Visto da Foz: Notícias prometidas

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Alberto Costa
advogado

Em Março, frente aos resultados das legislativas, prometi para Junho «melhores notícias» – e chegou a hora. Não me referia à hipótese de um dos partidos centrais ter a mais ou a menos uns pontos do que o outro. Referia-me, sim, à drástica ascensão eleitoral do Chega que, com 18%, se tornava então, por cá, a 3ª força política.
Não repetirei a análise. Naquele contexto (as suspeições projectadas pela «operação” e comunicado do MP e demissão do PM) a dissolução da AR implicava um enorme bónus conjuntural para um partido com o «modelo de negócio» do Chega, que tinha até aí uma expressão eleitoral bem abaixo dos seus congéneres europeus. E daí retirava: «Das europeias sairá actualizado um quadro comparativo da performance eleitoral deste tipo de formação nas democracias europeias. Os 18% de agora não continuarão a crescer por cá: o movimento será em sentido contrário». Ora foi isso o que se passou.
Os congéneres europeus do Chega obtiveram agora o 1º lugar em países como a França, a Itália e a Áustria, para não relembrar a Hungria, e a 2ª posição na Alemanha, Polónia, Países Baixos, Bélgica e outros mais. E as percentagens atingidas foram tão elevadas como 31% na França, 28% na Itália, 27% na Áustria, 16% na Alemanha. Na realidade bem mais, porque em vários casos há mais do que uma lista. Assim, em Espanha, ao lado do Vox, que continuou a crescer, surgiu uma lista ainda mais à direita, que conseguiu, só ela, 800 mil votos e 3 mandatos! Leio com espanto no «El Pais» que haverá mais «deputados ultra» no próximo Parlamento Europeu (mais de 148) do que «socialistas e democratas» (135).
Se nos assumimos como europeus, é num contexto assim que o «fenómeno» local tem de ser olhado. O Chega propôs-se, «à europeia», ganhar… e noutros países isso não teria nada de irreal. Só que por cá desceu de 18% do eleitorado para, praticamente, metade (9,79%), vendo o número dos seus votantes «contrair-se» agora para menos de 390 mil. Aqui, num distrito em que elegera 2 deputados em Março, já só atraiu um terço do número de votantes que os «justificou» (caindo de 53764 para 18243). E quase proporcionalmente no concelho das Caldas, onde votei (onde a queda foi de 5572 para 2061).
Várias razões, como sempre acontece, convergiram. Não se esqueça, porém, uma delas: nestas eleições, já perdeu valor o bónus que funcionou há 3 meses. Actuações e informação procedentes do MP pareciam então abonar suspeições criminais impendendo sobre «altos cargos», um dos grandes «temas Chega» (sem esse pressuposto, aliás, nem tais eleições teriam existido!). Ora os meses foram passando e tudo isso parece ir-se esboroando, levando mesmo a credibilidade daquela «denominação de origem» para um dos seus momentos mais baixos. E como então referi, até pela sua natureza europeia estas eleições não seriam identicamente afectadas por essa contaminação conjuntural.
Perguntar-se-á: mas estaremos nós «lusamente» livres de uma evolução futura para um panorama semelhante ao que a Europa neste domingo nos mostrou? Não, claro. Temos aqui contudo um sensível «delay» que nos concede mais tempo para trabalhar contra esse risco: assim a outros factores se reúnam o engenho e a arte. ■