A Política da Pandemia

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Saikiran Datta
Professor, investigador e autor

Será que a política da pandemia – do distanciamento social, da máscara e da vacina — afeta a política na pandemia? Todos os partidos políticos estão no terreno a pisar as uvas dos outros. Vem aí a vindima. Até ao lavar dos cestos, contando todos os votos nas mesas, é prematuro dizer quem fica a arrumar o lagar do outro. A raposa, que tantas vezes salta para apanhar um único cacho de uvas onde mal chega, pode ser associada aos candidatos esfomeados que salivam por votos até desistirem em desespero. O mesmo desespero que faz abraçar o inimigo, dançar com os lobos e desarmar um pistoleiro no meio de um território inimigo. Estamos em faroeste português. Até na fronteira entre a Índia e o Paquistão, os rivais de sempre, há quem consiga AK47 de manhã e tréguas à noite. Uma troca de mantimentos para o manjar do outro. A palavra unânime destas eleições é a chegada da ‘bazuca’, esperando os autarcas a lançarem foguetes no início da campanha e recolherem cartuchos vazios durante os quatro anos.
Mas o efeito da pandemia está a resultar em desconfiança entre as pessoas: os políticos e os munícipes. Já não posso imaginar um Paulo Portas a dançar com uma vendedora na feira porque a freguesa mal sai da casa para abraçar o político. As ruas desertas, inundadas ou entupidas, o comício é recebido por casas fechadas e fachadas caídas. A população do litoral parece ter migrado para um outro litoral imaginário. Que ilusão da realidade! É preciso uma vuvuzela para acordar as nossas aldeias adormecidas. Nem o Sermão de Santo António aos peixes evita a abstenção do homem desinteressado no seu bem-estar cívico. Talvez uma sardinhada no meio da mata traga a animação que as freguesias tanto necessitam. Infelizmente, a Covid-19 ainda não limpou a memória das pessoas, pois estão cansadas com promessas que nunca são cumpridas. Na feira da democracia vende-se a promessa autárquica e limpam-se as mãos com água oxigenada. O povo é crucificado em nome dessa instituição. A essência das eleições autárquicas é vender o mesmo peixe ao mesmo freguês a cada quatro anos e ainda esperar que ele não descubra que consumiu algo que ainda não foi consumido. Mas consumidos andamos nós com buracos nas ruas, nas contas públicas e nas calças. Sem remendos.
A reforma do velho é pior que a esmola. Uma sardinha fresca já é um luxo para o bolso do nosso idoso. Os filhos doutores que migraram para a cidade deixaram um vazio por preencher — pais abandonados e campos sem novos agricultores. Hoje, nenhum médico quer escolher essas pequenas terriolas para trabalhar. De mesma forma, já se torna difícil encontrar calceteiros e outros trabalhadores rurais que dantes mantinham a tradição viva. A visão pessimista das aldeias resume-se na seguinte expressão de um amigo autarca — “cemitérios dos vivos”. Para dar vida, espera-se que os outros povos cá venham na fruta que não nos interessa apanhar. É o fruto dos novos tempos. Já ninguém fala nos malteses que viajavam sazonalmente entre regiões em busca do trabalho agrícola. Os jornaleiros de outrora, gente sem terreno e dignidade, já foram substituídos por imigrantes explorados que trabalham noite e dia para sustentar as suas famílias lá fora. Empregos não qualificados representam o novo sonho americano para muitos asiáticos que migram para Portugal.
O vento da mudança vem aí. Não me refiro necessariamente à mudança da cor política, mas a da atitude política. De voltar a abraçar o povo e trazer um sorriso à cara de quem vive corajosamente neste tempo da crise. Oferecer flores que não murcham e sonhos que não acabam. Na crise social em que vivemos, ser o andarilho de desenvolvimento, limpar as lágrimas da esperança e desinfectar a ferida no rosto do desconhecido são sinónimos de fortalecimento dos alicerces da nossa democracia. Isto sim é a verdadeira política nos tempos da pandemia; política esta que infelizmente não é nada contagiosa. Piores são os agentes da mudança: distanciados, desmascarados e ‘desvacinados’. ■

O vento da mudança vem aí. Não me refiro necessariamente à mudança da cor política, mas a da atitude política