Eleições: Um Espelho da Sociedade

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Miguel Silvestre
gestor

Depois das autárquicas e porque a política gosta pouco de prestar contas, deixo algumas conclusões da minha experiência:
– Temos uma democracia preguiçosa. Candidatos e eleitores cumprem os mínimos. A solução leva-nos à gritante iliteracia política, ao falhanço educativo do ensino da história e reflexão social, ao qual acrescente-se a pandemia cultural que é a nossa baixíssima fruição cultural.
– Há uma clivagem de valores. Existem os que não conseguem ver qualquer ato de nobreza na política e os que percebem que a mesma é a arte de gerir contingências e que os compromissos são necessários e não são (sempre) um sinal de fraqueza.
– Desajustamento da lei de financiamento dos partidos: as candidaturas não partem em igualdade porque o critério das subvenções faz com que os que mais têm mais recebam. Não deveria fazer sentido distinguir cidadãos ou partidos que cumprindo os requisitos legais se apresentam a eleições.
– Falta de abertura ao Mundo: a campanha deveria ser de reflexão e provocação entre eleitos e eleitores. Um catalisador de ações e pensamento sobre e pela comunidade. Na realidade, é uma abordagem microscópica do local, uma visão fechada nos problemas quotidianos. Não será isso um dos fracassos da política autárquica? Têm os cidadãos de empilhar reclamações não cumpridas em quatro anos?
– Processo de “freguesialização” em curso das câmaras municipais. São, cada vez mais, reduzidas a um papel de balcão e manutenção de infraestruturas básicas e menos a uma entidade relevante nas decisões fundamentais do futuro da sua comunidade.
– Ausência de debate intermunicipal: o que dizer da quase total ausência de coragem em falar, já nem digo apresentar soluções, de políticas intermunicipais que dêem escala e competitividade aos territórios? A visão paroquial e caciquista continua a enquistar as autarquias.
– Atraso da cidadania digital: não se debate o voto eletrónico, não existem plataformas de participação pública nas decisões políticas e, no caso de Alcobaça, o partido da maioria é contra a emissão das reuniões de câmara e assembleia via streaming… Sendo o meio digital a melhor ferramenta de partilha de informação e conhecimento fica claro que a transparência ainda não é um tema importante para parte significativa do eleitorado.
– Voto útil: o medo do vazio apoquenta o eleitor. Votar para ganhar ou votar para a balança, mas pouco votar para mudar. A democracia precisa de se enriquecer na diversidade. Útil é votar. Mudar é votar com coragem nas suas convicções. ■

A democracia precisa de se enriquecer na diversidade. Útil é votar. Mudar é votar com coragem