Como se responde ao autoritarismo?

0
323

Miguel Silvestre
gestor

Com tudo aquilo que o mesmo não defende: mais liberdade e confiança na cidadania. Lutamos contra o autoritarismo tentando apagar o rastilho quando deveríamos gerar a sua implosão, retirar-lhe o oxigénio que alimenta a sua combustão.
No estudo “Os Valores dos Portugueses” apenas 37% dos inquiridos rejeitam uma liderança política autoritária. É um preocupante diagnóstico e deve ser encarado com inteligência. Ao mesmo tempo, nove em cada 10 portugueses referem que a democracia é “uma maneira boa ou muito boa de governar um país”. Os investigadores Alice Ramos e Pedro Magalhães, da Universidade Nova, avançam que este paradoxo está relacionado com a imperfeita definição de democracia. Parece-me evidente que a nossa democracia vive uma crise de maioridade. O natural desvanecer do romantismo revolucionário dá lugar a uma relação conflituosa entre expetativas e realidade, entre as ambições pessoais e as aspirações da comunidade. A democracia tem encaixado mal as suas derrotas, quer sejam os 3 (!) pedidos de auxílio externo ou os níveis de crescimento confrangedor das últimas décadas. Quando assim é, fazemos o que sabemos fazer melhor… responsabilizamos os (des)governos que escolhemos e sabiamente alheamo-nos dessas escolhas. Há, no entanto, uma pergunta incómoda a fazer: será a sociedade justa quando exige respostas aos políticos que ela própria não encontra? Também aqui a radicalização acontece: mais críticos os inconformados e mais resignados os descrentes. Vivemos uma política com mais ideologia que ideias. A “colectividade pacífica de revoltados”, como nos chamou Miguel Torga, motiva-se mais por ações do que por políticas (mesmo quando são a mesma coisa).
Outro resultado do estudo foi o elevado nível de desconfiança dos portugueses. Só 17% dos portugueses consideram que se pode confiar na maioria das pessoas. O que não espanta, mas naturalmente deixa uma nova pergunta no ar: como pode um país desconfiado ser um país inovador?

Será a sociedade justa quando exige respostas aos políticos que ela própria não encontra?

O estudo parece revelar a ideia de uma democracia quase mítica, uma visão do que deveríamos ser e não uma democracia que se constrói no quotidiano. Somos paradoxais quando detestamos políticos, mas somos indiferentes aos reguladores, essas peças fundamentais numa democracia liberal. A correção dos desequilíbrios está tanto na produção legislativa como na vigilância da sua aplicação. Também na política somos mais punitivos que reguladores.
Eu sou dos 17% que acreditam que se pode confiar nas pessoas. Custa-me acreditar numa sociedade que não pense assim, porque essa é a única receita, para o que Ortega y Gasset chamou de “nacionalização da vida”, que nasce num Estado omnipotente, controlador de todas as formas de organização social, administrativa e escolhas individuais.