Pastoral prisional

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Gazeta das Caldas

Nos últimos tempos, temos vindo a ser convidados a “ficar em casa”. Este apelo veio interferir com muitas das nossas dinâmicas familiares, profissionais e sociais. Também no campo pastoral, as coisas não foram (estão a ser) fáceis. Não foi apenas o fechar das portas das nossas igrejas, mas, muito especialmente, o fechar das visitas a hospitais, lares e prisões. Nestes locais, vivem muitas pessoas debilitadas física e/ou psicologicamente, a necessitar de ajuda espiritual. Pela ausência “forçada” dos agentes da pastoral (padres e leigos), têm sido, muitas vezes, os profissionais cristãos que laboram nestes locais que vão levando a palavra de esperança, aquele sinal de que Deus está connosco, também no sofrimento e/ou na solidão. Bem hajam pelo seu fabuloso testemunho.
No tocante à Pastoral Prisional, a que, juntamente com outros cristãos, estou ligado, na nossa cidade, preocupa-nos o facto de não podermos estar mais perto de quem se viu privado da liberdade, pelas mais variadas vicissitudes, dando o apoio evangélico e humanamente importante e possível. Esta “impossibilidade” do exercício pastoral nas cadeias, a qual é acolhida por respeito e por razões de saúde pública, está a limitar a ação e diminui, quase por completo, toda a criatividade que pudesse compensar a nossa ausência, nomeadamente o uso da “internet” que, por razões que facilmente se entendem, ainda não pode chegar às prisões.
No respeito pela dignidade humana de cada pessoa, embora rejeitando os atos que levaram à reclusão, compete-nos, como cristãos, levar uma palavra de incentivo de que estamos sempre a tempo de corrigir a “rota”, tentando prevenir recaídas futuras e contribuindo para uma mais fácil reinserção social. Sabemos que nem sempre esta reinserção é fácil, já que vivemos numa sociedade em que nem todos sabem respeitar as diferenças, existindo dúvidas de alguns sobre a possibilidade do ex-recluso conseguir uma integração plena.
Se ainda não conseguimos viver, no nosso mundo, em perfeita harmonia, sem distinções relativas à origem racial, étnica, cultural, nacional e crença religiosa, mais difícil se torna olhar com confiança para quem esteve atrás de umas grades.
A comunicação social tem-nos trazido, ultimamente com mais insistência, notícias desta falta de respeito pelas diferenças, sejam elas de que ordem forem. Quando deixaremos de rotular as pessoas, face às suas origens ou atos praticados? Porquê estigmatizar alguém pelo simples facto de pertencer a uma minoria ou por ter errado nas suas atitudes de vida? Muito embora seja verdade que, por vezes, um grupo pode escolher deliberadamente viver apartado, a fim de proteger a sua própria cultura, o mais das vezes acontece que as minorias se encontram diante de barreiras que as isolam do resto da sociedade. Uma das finalidades do Estado de Direito é que todos os cidadãos gozem de idêntica dignidade e igualdade perante a lei. Respeitar uma pessoa, além da demonstração de afeição, consiste em quebrar barreiras e superar preconceitos, uma vez que a ação pondera as diferenças existentes, como gostos, preferências, formas de pensar e agir.
Neste mês de junho, especialmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, o Papa Francisco não esquece todos aqueles que passam pelos mais variados tipos de dificuldades e lembra um caminho que a todos ajuda: “um caminho cheio de compaixão que transforma a vida das pessoas e as aproxima do Coração de Cristo, que nos acolhe a todos na revolução da ternura”.