Portugal é o segundo maior produtor mundial na cerâmica decorativa e de mesa

0
233
Parte dos trabalhos decorreram na ESAD tendo os estrangeiros conhecido iniciativas dos estudantes

Nos dias 19 e 20 de Fevereiro decorreu a quarta reunião europeia do projecto Interreg Europe CLAY com vista a conhecer a vários parceiros europeus a realidade cerâmica da região Centro de Portugal nas Caldas da Rainha, Alcobaça, Coimbra e Aveiro

Portugal é o segundo país que mais produz cerâmica decorativa e de mesa e de peças de olaria. Está também em 4º lugar no que diz respeito à produção de cerâmica ornamental. Estes foram alguns dados partilhados por José Luís Almeida Silva, director-executivo da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de cerâmica (APVCT) e director da Gazeta, aos participantes da 4ª reunião europeia do projecto Interreg Europe CLAY, que teve lugar na ESAD na manhã de 19 de Fevereiro. Numa análise sectorial deu, ainda, a conhecer que havia em 2016 apenas quatro empresas do sector com mais de 250 trabalhadores enquanto que 60 empregam entre 10 e 40 funcionários e 792 menos de dez empregados. “Este projecto pretende promover a competitividade das empresas cerâmicas que ainda conservam aspectos artesanais”, disse Regina Santos, do Centro Tecnológico de Cerâmica e Vidro(CTCV) explicando que o Clay, projecto europeu, terá a duração de cinco anos, reúne cinco regiões europeias (Umbria – Itália, Olenia – Finlândia, Ostrobothnia – Roménia, Limoges – França, Região Centro – Portugal).
Esta iniciativa dirigiu-se sobretudo às pequenas unidades cerâmicas que produzem pequenas séries de valor acrescentado. No entanto, neste encontro não se esqueceram os aspectos relacionados com a inovação tecnológica e com o design. “Todos nos debatemos com dificuldades de atrair pessoas para o sector”, referiu a organizadora, acrescentando que o projecto europeu quer valorizar estas empresas “que estão no mercado e que se diferenciam da produção em massa”. Ao todo, viajaram pela região Centro uma comitiva de 60 pessoas, duas dezenas das quais oriundas das outras quatro regiões europeias de cerâmica.

Envolver stakeholders

“Neste evento quisemos envolver vários stakeholders-chave do sector para fazer um evento concertado”, disse a responsável do CTCV, acrescentando que participaram ceramistas, empresários, responsáveis de escolas e centros de formação e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro. Durante a visita a Portugal, os parceiros transnacionais tiveram a oportunidade de conhecer o know-how português.
A comitiva visitou as fábricas Braz Gil Studio nas Caldas e Perpétua, Pereira & Almeida em Alcobaça. Foi também visitada a Vista Alegre, em Ílhavo. “A maioria dos parceiros não tem o nível de produção de Portugal”, disse Regina Santos, referindo que a maioria das empresas cerâmicas estrangeiras “ainda mantém a tradição mas deixaram de produzir. A maioria devido à falta de mão de obra”.
Integrado na comitiva esteve Beppe Olmeti, que é o presidente do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial de Cidades Cerâmicas. Aquele responsável deu a conhecer à Gazeta das Caldas que está a decorrer um projecto que une ceramistas italianos e chineses em Fuping. Regularmente, uma dezena de artistas europeus vão estagiar para China para realizar projectos cerâmicos de grandes dimensão. Por causa do coronavirus, neste momento, o projecto está parado. O intercâmbio será retomado assim que for possível.
Sobre a adesão de Portugal ao agrupamento europeu, apesar do atraso que se ficou a dever a burocracias e ao facto de todos os municípios portugueses terem que obter autorização do Tribunal de Contas para aderirem à associação, o responsável acredita que se está “no bom caminho e já a trabalhar em parcerias trans-nacionais”, disse Beppe Olmeti. O presidente do agrupamento referiu ainda que houve o convite da Associação Portuguesa de vilas e Cidades de Cerâmica para que a próxima assembleia internacional dos diferentes grupos europeus possa acontecer em Junho ou Julho em terras lusas. A sede desta associação fica nas Caldas da Rainha e neste momento é liderada pelo município de Mafra. O Agrupamento Europeu constituído em 2014, integra 130 cidades e vilas cerâmicas europeias e tem como objectivo desenvolver a cooperação territorial e transnacional no campo da cerâmica artística e artesanal.

Parcerias dão um novo fôlego à cerâmica caldense

Ainda durante a reunião na ESAD teve lugar uma mesa redonda sobre o ensino e a formação artística e artesanal da cerâmica em Portugal. O painel foi constituído por representantes da Universidade de Aveiro, do Instituto Politécnico de Leiria, do Cencal e do Cearte. Durante o debate ficou claro que o estabelecimento de parcerias entre as escolas de ensino superior e os centros de formação tem dado um novo fôlego à cerâmica regional. O facto de se terem estabelecido no caso das Caldas vários ceramistas com os seus ateliers têm dado nova vida ao sector. Carla Lobo, docente do curso de cerâmica da ESAD recordou que o curso de cerâmica é fundador da escola e, como tal, vai assinalar o 30º aniversário este ano. Ana Bica, directora do Cencal, fez uma resenha histórica sobre a formação cerâmica no centro caldense.

Estado não permite reformados

A responsável comentou ainda o problema de contratar formadores que já se reformaram. “O Estado não permite a sua contratação, no entanto são eles que detêm o saber”, disse a directora acrescentando que é ainda mais dramático em relação ao sector do vidro pois os melhores vidreiros estão praticamente todos sem actividade profissional.
Os oradores da mesa redonda estão de acordo que se vive actualmente um bom momento em relação à cerâmica de autor e também àqueles espaços que se dedicam às pequenas séries.
Além da tecnologia que tem ajudado a inovar, aplicando novas técnicas relacionadas com a prototipagem digital. Uma das fábricas que já usa esta tecnologia é a empresa alcobacense Perpétua Pereira & Almeida cujas peças foram inclusivamente apresentadas no decorrer deste seminário A empresa de Alcobaça, assim como a caldense Braz Gil foram visitadas pela comitiva que apreciou conhecer a especificidade dos seus produtos. A maioria das suas produções, de grande qualidade, dirigem-se ao mercado de produtos de luxo e relacionados com a moda.