Presépios, Natal mãos no barro

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Amélia Sá Nogueira
socióloga e ceramista

Os presépios fazem parte do nosso imaginário da época de Natal. Em criança esperávamos ansiosos o tempo dos preparativos para a grande festa que começava com a ida ao pinhal mais próximo a fim de escolher a árvore que naquele ano iria estar em destaque no canto da sala devidamente engalanada com fitas douradas e bolas de muitas cores. Os cheiros a canela, laranja e vinho do Porto, os doces e fritos e claro, o presépio criavam o ambiente festivo desta época do ano. Guardado religiosamente com toda a pompa e circunstância numa caixa forrada a papel, o presépio de “Barcelos” da minha infância, via nos primeiros dias de dezembro a luz do dia. Era como se o víssemos pela primeira vez. Desfilavam aos nossos olhos, devidamente alinhados, um rol de pequenas figuras de barro. O moleiro e o seu moinho, a aguadeira, a lavadeira, o pastor, o ferreiro, o pescador, o padeiro, e o cura, aos quais se juntavam um rebanho, patos, galinhas, a fonte, a igreja, a ponte, a nora, várias pequenas casinhas típicas portuguesas e as figuras centrais de todo o cenário, José, Maria e o Menino, esperando a chegada dos três Reis Magos, aquecidos pela presença do burro e da vaca. Dada a fragilidade das pequenas figuras de barro era comum ocorrerem acidentes e algumas peças partidas. Era o momento de fazermos uma visita à praça da fruta que nos primeiros dias de Dezembro recebia vendedores que ano após ano iam adicionando pequenas figuras ao já extraordinário grupo de participantes no nosso presépio. Juntámos uma procissão, uma banda e o seu maestro.
Se olharmos para Portugal com as suas tradições e saberes podemos traçar uma rota dos presépios portugueses sendo estes um dos muitos bons exemplos da riqueza e diversidade cultural e artística da cerâmica portuguesa. De norte a sul do país, assumindo traços do mundo rural e do imaginário mais pagão, temos os presépios de Rosa Ramalho, Júlia Ramalho, dos Irmão Baraça, das irmãs Flores, Presépios da Lapinha e tantos outros de cariz mais “popular” e identitário. Numa outra vertente artística, plenos de religiosidade e requinte, dando vida a museus e igrejas encontramos os majestosos presépios de Machado de Castro, de visita obrigatória nesta época do ano.
Um particular destaque aos presépios cerâmicos caldenses, com os cenários fabulosos dos barristas Fernando e Milena Miguel, as litofanias e figuras clássicas do Studio Braz Gil, a inovação de Carlos Enxuto. Em memória ficarão sempre a perfeição minimalista do Mestre Herculano Elias, o modernismo das figuras de presépios SECLA por Hansi Stael, as formas harmoniosas improváveis de Armando Correia, a criatividade estilizada por Mestre Ferreira da Silva. Destaco igualmente uma nova e criativa geração de ceramistas caldenses que mantém viva a tradição cerâmica e que vem comprovar que as diversidade é ainda a nossa maior riqueza.