Category: Opinião

  • Egoísmo ou desespero?

    Egoísmo ou desespero?

    José Luiz de Almeida Silva

    Ver na televisão os incêndios florestais que têm corroído o país nas últimas semanas, à distância no Oeste (litoral) mais frio e húmido, e ouvir as vítimas próximas mergulhadas no calvário dos mesmos queixaram-se de tudo e de todos, é um exercício de cidadania difícil e quase incompreensível.

    Como é possível que a algumas centenas de quilómetros, nalguns casos a menos de uma centena, se seja poupado a tamanho infortúnio, perigos e prejuízos patrimoniais e ambientais? Penso que as gentes do Oeste, queixosas das temperaturas frescas e da ausência permanente da canícula, apenas bordejada por alguns momentos mais intensos, não têm consciência nem sabem agradecer totalmente esta benesse dos deuses ou a circunstância de se situar junto ao oceano e isolada pelas serras (Montejunto, Serra d´Aire e Candeeiros) em seu redor.

    Com as alterações climáticas, recusadas por negacionistas populistas que face ao caminhar da desgraça também acusam todos pelos factos, como pelas mudanças na estrutura económica e produtiva das regiões, a situação tem vindo a piorar, em que com a proliferação e permanência dos novos media e das redes sociais, a situação se torna permanente e obsessivamente presente no nosso quotidiano.

    Assistir às palavras de circunstância ditadas pelas vítimas desses incêndios, acusando autoridades, bombeiros e responsáveis pela proteção civil, por tudo o que lhe está a acontecer, esquecendo ou minimizando a ausência de prevenção de que são também responsáveis, é um exercício de desespero ou de egoísmo, explicável pelo medo e terror do fenómeno que vivem e que acham inexplicável.

    Num tempo em que estudámos prospetivamente o fenómeno, desenhámos como ideal um país impossível que alterava drasticamente o seu perfil florestal e ambiental, e colocava em causa interesses económicos que preferem lucros de curto prazo. Dificilmente vamos vencer esta tragédia cíclica anual.

  • 16 de Março de 1974 & Refugiados

    16 de Março de 1974 & Refugiados

    José Luiz de Almeida Silva

    Visitei há dias o Centro Interpretativo “Os Murais de Almada nas Gares Marítimas”, na gare de Alcântara, num percurso muito interessante englobando a vida criativa de Almada Negreiros como a narrativa do papel desempenhado no século XX pelas gares de Lisboa, juntando aquela à da Rocha Conde de Óbidos.

    Percorrer a vida e obra do pintor num contexto do século passado, juntando a sua criatividade e sede de liberdade, conjugada com um pacto difícil com os ditames do regime de Salazar, é uma experiência rica. Mas aquele centro permite perceber o papel das gares na II Grande Guerra como entreposto de gente que fugia e chegava do nazismo, como na década de 60 nas ligações das tropas portuguesas que iam e vinham da Guerra Colonial. Para além do conteúdo do Centro Interpretativo, a visita aos painéis em ambas as Gares, constitui o acompanhamento crítico da trajetória dos portugueses no século XX em que, como se afirma no roteiro, “Almada escolhera pintar não os supostos heróis celebrados pela ditadura do Estado Novo, mas as figuras mais pobres dos marinheiros, a população comum e o quotidiano da vida ribeirinha de Lisboa”.

    Mas a visita a esta exposição que ficou permanente em Lisboa, fez-nos recordar o que poderia ser um desafio inteligente e criativo, da criação nas Caldas de um prometido Centro Interpretativo da Revolta do 16 de Março do RI5, a que se juntaria com bastante vantagem e oportunidade, como se percebe neste Centro em Lisboa, a história das Caldas da Rainha como centro recetor de refugiados em várias épocas no século XX, desde os Bohers, passando pelos espanhóis que fugiam à Guerra Civil de Espanha ou os da I e II Grande Guerra. Em tempo de guerras próximas e de muitos refugiados é um tema que serviria para todos meditarmos e mostrar a generosidade dos caldenses para com os perseguidos.

