TR – Casa do Exercício

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Fernando Mora Ramos

O Teatro da Rainha vai ter uma Casa Nova – conhecida peça de Goldoni, autor de predilecção. Essa Casa será de todos, a companhia/centro teatral/escola sempre orientou as suas escolhas de reportório, os seus projectos, em direcção aos espectadores, a uma sociedade civil tornada sensível ao fenómeno artístico, sempre procurou ser um espaço comum, isto é, sem dono, espaço de invenção de um futuro pelo comentário crítico do presente e do passado em resultado da reunião produtiva regular entre a cena e a sala.
Convocar essa comunidade que reinventa a cada sessão teatral – e antes e depois do teatro pois a representação permanece na cabeça quando é forte e funda – é o seu modo de vida. Não para espalhar nenhuma fé, mas para generalizar o dom da crítica, o comentário liberto do prejuízo do preconceito e do dogma, o que hoje toma a forma do politicamente correcto e do chavão igualitarista que, na verdade, nada é pela igualdade.
A novidade é que o Novo Espaço é de facto único, nada semelhante a outro que possa existir. E é um complexo, isto é, uma sala de ensaios, um teatro de ar livre e um corpo principal cujo coração pulsante é “um espaço vazio”. E o que é isso? É um sistema técnico-administrativo, a parte organizativa global, a funcionar em torno do espaço de criação – o vazio – e vocacionado para que este determine o modo de existência dos outros.
A criação é portanto o objectivo, será uma casa do exercício, da répétition. Será uma casa da experimentação das linguagens do teatro e o espaço de afirmação de uma política dos reportórios, clássicos e contemporâneos, uma casa das linguagens do teatro, da poesia, dos gestos escritos, da cenografia e da iluminação, da pintura no espaço, da instalação cenográfica, da relação entre a palavra e a acção que comporta. Mas, ao sê-lo, é-o desde logo no modo como foi concebida: este é o projecto de um programa, de uma biografia colectiva constituída pela multiplicidade das experiências em referência própria, será o espaço do teatro que fizemos – e fizemos muito ( cerca de 120 criações em 35 e mais anos, o TR começou com abril) e em muitas condições e muita coisa diferente – a caminho de um teatro que continua em busca dos podres ocultos da realidade instalados nas relações sociais.
Nenhum fenómeno é tão ancestral e ágil quanto o teatro, capaz de tudo interiorizar e integrar, da mais sofisticada tecnologia ao gesto mais artesanal e quotidiano. O teatro é metamórfico, vai de Bacantes, de Eurípides, a Kantor, da Commedia dell’arte a Beckett, do monólogo de Ella (Achternbusch) ao Ricardo III, de Shakespeare.
O que importa aqui dizer à comunidade caldense e nacional e a todos os que vivam neste mundo global e sem fronteiras — com tantos muros — e com quem possamos interagir, é que o nosso laboratório será de todos os “laboratoriantes” o lugar, já que a experimentação é da cena mas é sobretudo da sala, pois é na conjugação de ambas as comunidades que o fenómeno será criação, falando do real e expondo os seus mecanismos de ocultação.
De parabéns está a cidade, a Assembleia Municipal e a Vereação que votaram unanimemente o projecto e sobretudo o Presidente da Câmara, Dr. Tinta Ferreira, que em nenhum momento destes mais de 15 anos teve qualquer hesitação quanto à construção da Nova Casa.

Fernando Mora Ramos
fernando.mora.ramos@gmail.com