A função terapêutica da espiritualidade

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Gazeta das caldas
| D.R.

Por muitas situações que presenciamos na nossa vivência diária, já nos interrogámos sobre a influência da espiritualidade e religiosidade na superação da doença e na melhor aceitação das nossas fraquezas físicas. Será que o aproximarmo-nos de Deus, através da oração e meditação, é um caminho importante para a recuperação? Há dias li um pequeno texto, relacionado com esta temática, escrito pelo padre Fernando Sampaio, responsável pelo Departamento da Pastoral da Saúde da Diocese de Lisboa, o qual, com a devida permissão do seu autor, entendo por importante partilhar com os leitores da Gazeta das Caldas, como base de reflexão:
“A espiritualidade é um tema que, desde os anos 80 do seculo XX, atrai a investigação científica ligada à saúde física e mental. Freud dizia que a religião era causadora de neurose e devia, por isso, ser abandonada. Hoje, porém, temos um retorno do espiritual pela via científica. São milhares os trabalhos publicados e neles é frequente o estabelecimento de uma relação entre espiritualidade, religiosidade e saúde.
No sofrimento severo e na fase final da vida é frequente os doentes manifestarem angústia espiritual, revelando perda de sentido da vida, dúvidas de fé, culpabilidade, depressão, desorientação, etc. A angústia espiritual está frequentemente associada aos sintomas físicos e psíquicos da dor e do sofrimento, bem como a alguns sintomas no envelhecimento. A atenção às necessidades espirituais é, assim, um elemento essencial às boas práticas no cuidado com doentes. A espiritualidade é relevante pois proporciona bem-estar, paz, esperança; e está associada à qualidade de vida. No sofrimento severo e em situações de fim de vida torna-se frequentemente uma emergência.
No envelhecimento a espiritualidade é também um assunto importante. As pessoas com mais de 60 anos e que durante a vida abandonaram a prática religiosa frequentemente retornam à Igreja ou pelo menos colocam-se a questão da religião e da espiritualidade. A razão tanto está ligada ao aumento do tempo livre, como ao questionamento do sentido da vida ou à procura de valores perduráveis. A fé e a espiritualidade são fonte de sentido, dão um sentido de pertença a uma comunidade, ajudam a enfrentar as diversas perdas e a solidão, estimulam a projetos compassivos, etc.
Em relação às crianças, a espiritualidade ajuda-as no seu crescimento e a adquirir um espaço interior para o simbólico, para a criatividade, para o mistério que facilita a aprendizagem, a aquisição de valores e a capacidade de empatia/compaixão. A meditação, por exemplo, está a ser usada em vários países, nomeadamente na Austrália e no Reino Unido, no início das aulas desde a mais tenra idade e o resultado é muito positivo ao nível da aprendizagem, do comportamento e da sensibilidade aos outros.
Os cuidados aos doentes, aos idosos ou às crianças que não tenham em conta as suas necessidades espirituais são parciais e desumanizam. Revelam má prática profissional.”
Acreditar na providência divina é preciosa ajuda, como diz o salmo “o Senhor é meu Pastor, nada me faltará”. Justamente, quando se sente que tudo nos escapa das mãos, que ficamos sós, que nada nem ninguém mais nos pertencerá, percebe-se, afinal, que nada nos faltará porque o Pastor providenciará tudo o que se precisa.

Fernando Alves
Centro Social e Paroquial de Caldas da Rainha