Entretempos: Dar tempo aos valores

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Dóris Santos
historiadora de arte e museóloga

Setembro é o mês dos recomeços, como se o nosso calendário social e pessoal fosse atualmente mais cadenciado pelos anos letivos do que pelos anos civis. Do ritmo agrícola, ficam-nos expressões como “pagar pelo São Miguel”, assinalado no final de setembro, após as colheitas.
À semelhança do dia de aniversário ou do início do ano civil, associo este momento mais à introspeção, a um estado de inquietação bem expresso no poema de José Régio, cujos 120 anos de nascimento se celebraram neste setembro: “Não sei por onde vou; Não sei para onde vou – Sei que não vou por aí!”.
Este ano, setembro tem a particularidade de nos fazer acreditar que retomamos uma vida mais “livre” e em comunidade, após um ano e meio de clausura pandémica. Mas também nos convoca à mudança, ou a essa possibilidade, através das eleições autárquicas.
Recordo-me da história contada pela minha tia, da euforia quando pôde votar pela primeira vez após o 25 de Abril e de, no dia das eleições, ter ficado com gripe, arriscando-se a não exercer um direito há tanto ansiado. No Museu do Aljube, em Lisboa, a exposição “Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas” espelha bem o que justificou a ansiedade da minha tia e de tantas outras mulheres que, naquele dia, pela primeira vez, podiam votar. Aqui bem perto de nós, o recente Museu Nacional da Resistência e Liberdade, entre outros propósitos, visa manter a memória de todos aqueles que foram presos e impedidos de manifestar livremente o seu pensamento.
Com 47 anos de democracia, o número elevado da abstenção pode revelar desinteresse, desconhecimento, comodismo, facilitismo do discurso que atribui à classe política a culpa dos “males” do país. Sobretudo ao nível do poder local, onde é mais imediato o efeito das nossas decisões coletivas, deveríamos estar mais implicados. Mas, sinceramente, talvez faltem propostas do “Longe”, continuando no poema de José Régio: “Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, / E vós amais o que é fácil! / Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos…”. Que as nossas campanhas políticas sejam ousadas nas propostas, mas não demagógicas, indicando ações efetivamente comprometidas com o desenvolvimento a curto e longo prazo das comunidades.
Numa formação profissional, no âmbito do “Happy Museum Projet”, marcou-me um exercício (exigente!) de autodiagnosticar como os “valores” são priorizados e exercitados no nosso local de trabalho enquanto estratégia de atuação.
Partindo do modelo “Schwartz Values Map” (2006), foi-nos solicitado que, de uma longa lista, selecionássemos apenas três valores (padrões que definem as nossas atitudes e comportamentos). De uma maneira geral, todos nos identificamos com aquela panóplia de valores, o que muda é a prioridade que lhes atribuímos e como orientamos a nossa ação individual ou organizacional em função dessa escala. Uns valores reúnem-se nas áreas da “conformidade, tradição e segurança”, outros da “compaixão, benevolência e universalismo”, outros ainda do “interesse pessoal, empreendedorismo e realização”.
Equaciono até que ponto esta perspetiva de atuação, baseada na definição da prioridade de valores, poderia “agitar” as bases programáticas das propostas eleitorais e responder mais cabalmente ao desafio de criar um futuro mais sustentável, dando a conhecer, assumindo e facilitando a primazia dos valores “intrínsecos”, mais próximos do cidadão e da sua essência pessoal. E, assim, todos acreditarmos e participarmos na mudança! ■