Imaginário de campanha: A Indústria de Conteúdos e o Oeste

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Miguel Silvestre
gestor

As estratégias para a “nova economia” e a artilharia de fundos anunciada são agendas transpostas de modelos internacionais e continuam a estar desatentas a algumas particularidades da realidade nacional. O foco na dimensão tecnológica procura sempre criar novo emprego ou requalificar emprego para novas áreas. Por outro lado, em Portugal apresentamos o excesso de diplomados em humanidades como um desajustamento do mercado de trabalho face à economia.
Nunca encarámos estes milhares de pessoas como um ativo para esta economia que vive da capacidade criativa de escrever ou criar. O País é tão ou mais competente que qualquer outro na capacidade tecnológica, mas desvaloriza os conteúdos, quer sejam entretenimento, ou culturais. A multitude de áreas (vídeo, ilustração, edição digital, música, jogos, etc) que fazem parte desta economia florescente, torna o setor difícil de engavetar no modelo governativo do País. E isso, como sabemos, é algo que os nossos governos não gostam.
Mas e se vos disser que um setor, quase invisível, tem muitos e bons profissionais a trabalhar na nossa região… E se vos disser que a indústria de conteúdos, em 2019, investiu tanto quanto a indústria petrolífera nos Estados Unidos… Será que faz sentido ignorarmos a importância deste setor?

Com um setor digital e criativo crescente, o eixo Caldas/Óbidos precisa de… ousadia e investimento

O Oeste, em particular o eixo Caldas/Óbidos, não tem sabido gerar uma centralidade e posicionar-se como um destino de talento e investimento.
As famigeradas estratégias locais ou regionais têm sido mastigadas nas decisões contraditórias do quotidiano político. O binómio criativo e digital carece de entidades para uma gestão supramunicipal, de um evento internacional agregador, de novas soluções de residência e mobilidade e uma programação cultural concertada e provocadora. E esse binómio deve também ser territorial. Se Caldas é o espaço urbano de maior efervescência criativa, Óbidos, em particular a Vila, deve ser um território de aplicação e teste. Para os que, mais uma vez, consideram que o problema é a nossa dimensão, fica a força de um exemplo: Uma pequena cidade histórica inglesa com 50 mil habitantes fez o seu percurso e ganhou o (humorístico) epíteto de “Silicon Spa”. Em Leamington Spa, uma em cada 50 pessoas trabalha na área de desenvolvimento de videojogos e muito desse movimento se deve a uma empresa chamada Codemasters, ali criada por dois jovens locais. Este setor representa cerca de 100 milhões de libras para a economia local. Com um setor digital e criativo crescente, o eixo Caldas/Óbidos precisa de… ousadia e investimento.