  • Sebastião Salgado

    Sebastião Salgado

    António Marques
    Técnico de Turismo

    Sebastião Salgado, que tantos trabalhos fez em Portugal, um País que amava como o seu, foi muito mais do que um dos maiores fotógrafos de nosso tempo. Ao lado de sua companheira de vida, Lélia Deluiz Wanick Salgado, semeou esperança onde havia devastação e fez florescer a ideia de que a restauração ambiental é também um gesto profundo de amor pela humanidade. A sua lente fotográfica que irradiava magia, evelou o mundo e suas contradições o pulsar da vida e o poder da ação transformadora.
    Culturalmente multifacetado, porque para além da fotografia legou-nos uma obravescrita de referência, Sebastião Salgado era um ser humano de rara sensibilidade, que nos ajudada a sabero olhar para o que de mais belo, mais duro e mais cru que coexiste no nosso planeta.

    Salgado documentou como poucos o período pós 25 de Abril de 1974 e os seus documentos são fonte de pesquisa permanente na busca da imagem mais impressiva.
    Independentemente do génio do autor que deixa sementes na área social de rara profundidade, como Trabalhadores e Exodus, Salgado soube como poucos tomar o pulso a um paradigma que estava a terminar.

    Se o fotógrafo tinha a ambição de tocar os outros e partilhar as suas preocupações, a sua alavanca já não eram os jornais ou as revistas, mas sim os grandes livros e as expressivas exposições.

    Salgado dirigiu bem a gestão da sua carreira e tendo alcançado um universo público mais vasto do que provavelmente qualquer outro fotógrafo da história.

    O legado de Sebastião Salgado não se esgota portanto nas suas fotografias inesquecíveis.
    A sua prática cultural transborda para um plano em que um Homem e o seu talento são postos ao serviço de um mundo que ele quer melhor e mais justo.

    Uma célebre fotografia de Churchgate, o terminal da linha ferroviária suburbana de Bombaim, integra o livro e a exposição Exodus, “um trabalho seminal”, nas palavras do editor e fotojornalista da National Geographic Portugal Alexandre Vaz. Esta obra, que demorou mais de seis anos a construir, conta a história intemporal do exílio e da migração, cobrindo 35 países do mundo, incluindo a índia.

    Partiu aos 81 anos, mas a sua Obra vai perdurar por muito tempo entre nós.

  • Agosto, estamos de férias!

    Agosto, estamos de férias!

    Lurdes Pequicho
    Educadora de Infância

    Agosto é o “Mês do Emigrante”, é o mês em que todos nós recebemos os filhos da terra. É o mês em que se matam saudades dos familiares, das tradições, da cultura, do som dos acordeões a tocarem música tradicional portuguesa e o som dos grupos musicais nos bailaricos. Tradições e culturas que a maioria das crianças, filhos de emigrantes não experienciaram, não viveram e têm neste mês, todos os anos, essa possibilidade.

    O que vivemos em crianças diz muito da nossa personalidade enquanto adultos, por isso esta tradição de em Agosto “voltar a casa” vai influenciar as crianças, a valorizarem as tradições e a cultura das suas raízes, tanto as crianças que vêm, como as que cá estão. Quase todos nós temos familiares emigrantes, ou conhecemos alguém que tem e que assim como eu, têm histórias para contar sobre as férias com primos, a forma como aprendíamos outras línguas, as brincadeiras, as idas à praia, ou os piqueniques com todo um arsenal de panelas e cadeiras e o garrafão de tinto para os avós. Bons tempos, não?

    Agora, somos adultos e temos a responsabilidade de escolher que memórias queremos que os nossos filhos guardem das férias. Como queremos passar essas férias? De uma forma despreocupada, em que cada dia vai acontecendo naturalmente ou de uma forma organizada, em que planeamos todas as atividades para todos os dias? Queremos envolver as crianças nessas escolhas, ou seremos nós a decidir?

