A posição dominante da Rodoviária do Oeste

0
1465

Sou utente do serviço da Rodoviária do Oeste, recorrendo diariamente, desde Março de 2007, ao serviço de Rápidas no percurso Caldas da Rainha – Lisboa, mediante a aquisição de um passe mensal que, no momento actual, ascende a 184,50 euros.
A decisão de ter uma vida profissional a 100 quilómetros do meu local de residência levou em conta, entre outros factores, a existência de transporte directo entre Caldas da Rainha e Lisboa e entre Lisboa e Caldas da Rainha.
Desde então e até à presente data, a Rodoviária do Tejo, à revelia do interesse dos utentes de Caldas da Rainha, e mesmo contra a vontade expressa dos mesmos, foi paulatinamente reduzindo a oferta de transporte directo, passando a quase totalidade dos trajectos a incluir paragem no Bombarral e em Óbidos.

Por último, existia já apenas um percurso directo às 7h15 da manhã entre Caldas e Lisboa e, mesmo esse, terminou no passado dia 2 de Maio, sem consulta aos utentes e com aviso prévio de menos de uma semana.
Refira-se que a vasta maioria dos utentes deste serviço, sobretudo à hora de ponta, são trabalhadores que se deslocam para o seu local de trabalho, pelo que as paragens em Óbidos e Bombarral acrescentam aproximadamente meia hora ao normal percurso directo de uma hora, ou seja, um aumento de aproximadamente 50%.
Por esta razão, e desde que o percurso directo foi reduzido a um único horário, passou a existir uma procura muito intensa do referido horário, para alívio da pesada carga horária em transporte público, o que resultou em que muitas vezes o autocarro que fazia o trajecto não comportava o número de passageiros que nele pretendiam viajar.
Evidentemente que esta situação gerou alguns conflitos pontuais entre os passageiros que, apresentando-se em tempo útil na estação rodoviária não conseguiam viajar no horário pretendido, e a administração da Rodoviária do Oeste, a qual já havia verbalmente indicado que, uma vez que o percurso directo causava problemas, o melhor seria acabar com ele.
Se bem o disseram, melhor o fizeram, e assim, a partir do dia 2 de Maio de 2017, as centenas de residentes em Caldas da Rainha que trabalham em Lisboa, sem disporem de qualquer outro meio de transporte público que colmate o deficiente serviço que a Rodoviária do Oeste presta, vêem-se compelidos a utilizar um transporte rodoviário que lhes acrescenta meia hora de viagem por dia (ou seja 114 horas de viagem por ano) à já pesada carga de transporte público que têm.
Também no que se refere a questões de custo do serviço, os utentes de Caldas da Rainha têm razão de queixa: veja-se a diferença entre o custo do passe da rápida que liga Lisboa a Caldas da Rainha (184,50 euros) e o custo de igual serviço prestado pela mesma empresa entre Lisboa e Santarém (144,00 euros), ou seja, por um percurso superior em 15%, um diferencial de custo que excede os 30%.
Perante os factos enunciados, não posso deixar de supor que isto só acontece porque, perante a ausência de alternativa válida, é deixado amplo espaço de manobra à Rodoviária do Oeste para, em ambiente não concorrencial, fazer uso da sua posição, decidindo arbitrariamente e em total desrespeito pelos interesses dos respectivos clientes.

Maria da Conceição do Couto Henriques Velez de Lima

NR – Gazeta das Caldas deu conhecimento destas cartas à Rodoviária do Tejo, que nos mandou a seguinte resposta:

Agradecendo a possibilidade de resposta às cartas dos clientes da Carreira Rápida podemos informar:
1) Com o recente aumento de horários, a empresa continuou o seu aumento de oferta que progressivamente vem efetuando desde 2007, assim como a melhoria informação ao público disponibilizada, de viaturas afetas e condições dos locais de embarque;
2) Nesta carreira, que é uma Carreira Rápida devido à utilização de vias rápidas e não uma Carreira Direta, salientamos que passámos agora de 28 para 31 horários de Caldas da Rainha para Lisboa quando em 2007 existiam apenas 13 horários. Dos anteriores horários, mantinha-se apenas um horário como direto para Lisboa, resultante de anteriores serviços de desdobramentos quando a oferta regular era muito inferior;
3) Atualmente todos os clientes dispõem de uma vasta oferta de horários incluindo partidas de Caldas da Rainha, Óbidos e Bombarral com frequências de 10 minutos entre as 06H30 e as 08H00.
4) Com este recente aumento de oferta, a Carreira Rápida passou a ter todos os seus horários a cumprirem os seus percursos devidos, sem qualquer exeção, deixando assim de existir um horário, perdido entre 31 outros, não cumprindo o seu itinerário e fazendo-o como se de uma Carreira Direta se tratasse, com todos os inconvenientes operacionais e confusão daí resultante para os clientes;
5) A Carreira Rápida tem um itinerário, um horário e um tarifário e é isso que queremos continuar a cumprir da forma mais competente para todos os nossos clientes possam dispor de um serviço rápido, seguro, confortável que contribua para a sua satisfação;
6) Em suma, confirmando que entre os 31 atuais horários deixou de existir um com uma duração 15 minutos inferior à dos restantes 30 horários, julgamos estar neste momento em vigor uma solução que melhor serve a quase totalidade dos clientes que utilizam esta Carreira Rápida.
7) No que se refere à tarifa utilizada, podemos informar que os preços praticados são os que resultam das tabelas em vigor e definidas pela legislação em vigor.
Finalmente, quanto à questão do concurso internacional para os serviços de mobilidade a que se está obrigado pela legislação europeia, é uma situação normal e que nada decorre de melhor ou pior qualidade de serviço existente. Este poderá ser um tempo para as Autoridade Adjudicantes, se assim o entenderem, poderem solicitar novas Obrigações de Serviço Público e responsabilizarem-se pelas devidas compensações legalmente previstas. É o que vem acontecendo em todos países, exceto Portugal em que são os operadores privados, com ZERO compensações, que suportam todos os riscos e custos da operação. Fora das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto o erário público nada paga (nada mesmo) aos operadores privados, pelos serviços rodoviários de transporte de passageiros que estes prestam. Com os futuros concursos que a legislação europeia irá exigir, as Autoridades tudo poderão passar a exigir e pagar.
Sem mais, reiteramos os nossos agradecimentos à Gazeta das Caldas pela oportunidade e, acima de tudo estes clientes, por serem nossos clientes num leque de opções em que se inclui a Rede de Expressos e a CP e por terem manifestado nesta reclamação a vontade que a empresa seja exigente na execução do seu serviço em benefício dos seus clientes. Podem crer que, para a Rodoviária do Oeste o cliente está sempre em primeiro lugar.

Orlando Ferreira
Administrador da Rodoviária do Tejo