Um novo século começa agora?

0
79

Miguel Silvestre
gestor

Os séculos ou milénios nem sempre coincidem com o tempo histórico. 1901 marca o início do século XX, mas vários autores defendem que essa transição aconteceu noutra data. Puxam por acontecimentos marcantes como a Primeira Grande Guerra Mundial de 1914-18, a Revolução Russa de 1917 ou a gripe pneumónica de 1918-1919. E, na sequência dessa lógica, é cativante transpor para o cenário que vivemos, onde a covid-19, fez o mundo analisar-se e também tentar perceber se vivemos ou não uma transição acelerada ou um qualquer momento revolucionário.
John Luckacs é um dos historiadores que defende a tese que o século XX começa com a Primeira Grande Guerra, em que a guerra se assume plena, sem cavalheirismos ou códigos de honra ancestrais. O mesmo autor não se coíbe também de anunciar o fim do século XX! E que melhor data do que 1989 com a queda do Muro de Berlim marcando o fim da União Soviética e da Guerra Fria? Difícil de encontrar uma data mais simbólica, até porque meses depois Francis Fukuyama publica um artigo que virá a ser a antecâmara da sua obra, editada em 1992, intitulada: “O Fim da História e o Último Homem”. Muitos advogam que a obra é um manifesto da vitória das democracias liberais face qualquer outro modelo político que existisse ou viesse existir. O livro é bem mais do que isso, assim como a Humanidade também é bem mais do que os silos na qual tanto gostamos de a enclausurar.
Se todos estes acontecimentos não fossem suficientes, talvez essa data, daqui a uns anos, seja também analisada por outro momento marcante da História mundial que foi a criação da World Wide Web, por Tim Berners Lee. O que nasce nos anos 60 como um projeto militar, três décadas depois, virá a afirmar-se como um dos mais transformadores projetos de partilha de informação e comunicação da História, só comparável à linguagem, à escrita ou à imprensa. O sonho de Humanidade de ter toda a informação do Mundo num só local, quer seja por razões políticas ou poder, quer seja por razões educacionais, nunca chegou a tantos e de forma tão eficaz. Um sonho ao qual a Biblioteca de Alexandria procurou responder enquanto repositório do conhecimento da época e assim espantou o mundo antigo. Um sonho ao qual a Encyclopédie de Diderot, entre 1751 e 1772, procurou dar resposta enquanto súmula de conhecimento do mundo e um instrumento para fundamentar e formar o livre pensamento que foi um dos pilares do pensamento liberal.
A universalidade da internet (ainda não atingida) é uma revolução na forma como partilhamos a informação e conhecimento e um desafio na organização social e política. A primeira pandemia em tempos de “sociedade de informação” revela que estamos ainda numa fase primária deste estadio evolutivo .
Em 2022 viveremos as tensões que marcaram a história da humanidade. Continuam as clivagens religiosas, os extremismos políticos reinventam-se e a desinformação é uma ferramenta para múltiplos fins. A ciência está no centro da luta política do mundo ocidental, quer seja pelas alterações climáticas, quer seja pela Covid19. Vivemos numa época com muitos mundos do mundo e com uma nova ferramenta “invisível”. Em 2020, cada pessoa criou 1,7 megabytes por segundo e 2,5 quintilhões (são 18 zeros!!) de data bytes por dia. E em 2022, 70% do PIB mundial já estará digitalizado. Há, no entanto, um facto que deve colocar tudo em perspetiva: “só” em 2017 é que metade da população mundial passou a utilizar a internet. Uma proeza ou um fracasso? Um novo século ou um tempo antigo? ■