Os olhos com que olhamos o mundo…

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Dora Mendes
técnica de museu

De alguma forma sempre fui bastante adepta de escrever, fazer composições, ou tudo o que implicava desenvolvimento de um tema. Não raras vezes utilizava duas ou três folhas de teste durante o secundário e, não era apenas nos testes de história.
Ainda que fazendo o desconto ao tamanho da letra que era, na época, enorme, em bom rigor o prazer de escrever e descrever emoldurando palavras e frases em outras tantas palavras e frases, sempre foi um exercício que me agradava.
Não descurando a virtude de um bom resumo, ainda hoje me delicio muito mais quando me é permitido divagar por páginas e páginas, escrevendo enquanto penso e pensando enquanto escrevo.
Bem sei que alguns se atormentam sempre que recebem mensagens minhas, adivinhando, mesmo antes de as abrir, que por certo terão de fazer scroll antes de chegarem aos “beijinhos” finais.
Talvez a minha timidez me tenha conduzido a esta forma de estar. É verdade que sempre me foi mais fácil escrever do que falar. Também por isso, me preocupa que a mensagem seja clara, expressiva, emotiva até, garantindo que transmite em pleno o sentimento presente com que se vai colorindo cada palavra redigida.
Não existindo na escrita a ilustração instantânea da expressão corporal, assume-se como um desafio hercúleo o conseguir que a mensagem cumpra toda esta palete de cores.
De referir ainda o, não menos importante, papel do recetor. Que naturalmente interpretará cada palavra através da palete de cores e sentimentos, que sua própria experiência humana e emoção ditarão no momento.
Posto isto, e já com oito parágrafos escritos fazendo confirmar tudo o que foi dito, serve esta rubrica de louvor a alguns textos e seus autores, com que me deparei nos últimos tempos. Não me refiro tanto às questões gramaticais, de composição formal ou regras de um perfeito português escrito, mas sim na capacidade incrível de nos transmitir emoções através de coisas tão simples como um céu estrelado ou um final de dia à beira-mar. Não se trata apenas da descrição do lugar ou do momento, mas sim na forma como foi olhado e visto todo o contexto. E é nessa simplicidade, complexa, que reside o brilhantismo do resultado final.
Do feio se faz belo, se o olharmos com amor e cor. Ou, como escrevia hoje, é com as cores do meu mundo interno que dou cor ao meu mundo externo. Não interessa tanto o que vimos, mas sim a forma como observamos.
“Quando olhares para cima, não te esqueças de que estás a olhar para o passado. Nenhuma das luzes que vês existe na forma em que se apresenta. Toda esta luz viajou milhares de milhões de quilómetros durante centenas, milhares ou até milhões de anos. (…) Toda a luz demora, até a que está perto. A luz do sol que te banha o rosto numa tarde de verão demorou oito minutos entre o astro-mor e a tua epiderme. (…) Sempre que vou à aldeia dos meus avós, lembro-me da primeira vez em que me deitei no chão da varanda para mergulhar neste céu. (…) Mas sempre que ali vou é impossível não me deslumbrar com o espectáculo que vês nesta foto para observar as estrelas cadentes imprevisíveis e os satélites que, volta e meia, se mascaram de aviões-estrela para atravessar o firmamento em linha recta, a ver se ninguém repara neles.”
Nelson F. Nunes (Instagram do autor, ilustrado com um magnifico céu estrelado). ■