Mudar de vida do outro lado do Atlântico

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Marta Carvalho, Ricardo Rodrigues e Lucilene Rodrigues frequentam o curso de Gestão e Produção de Pastelaria no polo de Óbidos da EHTO

Mesmo com carreiras profissionais muito consolidadas, há brasileiros que escolhem a região para encetar novas experiências. A mudança de hábitos de vida e a tranquilidade do Oeste são atrativos

A pandemia acelerou o processo de mudança de vida de Lucilene e Ricardo Rodrigues, um casal de brasileiros, na casa dos 50 anos, com carreiras consolidadas, mas que decidiram trocar a estabilidade no país de origem para… aprender pastelaria no Oeste.
O cenário causado pela covid-19, no ano passado, levou a professora de Matemática e o vice-reitor de uma universidade em São Paulo a equacionarem o futuro. Depois de uma reflexão conjunta, decidiram atravessar o Atlântico para abrir um novo capítulo numa vida “muito movimentada”, explica Lucilene Rodrigues, que se aposentou, apesar de ter apenas 53 anos, para poder ficar “mais livre”. “Estávamos em layoff e decidimos que este era o momento certo para transformar as nossas vidas, que eram muito agitadas”, explica a docente.
Depois de entregarem os bens aos filhos, chegaram às Caldas da Rainha em novembro do ano passado, para frequentarem o curso de… Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste. Uma formação especializada que descobriram através de pesquisas da internet. E não se arrependem da decisão tomada.
“A minha família é portuguesa e tínhamos a ideia de nos mudarmos, mas o processo de cidadania demorou mais de três anos e, por isso, decidimos vir com visto de turista para tirar esta formação”, explica Ricardo Rodrigues, de 55 anos, sublinhando que, entretanto, já conseguiram regularizar a situação no nosso país.
“Estamos muito agradados com a experiência”, nota o professor universitário, que tinha responsabilidades na gestão da Universidade de Santa Cruz, em São Paulo, e já conhecia a região. Algo que “pesou” na hora de escolher a cidade onde viver e qual a escola a frequentar.
“Já conhecíamos o país e, tirando o Algarve, considero que o Centro é a principal região turística de Portugal e com maior potencial de crescimento. Estamos perto de tudo e há aqui potencialidades várias”, salienta este paulista, de Santos, que em 2018 completara o doutoramento em Museologia, mas, ao mesmo tempo, se começara a interessar por gastronomia e a procurar formação nessa área.
Quanto ao curso na EHTO “abre novos horizontes”. “A pastelaria portuguesa tem características muito distintas da confeitaria brasileira e, por isso, este curso permite-nos pensar em várias possibilidades de futuro”, assevera o brasileiro, que, embora não coloque totalmente de parte a possibilidade de voltar a lecionar, pretende criar um negócio próprio de doçaria. Só não definiu, ainda, onde. “Pode ser cá ou no Brasil, o tempo dirá”, frisa.
A adaptação foi “muito fácil” e rápida, assevera Lucilene Rodrigues, que valoriza “pequenas coisas” no Oeste, que “fazem toda a diferença”. “Vivemos junto da escola nas Caldas e andamos muito a pé. A cidade é maravilhosa”, assegura a formanda, que agradece a “simpatia” dos professores e colegas de curso, que “até já falam em Português do Brasil”.
A história de Marta Carvalho tem contornos distintos, embora também ela seja professora de formação. A brasileira, de Belém do Pará, está há três anos no nosso país. Deixou os três filhos no Brasil e fixou-se nas Caldas da Rainha, onde viria a conhecer o marido. Hoje em dia, reside em Santa Catarina, trabalha numa unidade hoteleira em Óbidos e conjuga os horários para poder frequentar as aulas na EHTO.

“Tirando o Algarve, o Centro é a principal região turística de Portugal”

Ricardo Rodrigues

“Vim com o sonho de tirar um curso de cozinha e aqui estou com todas as forças”

Marta Carvalho

“Vim para Portugal com o sonho de tirar um curso de cozinha e aqui estou, com todas as minhas forças”, salienta a mulher, que foi professora durante 12 anos, mas não esconde a desilusão com o país onde nasceu. “A política destrói o Brasil. O sistema está viciado”, lamenta Marta Carvalho, de 45 anos, que já está a tratar de trazer para as Caldas uma das filhas, Adrielle, que também se pretende especializar na cozinha.
“Ela quer vir para Portugal para estudar e quero que venha para junto de mim”, refere a progenitora, que, “um dia mais tarde”, pretende “voltar ao Brasil”. “Gosto muito de Portugal, mas quero voltar para casa e estabelecer-me por lá, até porque aqui o inverno é muito frio”, conclui, entre sorrisos, a aluna.

Alunos aumentam
Cada vez mais alunos estrangeiros optam por estudar na EHTO, que tem funcionado como “um trampolim” para muitas pessoas “que optam por investir na formação profissional ou por fazerem uma reconversão profissional”. A garantia é de Daniel Pinto, diretor da escola, que valoriza o facto de as turmas “serem compostas por alunos mais jovens e outros mais velhos”, o que confere uma “ambiente heterogéneo que é muito interessante”.
“Há alunos mais velhos que se juntam a alunos que estão a fazer o ensino regular e a troca de vivências e experiências é vantajoso para todas as partes”, frisa o docente.
A capacidade que a EHTO demonstra de “conseguir bons estágios” é outra da mais-valias na captação de alunos. “O estágio curricular de três meses permite-lhes trabalhar em empresas ao mais alto nível e é, sem dúvida, uma grande motivação”, sustenta Daniel Pinto, cuja opinião é corrobada pelo casal Ricardo e Lucileine Rodrigues, que seguem, em Erasmus, em julho para Barcelona e, depois, Paris. “Vamos crescer muito neste estágio”, garante o professor universitário, cuja habilidade para a pastelaria vai ser testada ao limite, sobretudo na cidade luz.