«Averbamento» de Paulo da Costa Domingos

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Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia.  Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego».
Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão».
Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.»
Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.»
(Editora: & etc)

José do Carmo Francisco