Prisões e “janelas com horizonte”

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Gazeta das Caldas

Em Génesis 4,9, deparamo-nos com o seguinte texto interpelativo: “O Senhor disse a Caim: “onde está Abel, teu irmão?” Caim respondeu: “Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?”. Penso que podemos extrapolar para a nossa vida e refletir: Estou preocupado com o que se passa com o outro? Sei onde está o meu irmão que passa por vicissitudes? Procuro-o? Vou ter com ele ou tento ignorar a sua condição? Uma situação, muito concreta, prende-se com a assistência espiritual e religiosa aos irmãos que, por várias razões e fruto dos seus atos, se veem privados da liberdade física. Este é um tema que já abordei por outras ocasiões, mas que considero da atualidade, não só por termos inserido na nossa cidade um Estabelecimento Prisional, mas também porque nos dias 07 e 08 do corrente mês, estiveram reunidas em Fátima, no XV Encontro Nacional da Pastoral Penitenciária, cerca de uma centena de pessoas (duas da nossa paróquia), provenientes de várias dioceses do país, as quais, aproveitando as intervenções e os gestos inspiradores do Papa Francisco, refletiram sobre o tema: Prisões e “Janelas com Horizonte” e, entre outros, definiram como grandes desafios:
– Defender, em todas as circunstâncias, a dignidade da pessoa humana que se encontra em situação de privação de liberdade, dignificando as condições de cumprimento da pena, assim como promovendo a redução do período médio da sua duração, aproximando-o dos níveis europeus;
– Fomentar iniciativas que alimentem a esperança das pessoas em reclusão, quer seja através da forma como se celebram os atos de culto, quer seja através do modo como se procura o desenvolvimento espiritual e religioso;
– Envolver as comunidades cristãs em particular e a sociedade civil em geral, numa perspetiva inclusiva das pessoas em situação de reclusão, capaz de abrir horizontes de autonomia para uma eficaz reinserção. Nestes dois dias, reforçou-se a vontade de continuar a colaborar numa crescente humanização da realidade da reclusão, tendo presentes os contributos que o Papa Francisco nos tem apresentado, quer a nível das suas intervenções, quer, sobretudo, a nível dos seus gestos de proximidade para com as pessoas em situação de privação de liberdade. No Encontro Internacional, para a reflexão teológica e pastoral sobre a problemática das Pessoas Privadas de Liberdade, realizado no Vaticano a 07 e 08 de novembro passado, na sua intervenção, o Papa utilizou, entre outras, a seguinte imagem: “Não se pode falar de um ajuste de contas com a sociedade, numa prisão sem janelas, ou seja, não há uma pena humana sem horizonte e ninguém pode mudar de vida se não vê um horizonte”. Por isso, Francisco exortou os presentes a levarem consigo esta imagem da janela e do horizonte, no sentido de procurarem que, nos respetivos países, “as prisões tenham janela e horizonte”. Quando falamos de reinserção social, numa sociedade melhor ou na recuperação de pessoas que cometeram ilícitos, isso deve ser uma preocupação e trabalho de todos e não apenas das instituições públicas e governamentais. Toda a pessoa humana, qualquer que seja a sua história, quaisquer que sejam as marcas adquiridas e impressas no corpo ou no espírito, tem o direito e o dever de programar futuros, discernir horizontes, dar passos de reconstrução permanente. Por mais fortes que sejam as muralhas, nada pode impedir o Homem de sonhar…de pensar…de tentar um constante recomeço, rumo a horizontes possíveis e atingíveis.