Editorial – Do direito à indignação

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A forma como as sociedades modernas reagem perante a espuma dos dias diz muito sobre no que nos estamos a tornar enquanto comunidade. Vivemos tempos estranhos, em que o direito à indignação extravasa os limites do aceitável e nos deve obrigar a uma reflexão.
Este é um tempo em que muitos se indignam com uma designer norte-
americana que copia ou transforma uma camisola poveira e a louça de Bordalo. Mas em que não se tenta, sequer, tirar partido da visibilidade que esse eventual plágio pode conferir na promoção do made in Portugal.
Porém, muitos dos que se indignam com este tipo de fait divers, deixam passar incólumes alguns autarcas corruptos e governantes que conduzem a seu bel-prazer os negócios do Estado, beneficiando quase sempre os mesmos grupos e prejudicando o interesse comum.
Este é, também, um tempo de esquizofrenia coletiva, em que os justiceiros das redes sociais se empolgam a cada erro ou imprecisão que vislumbram no trabalho de jornalistas ou comentadores, mas, na esmagadora maioria, não querem pagar para ter acesso a notícias. Ou seja, exigem tudo, sem dar nada em troca.
Estranhos tempos estes, em que o direito à indignação se sobrepõe aos valores essenciais das relações humanas. Em que o amiguismo e o tráfico de influências são vistas quase com normalidade na gestão da coisa pública. Tempos em que quem foge aos impostos não é censurado. Ou seja, em que o essencial não conta para nada e o acessório é quase tudo. Decididamente, faltam-nos em valores o que nos sobra em indignação. ■