    Estas escolhas vão ditar a forma como passas as tuas férias, como aproveitas o único tempo, durante o ano, que tens para ti e para os teus. Qualquer escolha que faças estará correta, desde que vá ao encontro dos teus valores e intenções. O importante é tomares essas decisões de forma consciente e com noção de que essas escolhas vão influenciar não só a ti, como todas as pessoas ao teu redor, especialmente os teus filhos, que te vêm como exemplo a seguir. Tocar as mentes e os corações das crianças é uma responsabilidade gigante e nós adultos que o fazemos todos os dias, temos de ter consciência disso.
    Nestas férias sê e faz aquilo que gostarias que os teus filhos um dia, façam quando crescerem. Só dessa forma se conseguem transmitir valores: a Ser e a estar Presente.
    Eu sou a Lurdes Pequicho, educadora de Infância e coach infantil e juvenil e nestas minhas participações, vou partilhar contigo algumas reflexões, ferramentas e dicas que implementadas, podem contribuir para construíres relações mais harmoniosas com as tuas crianças e jovens.

    Com Amor

  • Férias – Tempo para AGIR!

    Férias – Tempo para AGIR!

    Vítor Ilharco
    Personal Trainer

    O mês de agosto é, tipicamente, o período das férias “grandes” dos portugueses. Com ele, chega também uma quebra nas rotinas. As férias são uma pausa merecida — mas não precisam de ser uma pausa total da atividade física. Pelo contrário, podem ser uma excelente oportunidade para se mexer de forma diferente, com menos pressa e mais prazer. Não se trata de “manter o plano à risca”, mas sim de continuar ativo de forma flexível, realista e, acima de tudo, com significado.

    O ideal será mesmo aproveitar esta interrupção e o calor para fazer atividades para as quais, durante o ano, raramente há tempo: caminhar à beira-mar, dar um mergulho demorado, jogar com os filhos, explorar novos trilhos ou dar uma corrida ao nascer do sol.
    Aliás, quase sempre, quando se começam a idealizar as férias, surgem ideias como “vou correr na marginal”, “vou andar mais de bicicleta”, “vou nadar todos os dias”. O problema é que essas intenções, muitas vezes, não passam disso. Fica-se a pensar. A planear. A esperar. E o momento certo passa.

    Por isso, aqui vai a grande sugestão: fazer mais e pensar menos.

    Se já costuma praticar exercício, é porque retira algo positivo dessa prática — seja pelo movimento em si ou pela sensação de bem-estar no final. O desafio nas férias é, muitas vezes, a falta de estrutura. Sem horários fixos, a tomada de decisão torna-se mais lenta… e hesitante.

    Imagine: esteve na praia até às 18h e tem jantar às 20h. Pelo meio, pensa se ainda vai correr, já que até levou os ténis. Mas, como está de férias, decide sentar-se um pouco no sofá. Passam 20 minutos, a energia esfria e, quando dá por si, já decidiu que “amanhã é melhor”. E, assim, os dias passam.

    Este tipo de pensamento – comum e humano – pode ser um obstáculo. Não por falta de vontade, mas porque se complica o simples. Então, simplifique.

    Vai de férias? Quer manter-se ativo?
    Leve roupa adequada para o exercício;
    Repare nas oportunidades do local;
    Quando tiver vontade, faça. Caminhe. Corra. Nade. Mexa-se.
    Às vezes, e quase sempre, é tão simples quanto isto.

    No fim do dia, é provável que se sinta mais leve, mais realizado e com aquela sensação de ter aproveitado as férias de forma ativa — sem culpa, sem rigidez e com liberdade.

  • O céu de agosto

    Este mês de eventos astronómicos começa com a Lua no seu apogeu, o ponto mais alto da sua órbita, apresentando-se na fase de quarto crescente entre as constelações da Virgem e da Balança.

    Por sua vez, aquando da Lua Cheia de dia nove, o nosso satélite natural ter-se-á deslocado até à constelação do Aquário. Passados outros três dias a Lua já será vista com o planeta Saturno junto à constelação dos Peixes. Ao raiar da aurora deste mesmo dia doze os planetas Júpiter e Vénus terão sido vistos nascer em conjunção, distando entre si pouco menos de um grau (o equivalente a duas vezes o diâmetro da Lua).

