Palavras interditas

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Alberto Costa
advogado

Fui jornalista durante um par de anos, antes de voltar a Leiria para o estágio de advocacia, em 1972. Essa experiência profissional, vivida seis dias por semana, permitiu-me conhecer de perto a actuação da censura, nessa altura já baptizada de «exame prévio».
A expressão “guerra colonial” era uma das que não passava. Outras podiam, em certas circunstâncias, ser admitidas: “guerra em África”, “guerra do Ultramar”, “operações militares nas províncias ultramarinas” e semelhantes. Era como se proibição fosse disparada pela junção da ideia de guerra à de colónia.
O que é fácil de compreender. Meia dúzia de anos depois do final da Segunda Grande Guerra, o salazarismo, sem que nada tivesse mudado na realidade, tinha passado a chamar “províncias ultramarinas” às colónias e Ultramar ao Império Colonial português. Falar de guerra a respeito do que se passava em África era inevitável: o próprio Salazar, ao passar a exercer também o cargo de ministro da Defesa (antes dito da Guerra), reduzira a justificação pública a uma palavra: Angola. Mas ligar a irrecusável realidade da guerra à recusada realidade colonial era «contrário à ordem estabelecida» e «subversivo» – logo cortado.

No celebrado discurso do 47º aniversário do 25 de Abril, o Presidente da República debruçou-se demoradamente sobre o tempo determinante (assim o referiu) decorrido entre 1961 e a revolução de 1974. Surpreendentemente, nunca usou a expressão “guerra colonial”. Falou de combates, de atuação anti-guerrilha, de ações no terreno, de trincheiras, dos que “serviram pelas armas”… mas fez sempre questão de evitar a expressão que antes da revolução era proscrita e que hoje consta, inocuamente, de qualquer livro de história. Nem chegou a usar a palavra guerra, o que – tratando-se daquele “tempo” – quase pode ser considerado um prodígio.
Noutro ponto, contudo, seguiu critério diferente. Para designar as realidades desse período, fez nesse discurso um uso massivo da noção de império (o computador regista o uso da palavra 14 vezes!). Essa era a outra expressão que o sistema colonial também há muito sacrificara, por ter percebido que era necessário desfazer-se da denominação para manter inalterado o essencial. Aqui, o Presidente rompeu com a “negação” decidida pela ditadura nos anos cinquenta, assumindo a permanência da relação colonial – até ao que chamou “o ocaso do Império”, por ele testemunhado em Moçambique.
No curso normal do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa será Presidente da República Portuguesa no 50º aniversário do 25 de Abril. Depois de o ouvirmos agora, fica a expetativa de que, nessa altura, use a expressão interdita. Ou seja, nomeie a guerra colonial pela forma como a história a regista – e para que ele próprio aponta, quando evoca «aqueles que, por opção de princípio, recusaram a partida», “continuando ou iniciando a luta contra o que estava e queria permanecer”. Mas uma história de cada vez…
“Monsieur le Président, je vous fais une lettre que vous lirez peut-être si vous avez le temps.” (Boris Vian)