CELESTE ORNELAS NUNES – “Naquele tempo a relação no banco era mais personalizada”

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Celeste Nunes

82 anos
Casada, dois filhos e três netos

Só conheci Portugal quando tinha 37 anos. Foi a primeira vez que vim cá. Em licença graciosa, que era uma benesse que os funcionários públicos em Angola tinham de poder vir à então Metrópole de quatro em quatro anos.
Só que eu tinha nascido lá. E por isso, quando tive direito à graciosa, aproveitei para vir às Caldas da Rainha conhecer a família do meu marido. Eu tinha casado dez anos antes com um caldense. Mal sabia eu que grande parte da minha carreira profissional acabaria por passá-la neste local, na Praça da Fruta das Caldas.
O meu pai era coronel médico do Exército português e a minha mãe era angolana. Sou uma filha do Império. Nasci em Benguela em 16 de Fevereiro de 1934. O meu pai já tinha 50 anos e a minha mãe – imagine-se! – 19 anos.
Fiz a 4ª classe em Benguela, mas depois fui estudar para Nova Lisboa (hoje Huambo) onde tirei o antigo 5º ano (hoje 9º ano de escolaridade). E como em terra de cegos quem tem olho é rei, eu fui dar aulas. O meu primeiro trabalho foi leccionar. Em Moçâmedes, entre 1951 e 1958. Dei aulas de Português, História, Ciências. Naquele tempo o 5º ano valia muito mais do que hoje o 9º ano.
Em 1958, então com 24 anos, voltei para Benguela e fui trabalhar para a Sociedade Comercial Luso Holandesa. Fiquei na secção de importação e tratava dos boletins de registo, da facturação, da contabilidade.
Mas seis anos depois mudei de emprego. Fui trabalhar para a Joframa, num escritório também ligado à importação. Eu gostava de lá estar e cheguei a ganhar 4500 escudos (22,50 euros). Entretanto conheci o meu futuro marido, José António dos Santos, que era das Caldas da Rainha. Casamo-nos em Janeiro de 1961.
Eu gostava de trabalhar na Joframa, mas em 1967 fui quase obrigada a integrar os quadros do recém-criado Banco Totta Standard de Angola, criado com capitais sul-africanos, ingleses e angolanos. Eu até nem queria, mas como tinha trabalhado sempre ligada à importação, possuía muitos contactos em Benguela e era muito querida e estimada por toda a gente, os administradores do banco, através dos gerentes, conseguiram convencer-me a ir trabalhar para eles.
Comecei até por ganhar menos. Apenas 3000 escudos (15 euros), mas em breve aumentaram-me para 3500 escudos (17,50 euros) e acabei sempre por receber mais do que o estipulado no Acordo Colectivo de Trabalho.
Era um bom ordenado. Tanto que, em 1971, quando vim a Portugal de graciosa (um privilégio que tinham os funcionários públicos e alguns de empresas privadas, como era o meu caso), o subgerente do BPA nas Caldas ganhava apenas 2500 escudos (12,50 euros).
Vim cá sozinha com os meus filhos (de sete e três anos) porque o meu marido ficou em Angola a trabalhar. Fui muito bem recebida pela família dele. Gostei imenso de Portugal, mas tive um bocado a sensação de que era um país muito limitado. E no contacto que eu tive com as pessoas de cá, achei que não faziam a mínima ideia do que era vida em Angola. Convém dizer que eu senti-me sempre portuguesa, mas com um grande orgulho de ser angolana.
Voltei a Angola uns meses depois e regressei a Portugal em 1975 outra vez de licença graciosa. Só que desta vez fiquei cá. E nunca mais voltei.
Os últimos quatro anos tinham sido dramáticos. Parecia que a roda da História acelerara e que tudo o que até à data era previsível e certo, passou a ser incerto e até perigoso. Com o 25 de Abril e a descolonização, a situação descambou numa guerra civil. Cheguei a estar de gatas, agachada atrás do balcão do banco, com os meus colegas, enquanto as balas voavam por cima das nossas cabeças. Por mais do que uma vez houve tiroteios mesmo em frente ao banco.
Por isso, e como tinha os meus filhos, acabei por ficar cá em 1975. Um ano depois arranjei trabalho em Lisboa no Crédito Predial Português. Fiquei lá até Junho de 1977. Eu queria aproximar-se das Caldas porque tinha cá a minha família e o Banco de Portugal autorizava que houvesse transferências entre funcionários dos bancos. Enfim, era uma das vantagens de, naquele tempo, a banca estar nacionalizada. O patrão era o mesmo – o Estado.

Chegámos a ser 30 funcionários. Hoje não passam de oito.

Celeste2050Foi assim que vim para Rio Maior trabalhar no BPA. Em 1979 consegui vir para as Caldas, para este mesmo sítio, se bem que naquela altura ainda não tinham construído este mamarracho. O BPA tinha um balcão corrido onde atendíamos os clientes. Naquele tempo a relação era mais personalizada. Havia mais afectividade entre os colegas e entre os colegas e os clientes. Não era como agora em que os empregados estão a olhar para o computador e nem olham para a cara do cliente.
E aqui chegámos a ser 30 funcionários. Hoje não passam de oito. Tenho boas recordações. Eu e o José Maria da Costa Freire (já falecido) lançámos o cartão Mastercard nas Caldas, que era um produto muito inovador para a época. E lembro-me com saudade de muitos dos meus colegas.
Reformei-me em 31 de Dezembro de 1996, com 62 anos. Nessa altura eu tinha a meu cargo o contencioso e inibição de cheques e o crédito mal parado. Era muita responsabilidade e muito trabalho. De tal forma que, mesmo depois de reformada, e a pedido do banco, acabei por vir várias vezes aqui para dar apoio e resolver situações. Ainda consegui fazer com que o banco recebesse milhares de contos de réis sem ir para contencioso. De tal maneira que continuei ligada ao BPA durante mais dois anos. E até acabaram por me dar um prémio generoso. Tudo isto já depois de reformada.
Mas nunca fui uma mulher de ficar parada. Depois da reforma trabalhei na Aluvia, uma empresa de aluguer de automóveis que havia na avenida 1º de Maio. Estive lá a dar apoio entre 1997 e 1998. Depois ainda estive ligada à gestão de condomínios porque várias pessoas amigas me pediram. E hoje dedico-me à minha família e ajudo as pessoas a resolver situações em assuntos que metem papelada. Mas do que eu mais gosto é de poder ajudar os meus netos, que têm 24, 10 e quatro anos.
Nunca voltei a Angola. A minha vida reorientou-se para viver aqui e por aqui fiquei. Esta Praça da Fruta, onde costumo vir às compras, foi o meu local de trabalho durante 17 anos. Vi-a todos os dias de dentro para fora. Hoje vejo o “meu” banco de fora para dentro.