E agora, José?: Olh’á Sardinha! Aqui Há Gato!

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José Ramalho
ator & marionetista

Por estes dias decorreu num Restaurante da capital, mais uma apresentação de espécimes das Sardinhas da Fábrica Bordallo Pinheiro, alargando a Coleção, resultante do desafio à criatividade das diversas figuras públicas que vêm assinando propostas estéticas, tendo como base a forma da espécie piscívora que salta para os pratos dos portugueses nesta época do ano, sem apelo nem agravo, acompanhada pela salada de pimentos e devidamente regada a tinto. Para os mais distraídos, aqui se deixa uma dica: “guardem um copo do tinto para no final lavarem as mãos e desse modo retirarem facilmente o distinto odor das sardinhas”.
Nos idos de 1884, a 30 de junho, com 38 anos, Raphael Augusto Prostes Bordallo Pinheiro (1846-1905), artista português, multidisciplinar, como se diria hoje, cuja vasta obra viaja desde o desenho à aguarela, ilustrou, decorou, foi caricaturista político e social, jornalista e ceramista. Justamente para “pôr as mãos no barro”, naquele dia assinou a Escritura da Fábrica de Faianças das Caldas, com o magnânimo apoio dos irmãos Maria Augusta & Feliciano e do amigo Ramalho Ortigão.
Desde então a História da Cerâmica portuguesa e da caricatura foram enriquecidas com uma plêiade de figuras da sua autoria, num permanente desafio da criatividade provocando olhares disruptores ao “status” estabelecido.
Figura icónica do português, criada por Mestre Rafael em 1875 numa ilustração n’ “A Lanterna Mágica”, vem a tomar forma tridimensional em 1895. Figura satírica, capaz de rir de tudo e de todos, camponês ignorado pelos gentios do Poder, encarna os sofrimentos e injustiças, vítima passiva dos poderes, cujo manguito é a recusa a ser enganado, eis o Zé Povinho.
No ano do centenário da Revolução Francesa, da inauguração da Torre Eiffel e da grande Exposição Universal, em 1889, Bordallo Pinheiro, foi convidado pelo governo português para fazer o Pavilhão de Portugal, com o qual ganha o prémio de Melhor Pavilhão na Exposição Universal em Paris, ganha uma Medalha de Ouro pelos produtos que apresentou e ganha também uma condecoração de Mérito Cultural do Presidente francês.
Entre 1896-1898 a pedido do seu amigo José Relvas (1858-1929) cria a “Jarra Bethoven”, símbolo da exuberância e do talento do artista, cujo tamanho desmesurado, ultrapassando os 2,60m de altura, não correspondeu ao interesse do seu amigo, tendo produzido outra de menor tamanho. Em 1899, embarca para o Brasil e faz-se portador da Jarra, no intuito de a vender nas terras de Vera Cruz. Infundado intuito, nem com rifas conseguiu libertar-se da dita, tendo-a oferecido ao Presidente da República do Brasil e hoje pode ser visitada no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Se há quem conheça a obra e as aventuras de Bordallo Pinheiro é a Isabel Castanheira que no dia 25 de junho, apresentou “Quase Todo o Bordallo”, alargando o conjunto das suas obras com que a autora vem aproximando o Mestre de todos nós, revelando as suas mil e uma facetas, dando uso público, pela sua investigação, do seu imensíssimo acervo pessoal, dedicado ao universo bordaliano.
Na dupla Rafael & Isabel os caminhos cruzam-se de diversas formas e em particular na admiração pelos Gatos. Bordalo Pinheiro referiu na publicação “António Maria” que noutra reencarnação fora Gato.
Consta que o alimento preferido dos Gatos é peixe e naquela tarde do lançamento das Sardinhas lá na capital, recebi um telefonema de um amigo comum a partilhar comigo que a Isabel tinha tido um grave acidente de saúde.
Isabel ainda falta muito Bordallo! ■