    Entre os dias dezassete de julho e vinte e quatro de agosto, poderemos ver cruzar o céu pequenos meteoros provenientes do cometa 109P/Swift-Tuttle. Se percorrermos os seus rastos em sentido contrário repararemos que todos eles parecerão surgir de uma parte do céu (o radiante) próximo à constelação de Perseu. Esta e a famosa chuva de estrelas Perseidas. Este ano, o pico de atividade das Perseidas tem lugar no dia doze. Os cálculos costumam apontar a que, durante o pico de atividade desta chuva de meteoros, se observe uma centena de meteoros por hora. No entanto estas contas assumem um céu completamente livre de poluição luminosa, e que o radiante da chuva de estrelas se encontre no ponto imediatamente acima das nossas cabeças (o zénite), algo que não chegará a ser o caso.

    No dia dezanove o planeta Mercúrio atingirá o ponto de maior elongação (afastamento relativamente ao Sol) para oeste, dando-nos assim mais tempo para o vermos antes do amanhecer. Na madrugada seguinte veremos a Lua nascer junto aos planetas Júpiter e Vénus, e um dia depois entre este e Mercúrio.

    Durante a Lua Nova de dia vinte e três não será possível observar o nosso satélite natural por estar na direção do Sol o qual por estes dias está junto à estrela Régulo da constelação do Leão. A seu turno, durante o anoitecer de dia vinte e seis já iremos encontrar a Lua ligeiramente abaixo do planeta Marte e da constelação da Virgem.

    Devido ao movimento de precessão da órbita lunar, a Lua só atingirá de novo o seu apogeu durante a tarde de dia vinte e nove. Por outro lado, devido ao movimento de translação terrestre, a Lua apenas voltará a atingir de novo a sua fase de quarto crescente quando estiver ao pé de Antares, a estrela gigante supergigante vermelha à cabeça da constelação do Escorpião, no último dia do mês.

    Boas observações!

    Fernando J.G. Pinheiro

  • Sempre o mar

    Sempre o mar

    António José Correia
    ex-autarca

    Em ano de centenário da Gazeta das Caldas, foi com muito orgulho que aceitei o honroso convite para contribuir mensalmente com uma crónica de opinião. Cresci entre o cheiro do mar e o pulsar da terra, e é desse lugar — entre o oceano e a comunidade — que partilharei reflexões sobre temas que me movem: o Oceano, o Mar, a Água, a náutica e o turismo náutico, os eventos e atividades ligadas a estes domínios, a literacia do oceano, …, sempre com foco no desenvolvimento local e regional, com sustentabilidade económica, ambiental e social, e na acessibilidade para todos.

    Estes artigos procurarão fazer pontes entre o quotidiano e os grandes desígnios nacionais, regionais e sub-regionais, inspirados em documentos estratégicos como a Estratégia Nacional para o Mar, a Estratégia Turismo 2035, a Visão Estratégica para a região Centro 2030 ou o Plano Estratégico 2030 do Oeste, de entre outros.

    Quero, ainda, com este espaço, partilhar informação, dar visibilidade a boas práticas e contribuir para uma cultura de mar mais sustentável e inclusiva.

    Todos os meses destacarei também notícias relevantes do período anterior.

    Ora, neste arranque, merece menção a recente divulgação, pela World Surf League (WSL), do calendário para o circuito mundial de surf profissional de 2026: Peniche e o Oeste voltam a receber uma etapa decisiva -a penúltima das 12 etapas -, desta vez entre 22 de outubro e 1 de novembro. Uma vitória para a região e para a afirmação de Portugal como potência atlântica europeia no desporto de ondas, que muito se deve à excecional articulação entre o Município de Peniche, a CIM Oeste e o Turismo de Portugal.

    A região recebe este evento desde 2009. Para se avaliar a sua importância, valerá a pena partilhar aqui alguns números do estudo de impacto socioeconómico da etapa de 2024, elaborado pelo ISEG – Lisbon School of Economics & Management:
    13M€ de Impacto direto nos consumos (com 4,5M€ para alojamento)
    6M€ Receita fiscal
    45,9M€ Retorno de media
    17,9M de seguidores em social media (Facebook -7,8M e Instagram 4,7M)

    Entretanto, estamos em pleno verão! É hora de aproveitar o nosso Mar, a nossa Lagoa de Óbidos, a nossa baía de S. Martinho do Porto, a nossa Reserva Natural das Berlengas, … Através do portal www.nauticalportugal.com poderão “mergulhar” na “Estação Náutica do Oeste” e ver a diversa oferta de serviços que a região dispõe: passeios de barco, canoagem, vela, remo, mergulho, windsurf, surf, … eu sei lá. Boas férias!

