O humor e o riso têm limites?

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Isabel Xavier
professora

Admiradora do tipo de humor de Ricardo Araújo Pereira, procuro não perder nenhum episódio de “Isto é gozar com quem trabalha”, com mais gosto ainda desde que deixou de convidar políticos para serem entrevistados na segunda parte do programa. Salvo raras exceções, era penoso assistir ao esforço que alguns convidados faziam para serem “engraçados”, como se tivessem alguma hipótese de competir nesse registo com o anfitrião. Destacou-se o episódio 100, gravado no Porto, que teve como corolário a resolução do contrato do pavilhão transfronteiriço por parte da Câmara de Caminha. Na verdade, após muita discussão sobre o tema, o esclarecimento cabal do que este implicava só ocorreu eficazmente no programa de Ricardo Araújo Pereira. Alguém duvida da relação entre os dois acontecimentos? Consultemos a cronologia: o programa televisivo foi transmitido a 13 de novembro e a proposta de resolução do contrato foi aprovada pela Câmara a 16 de novembro. Será por acaso?
Outro programa que tem causado polémica é o de Joana Marques na Rádio Renascença, “Extremamente Desagradável”. Embora o próprio título explique de forma clara ao que este programa vem, há quem considere que a humorista “vai longe demais” e que o que ela faz é “bullying”, como agora se usa dizer. Claro que esta reação vem essencialmente dos visados, o que lhes é adverso, uma vez que alimentam o assunto, o que é pior para eles. Aconselho, entre os programas mais recentes, os dedicados a Marta Gautier.
Esta questão do humor e do riso, e das reações que provocam, fez-me revisitar uma investigação que fiz há alguns anos a propósito da obra de Rafel Bordalo Pinheiro. Li nessa altura o livro de Henri Bergson, O Riso, no qual o filósofo afirma que “para compreender o riso é preciso localizá-lo no seu meio natural que é a sociedade; temos que determinar a sua função útil que é uma função social”, e acrescenta: “o riso castiga os costumes”. Dessa forma, Bergson salienta o carácter subversivo do riso enquanto atitude e, por inerência, daquilo que o provoca, o humor. Tentando responder à questão que serve de título a esta crónica, recorro a outra ideia sua, a de que o riso põe a nú o ridículo da vaidade: “Um estudo completo das ilusões da vaidade, assim como do ridículo que a ela se acrescenta, iluminaria com uma luz singular a teoria do riso. Lá se veria o riso cumprindo regularmente uma das suas funções principais que é a de trazer à plena consciência os amores próprios disfarçados e obter assim a maior sociabilidade possível dos carácteres. Ver-se-ia como a vaidade, que é um produto natural da vida social, incomoda no entanto a sociedade, tal como certos venenos segregados continuamente pelo nosso organismo o intoxicam mais tarde ou mais cedo se outras secreções não lhes neutralizam o efeito. O riso desempenha incessantemente um papel deste género. Neste sentido, poder-se-á dizer que que o remédio específico para a vaidade é o riso e que o defeito essencialmente risível é a vaidade”.