O Artista junto à sua Obra

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Isabel Xavier
professora

O dia 24 de outubro de 2015 amanheceu triste, céu cinzento, atmosfera pesada, a “adivinhar chuva”, que não tardaria a chegar. Era sábado e eu tinha combinado entrevistar Ferreira da Silva junto à sua obra “Quatro Estações”, “Jardim das Águas” ou “Mãe d’Água”, como também é conhecida, extraordinária e polémica instalação da sua autoria, situada atrás do Chafariz das Cinco Bicas.
À medida que me aproximava da figura esguia e aprumada de Ferreira da Silva, cuja magreza e fragilidade o tempo acentuara, apercebi-me da simbiose entre o artista e a sua obra, também ela inacabada, abandonada a um destino que nada augurava de positivo, mas portadora de uma impressionante dignidade própria. Foi nesse dia que fiquei a saber da sua intenção de prolongar a instalação até ao Chafariz das Cinco Bicas, através de uma intervenção ao nível do sólo, em calçada portuguesa a preto e branco, num padrão ondeado, em alusão ao movimento próprio das águas, tema central que a obra invoca.
Foi também nessa ocasião que o mestre me disse que projetara um painel revestido de azulejo predominantemente azul, figurando o perfil de alguém, cuja mão seguraria um compasso aberto e apontado à têmpora, para uma parede deixada em branco nas traseiras do edifício da Administração do Hospital.
Decifrei, com a ajuda de Ferreira da Silva, as letras estilizadas que formam as palavras: “É o sol que peca quando em vez de criar seca”, na colorida e solar intervenção parietal na zona menos visível da obra, junto das antigas lavandarias do Hospital.
Já noutras ocasiões, conversáramos sobre o cerrado verde das árvores da mata e de quanto ele constituía o fundo da peça, integrando-a, realçando a sobreposição dos diferentes planos em que a composição evoluía. Conversáramos sobre o mito de Tífon, e de quanto este o inspirara, em referência às águas termais, igualmente provenientes do ventre da Terra, origem das Caldas. Conversáramos sobre a rainha D. Leonor, cujo rosto inscrito no chão, é rodeado da expressão: “até ao fim do mundo”, invocando o Compromisso da Rainha. Conversáramos sobre Gil Vicente e a representação do Auto de S. Martinho na igreja de Nossa Senhora do Pópulo.
Ferreira da Silva morreu pouco tempo depois, no dia 8 de março de 2016. Mal sabia eu que esta seria uma última conversa sobre a sua obra. Recordo principalmente o momento em que me disse que projetara a zona de palcos, de varandins, de escadarias e de percursos por entre os lagos, imaginando que ali se viriam a realizar representações teatrais ou de bailado.
Afirmou então: “Se a obra tiver valor, se conquistar esse lugar, isso acontecerá naturalmente. Se isso não vier a acontecer, será sinal de que não foi possível conquistar esse lugar”. Consciente de que não estava nas suas mãos o destino da obra. E não estava, de facto. Mas está nas nossas mãos inverter esse fatalismo, lutando pelas “Quatro Estações”, salvando-a de um destino de degradação e de finitude que a todos envergonha. ■

Está nas nossas mãos inverter esse fatalismo, lutando pelas “Quatro Estações”, salvando-a da degradação