Tigela de madeira

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Bruno Reis Santos (Mantraste)

Com o fim do ano à porta e com esperança que em 2021 a pandemia acalme, está na altura de olhar sem desculpas para a forma como estamos a tratar os nossos idosos. Se a pandemia foi responsável por muitos problemas, outros já se arrastavam há muito, como os maus tratos, o abandono, a impaciência. Se velhos são os trapos, porque se trata tantos idosos como tal? São afastados por uma sociedade que se quer nova, agressiva, rápida, exausta, cansada, em stress mas bem sucedida, ansiosa mas com dinheiro. Não há hoje lugar para quem não trabalha. Hoje o valor moral não interessa, o nosso interesse é apenas capital – então quanto valemos nós? Quanto se pode valer quando uma árvore vale mais morta do que viva? Quando qualquer animal tem mais valor preso ou morto do que em liberdade? Eu também não sei, mas daí vem a história do conto da tigela de madeira.
Era uma vez uma família, um filho, um pai, uma mãe e um avô. Era hábito as refeições serem partilhadas com os quatro reunidos à volta da mesa, no entanto o avô encontrava a cada dia que passava mais dificuldade em comer, partia pratos e copos, sujava e sujava-se. Então o pai e a mãe falaram entre si e foi decidido que o avô, daquele dia em diante, comia no alpendre numa tigela de madeira. Enquanto estas decisões iam sendo tomadas sem se consultar o avô, o filho observava e sem saber o que era certo ou errado, aprendia com os pais. No dia seguinte, o pai ao voltar a casa vê o filho na oficina a brincar com um pedaço de madeira e ao perguntar-lhe o que este fazia, a sua expressão ficou pesada ao ouvir o seu filho dizer com entusiasmo: – Estou-te a fazer uma tigela de madeira para quando fores velho. Nesse dia o avô voltou a comer em casa.
Hoje as tigelas de madeira são mais complexas, mas convém perguntar no nosso íntimo e ser sincero na resposta:
– Comeria eu nesta tigela?
Cabe a todos nós pensar em como dar uma vida digna aos que nos rodeiam, não precisamos de mudar o mundo, mas podemos agir no que nos é mais próximo.
Para concluir, gostava de agradecer à Almerinda Frazão e à Helena Santos pelo presépio que construíram para a comunidade no Triângulo das Arroteias no Nadadouro, um presépio feito com carinho, figurando todo o ano desde o natal aos santos populares, naquela pequena ilha com pinheiros recortada por três estradas. Obrigado.
Bom Natal a todos. ■

Bruno Santos
Ilustrador – Autor