Quem tem medo do Lobo Mau?

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Nas histórias infantis, literatura, teatro, filmes e novelas a base para um bom enredo é uma pessoa muito boazinha e ingénua e outra má, cheia de malícia e capaz de fazer de tudo para derrotar a primeira. Na mente humana parece que tudo se desenvolve entre o preto e o branco, sem margem para todas as outras cores de que somos feitos.
Se por um lado a figura boa, é linda, cheia de virtudes, mas falha no acreditar que todos são movidos pelos mesmos valores e acha que sendo boa nenhum mal lhe chega. A figura má não é capaz de viver com a felicidade dos outros, é mentirosa, vingativa e invejosa e é feia, como se o que sente se espelhasse no exterior. Em última instância o bom prevalece sempre ao mau. Isto nas histórias… porque na vida real, nem sempre a vitória é imediata ou alguma vez vimos resultados. No caminho vai deixando sequelas, vai conspurcando almas.
As histórias infantis estimulam a imaginação das crianças, transmitem mensagens e dão lições. Não nos devemos relacionar com desconhecidos, devemos ser honestos e solidários. Devemos ser verdadeiros e nunca dizer mentiras. Devemos, devemos e devemos… como se para continuarmos bons, a receita fosse sempre dar a outra face.
O mau no final da história perde sempre. O lobo consegue destruir a casa de palha e de madeira com o seu sopro mas não consegue destruir a de tijolos. Portanto, se os nossos alicerces forem seguros, por mais que nos tentem derrubar, não o conseguirão fazer e a nossa preguiça e pouca vontade de fazer mais ou melhor, é penalizada ou serve de aprendizagem. Começamos cedo a ensinar quais os comportamentos corretos e quais não são desejáveis e no percurso perdemo-nos e julgamos, categorizando as pessoas em boas e más. Mas, salvo exceções, o comportamento é que não é o correto, as pessoas continuam a ser somente pessoas.
Se nas histórias tudo é assim, na vida a determinado momento ela começa a cobrar-nos um posicionamento em relação às nossas dores, feridas e frustrações, como se nos perguntasse o que temos feito com e quando nos deparamos com situações difíceis, como se toda a história se desenvolvesse também dentro de nós mesmos. Temos de dar um significado ao que escolhemos viver e nos posicionamos por decisão, omissão ou pela nossa história pessoal. Esta escolha consciente e decisiva de olhar a verdade, acontece no momento em que as dores internas são extremas, quando chegamos ao fundo do poço e onde nos deparamos somente com duas opções: reagir e mudar ou desistir e continuar a perecer.
Nessa escolha, onde a zona de conforto acaba, onde somos “obrigados” a tomar uma decisão ou atitude, onde é preciso coragem e determinação, onde é preciso olhar para dentro de nós mesmos, resistir à tentação de encontrar culpados, desculpar e reclamar, onde temos de encarar a responsabilidade de cada escolha que fizemos, cada erro, cada atitude correta e acertada, cada tentativa frustrada. No fundo, perceber que a grande diferença está no que fazemos com o que nos acontece e isso não está nas histórias infantis.
Sim, todos temos medo do lobo mau, todos temos um lado bom e mau e todos temos dentro de nós uma história onde caímos. Todos somos desafiados pela vida mas também todos nós carregamos um enorme potencial para fazer das nossas dores, umas pérolas. ■