A Estátua da Rainha Dona Leonor: A Cosmogonia de uma Cidade

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Guilherme José
Livreiro “Malfeitor”

Todo o caldense reconhece que um dos maiores marcos da cidade é a estátua da Rainha Dona Leonor, da autoria de Francisco Franco, que, no topo da rotunda, parece vigiar uma boa parte da cidade e o que por lá se passa. Para mim, desde miúdo, foi algo que sempre me fascinou. É um local que, sob a alçada da fundadora, se presta aos mais variados cultos, seculares, sim, mas prestam-se: a alma da cidade reúne-se em volta da rotunda sempre que qualquer festejo se dá. Lembremo-nos das comemorações dos campeonatos, do Euro e outros acontecimentos que por lá se alastraram.
Cada escultura que apresenta as Caldas da Rainha talha simultaneamente o seu espírito, é a sua amostra viva, e remete-nos, também, para que trabalhemos sobre a nossa matéria bruta. Assim como está descrito por Platão, na obra Fedro, a importância de esculpir a própria alma, moldando-a em direção ao Bem. Claro que aqui, sob o aval da génese grega, não se trata de um Bem filantrópico, mas de uma forma suprema e última da realidade que proporcionada não só a ordem como a inteligibilidade do cosmos.
Pois bem, qualquer estátua bem trabalhada tem como missão, ou serve como exemplo, estabelecer um princípio de organização e representar, para quem a observa, uma autoridade. É por isso que, sempre que acontecem revoluções e o património é atacado, um dos primeiros alvos dos revolucionários são as estátuas representativas de um país, local ou cidade. Dessa forma, a ordem atual desmorona-se e pode-se, por fim, instalar uma nova ordem e implantar novos ídolos e modelos.
Dediquem-se a este exercício, se assim o entenderem, claro, numa próxima vez que passem pela Rainha, possivelmente ainda hoje, ou que passem por uma outra estátua qualquer: devo eu talhar o meu espírito como o escultor talha o mármore, e, se sim, com que mãos e com que engenho? É tarefa árdua, mas façamos de nós, também, o princípio de autoridade e de ordem da nossa própria cidade interior, que connosco desperta e, mais tarde, adormece.
Este foi o meu último artigo enquanto cronista da Gazeta das Caldas. Agradeço a todos os que, no último ano, despenderam do seu precioso tempo para ler o que escrevo. Agradeço também o convite e a oportunidade que me foram dadas pelo corpo diretivo da Gazeta. Vemo-nos em breve. ■