Pintar em comum

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O Advento é o tempo que antecede o Natal. Vinda do latim, a palavra alude a um tempo de expectativa e de preparação. No calendário cristão, é um período de espera pela alegria do nascimento de Jesus, o Salvador.
Independentemente das orientações religiosas, todos experimentamos esta alegria, seja pelo encontro entre amigos e familiares, seja tão meramente pela azáfama da sedução consumista. Os municípios concorrem pelas ruas mais iluminadas, pela originalidade das árvores de Natal, pelo programa das animações e parques temáticos. A música ecoa nas ruas, igrejas e salas de concerto. As casas tornam-se mais hospitaleiras com os adereços natalícios.
Duas perceções vêm sendo conciliadas ou sobrepostas – a original, que celebra a história bíblica de há 2000 anos ocorrida no Médio Oriente; e do outro lado, a vermelho e verde, com neve e frio, a do mundo anglo-saxónico, onde o reino do Pai Natal (inspirado no S. Nicolau) se povoa de criaturas fantasiosas dos rituais pagãos. Em comum, a Luz que alumia de solidariedade o nosso caminho e emana Esperança.
Em Portugal, este tempo é rico de tradições locais e regionais muito variadas. Na infância, os rituais adquirem um fascínio ampliado quando olhados em retrospetiva. Recordo-me de, todos os Natais, pela mão dos meus pais ou dos meus avós, ir ver a monumentalidade do Presépio que os Bombeiros armavam na sua sede. Não deverei ser a única a guardar memória deste mundo em miniatura que nos seduzia pela multiplicidade de figuras, entre musgo e luzes cintilantes.
Felizmente, muitos presépios continuam a estar presentes nos espaços públicos. Diz a tradição que o primeiro presépio foi criado por S. Francisco de Assis, no século XIII, para explicar de forma didática a Natividade. O costume disseminou-se e perdura nos nossos dias. Em Portugal, adquiriu aspetos singulares em figuras “tipicamente portuguesas” como o moleiro, a lavadeira, a mulher com o cântaro à cabeça, a banda da música, entre outras. De Barcelos a Estremoz, as peças de barro saem das mãos de artesãos, que em nada devem ser depreciadas, lado a lado, com a exuberância dos presépios de Machado de Castro.
Caldas da Rainha, cidade da cerâmica, não deixa de ter vários autores dedicados ao tema; mas é a minúcia das miniaturas de Mestre Herculano Elias que perdura na minha estima.
Entre outras iniciativas, na vizinha Gaeiras, promove-se anualmente uma Exposição de Presépios, bastante concorrida e onde a palavra de ordem é a criatividade e diversidade de autores e materiais.
O presépio alarga-se à escala paisagística e pode impulsionar a promoção identitária e turística de uma localidade. É o caso de Alenquer, que se afirma como “Presépio de Portugal”. Desde as cheias de 1967 e em homenagem às suas vítimas, numa encosta da vila, todos os anos, distribui-se um imponente presépio, tornado referência nacional.
Na Noite de Reis, quando noutros pontos do país se cantam as “Janeiras”, este concelho conserva outra tradição original: o “Pintar e Cantar dos Reis”, recentemente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, e que também tem seguidores do lado de cá do Montejunto, em aldeias do concelho do Cadaval.
Grupos de populares percorrem as ruas para pedir a bênção e desejar felicidades para o novo ano, associando a festa, os cantares e escritos simbólicos, os ritos religiosos e de sociabilidade. Os cantores-reiseiros entoam versos, seguindo o grupo dos pintores-reiseiros que, munidos de lanternas, pincéis e tintas, vão pintando, nas fachadas das casas, símbolos a vermelho e azul – como vasos e corações floridos, referências a profissões, estrelas, …. para além de siglas como “BR” (Bons Reis) e o ano da celebração. Deveria o “Pintar dos Reis” ter uma projeção mais ampla? Talvez! Mas receamos a turistificação. Esta festa vive sobretudo da singeleza coletiva e da esperança dos novos ciclos. Que assim perdure e possamos, em comunidade, renovar anualmente os votos de um Bom Ano. ■