua dependência de um recurso natural e de um conjunto de edifícios induzidos pelo termalismo. Nos últimos dois séculos, produziu-se muita bibliografia, alguma dela fazia parte da minha coleção pessoal, furtada em 2005 e, presentemente, irrecuperável pela escassez deste tema no mercado do livro antigo.
O entendimento da evolução histórica das termas portuguesas e das formas e das representações sociais que nelas se foram constituindo deve contribuir para enquadrar novas estratégias de planeamento, modelos de intervenção a diferentes escalas e a promoção da qualidade dos investimentos e da organização territorial. Nas últimas décadas e em termos internacionais, as estâncias termais evoluíram e passaram a corporizar novos conceitos. O mercado do turismo de saúde e bem-estar começou a afirmar-se como um interessante sector da procura de curta e média estada, com serviços de gama alta, com interesse para estabelecimentos termais e cadeias de hotéis. Ao Estado coube legislar o setor, abrindo-o aos programas lúdicos e de prevenção (Lei de Bases do Termalismo, 2004). Aos agentes locais e regionais portugueses coube a iniciativa de novos investimentos, com a incorporação de equipamentos termais mais modernos, a melhoria dos edifícios balneares e de alojamento e a introdução de novos programas. Porém, as crises recentes e atuais provam que o futuro é imprevisível e o termalismo necessita de relançamento.
A história continuará, com a reinterpretação do passado e a novidade dos novos tempos. ■