Estamos reféns dos números

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Gazeta das Caldas
Paulo Caiado | D.R.

Na semana passada, perto da hora de almoço, passo junto ao Refeitório dos Anjos, Av. Almirante Reis em Lisboa, vulgo “sopa dos pobres” ou “sopa do Sidónio”. Nunca, em mais de três décadas, vi uma fila tão grande de utentes no passeio esperando a sua vez de entrar. É certo que as medidas de contingência por causa do vírus obrigam as restrições no atendimento mas foi a tipologia dos que figuravam na fila que me surpreendeu. Indivíduos de fato e gravata fitando fixamente o chão com vergonha de ali estarem, jovens adultos agarrados ao telemóvel, mulheres bem vestidas.
Esta é apenas uma amostra, talvez a mais impactante, do que está a acontecer no nosso país.
320 mil famílias pediram a moratória do pagamento das prestações das suas casas. Cerca de 80.000 famílias e pequenas empresas solicitaram o pagamento faseado da electricidade e do gás. São 500 clientes por dia que pedem este faseamento. O período estipulado pelo governo que impedia o corte de energia por falta de pagamento terminava a 30 de Setembro. O que vai acontecer entretanto?
São mais de 100.000 novos desempregados e este número cresce com o fim dos layoff e com as quebras de facturação.

Estamos com uma enorme dificuldade em encontrar um equilíbrio no meio desta crise

Anda tudo tão preocupado em dar números do vírus que a pior das realidades está a ser ocultada do prime time. Estamos à beira de um enorme abismo económico e social.
Contudo, a prioridade máxima dos governantes e comunicação social continua a ser dada à pandemia. Estamos reféns dos seus números, mesmo que estes não tenham total correspondência com a realidade.
Afinal os testes podem não estar a aferir se o vírus está activo e seja transmissível, o que desvirtua o numero de infectados, grande número de internados são idosos infectados nos lares e que permanecem nos hospitais sem estarem necessitados de cuidados hospitalares. São as chamadas camas sociais, os utentes precisam de se manter isolados e os lares ou os familiares não têm condições para os receber nem os serviços sociais têm um lugar para os alojar ou equipas para lhes dar apoio. Os óbitos correspondem a todos os infectados mesmo que o vírus não tenha sido a causa das mortes.
Enquanto isso as estatísticas mostram que há 6000 mortos acima da média dos anos anteriores e a explicação reside no facto de terem sido adiadas as consultas e exames de diagnostico de outras patologias que não o Covid19.
Estamos reféns dos números do Covid mas os números que começam a assustar a população porque são aqueles que estão a sentir na pele, e não no ecran da tv, são os números dos familiares que morreram por falta de atendimento medico atempado e os números do desemprego e do encerramento de empresas.
Estamos com uma enorme dificuldade em encontrar um equilíbrio no meio desta crise. Parece que estamos a empurrar com a barriga muita coisa para a frente.