Maria do Céu Santos
Maria do Céu Santos

Maria do Céu Santos
Professora

O País agitou-se, recentemente, com a notícia de que Portugal interrompeu quase um quarto de século de evolução no desempenho dos alunos do 4.º ano a Matemática no TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study), um grande estudo internacional, realizado a cada quatro anos.
No editorial do jornal Público, na edição de 09/12/2020, onde normalmente é dado grande destaque à Educação, citando um antigo ministro da Educação, preconiza-se o regresso aos exames do 4.º ano, o fim do discurso das “aprendizagens” e a insistência “na velha Matemática da tabuada e das contas de cor”.
A aversão ao conceito de “aprendizagens” traduz uma visão simplista dos problemas da Educação e esquece os fatores determinantes do insucesso.
Um excelente Estudo do Banco de Portugal [Boletim Económico do Banco de Portugal / Inverno 2010, Volume 16, Número 4], utilizando a base de dados do PISA 2006, compara o desempenho escolar em Portugal e nos países da União Europeia.
Transcrevem-se as duas primeiras conclusões:
• Os alunos portugueses ocupam consistentemente posições na metade inferior do ranking do desempenho no grupo de países considerados, tanto em matemática como em leitura. Tais resultados são em parte provocados por um contexto familiar desfavorável, nomeadamente no que se refere às habilitações e ocupações dos pais.
• Na função de produção de educação para Portugal, à semelhança do acontece para ambos os grupos de países de referência, as variáveis socioeconómicas são os principais determinantes do desempenho, enquanto os recursos escolares têm uma contribuição pouco importante (exceto as horas de aulas normais).
É importante a afirmação do critério de “excelência”, criando-se estruturas e condições para que as famílias possam encontrar na Escola Pública a resposta para as legítimas ambições dos alunos, permitindo-lhes um nível de formação científica que não pode ser inferior ao dos países mais desenvolvidos.
Educação é desenvolvimento.
Essa é uma “aprendizagem” necessária: com exames, metas exigentes e resultados de excelência.
Mas há outras “aprendizagens” que não podem ser esquecidas.
Há um abismo entre diferentes estatutos social e económico das famílias de onde são provenientes os alunos. Não me refiro apenas ao estatuto económico, que permite pagar “explicações”. O grau de escolaridade dos pais influencia o sucesso escolar dos filhos. Mas esse sucesso também é influenciado pelo bairro degradado onde se nasceu, pela família disfuncional onde se cresceu, pelo ambiente familiar de abandono, sem regras nem horizontes.
Nessas situações, a Escola Pública não pode desistir de “agarrar” esses alunos, de os enquadrar, de assumir a profunda responsabilidade na construção do seu futuro.
É nesse contexto que surgem as “aprendizagens”. Nesses casos, a “excelência” não é ter vinte a Matemática. É adaptar o currículo escolar de forma a não permitir que fiquem sem a escolaridade mínima.
Refiro-me à flexibilidade curricular, tema que abordarei numa futura crónica. ■