  • Não há história sem arquivos

    Não há história sem arquivos

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    Este foi o título do texto que escrevi para o livro de homenagem a João B. Serra, Tu fazes parte, editado este ano, pela Tinta-da-China. Retomo o tema porque, acima de tudo, o meu percurso tem sido sobre arquivos. Como eles se produzem, como vêm parar às nossas mãos – arquivistas, historiadores, autodidatas, cientistas sociais, interessados por carolice… -, como os acondicionamos, descrevemos, digitalizamos e, fundamentalmente, compreendemos, analisamos, divulgamos. Assim sendo, não era possível que a este amável convite da Gazeta – especialmente no ano do seu centenário – não fossem sobre arquivos (e um pouco de história) as minhas crónicas.

    Espero que não vos afaste com este imediato “ao que venho”, porque normalmente é assim que se reage a este assunto “chato”, que mete muitos papéis velhos e que, dizem, até queima as pestanas.

    E porquê falar de arquivos para as Caldas? Não podia ser mais urgente e oportuno! Não só para alertar agendas políticas, mas principalmente porque continuamos sem uma gestão sistemática da nossa memória histórica. E não foi por acaso que aqui referi o Professor João B. Serra, quero relembrar o seu esforço para a criação do arquivo histórico municipal.

    Se, como disse Victor Hugo, na edificação patrimonial “cada indivíduo traz a sua pedra”, para a história deste monumento – entenda-se arquivo – e das Caldas poderá ainda contribuir uma parte do espólio deste historiador, que o PH recebeu no passado mês de julho – a par com a Ephemera, já agora.

    Mas voltemos ao arquivo, cuja criação conhecemos através de documentação do PH e da obra Terra de Águas. Ainda que quem o procure hoje, provavelmente, não o encontre com facilidade, foi, de facto, nas décadas de 1980 e 1990, que a nossa memória histórica foi encontrada dispersa por vários edifícios, numa “confusão indescritível”, e começou a ser arquivada. A documentação mais antiga (excetuando o arquivo do Museu do Hospital e das Caldas) encontra-se hoje na Biblioteca Municipal e o seu tratamento inicial provém deste período, já longínquo, digo eu, nas minhas 3 décadas de vida. Mais do que o tratamento arquivístico conduzido, o facto de o Arquivo Histórico Municipal das Caldas da Rainha não ser (ainda) uma realidade, torna fundamental deixar nota da imprescindibilidade da constituição deste serviço público. Não podemos mudar a história. Mas podemos escrevê-la. (Serra, 2019) se, e quando, tivermos arquivos. Até porque, não se iludam, há muita História nas Caldas por fazer. Quem disser o contrário, está a mentir-vos!

  • Afinal o feminismo por onde anda

    Afinal o feminismo por onde anda

    José Luiz de Almeida Silva

    Alguém chamou a nossa atenção para a predominância do masculino nas listas eleitorais para as autárquicas na maioria dos concelhos da nossa região, especialmente nas forças dominantes, surgindo as candidatas aparentemente em posição para cumprir os mínimos da legislação sobre o género.

    Provavelmente os responsáveis por essas decisões não o tem feito expressamente para afirmar o domínio masculino, mas implicitamente decidem por simpatia, ou seja, porque encontram nos seus congéneres os melhores auxiliares para as potenciais políticas a desenvolver.

    E verificamos esta tendência nas listas para quase todos os órgãos executivos que se propõem para o próximo dia 12 de outubro, quando na maioria das restantes instituições públicas, a liderança, por razões crescentes de domínio de créditos académicos, o género feminino já é quase dominante e assume posições de destaque nesses órgãos, sem resistência do género contrário.

    A política e os partidos em Portugal, especialmente nos órgãos e regiões mais centrais, continuam a ter no nosso país dominância masculina, contando-se pelos dedos das mãos, o número de mulheres que ascenderam a cargos de liderança política.

    Mesmo nos ditos populistas também o género feminino está em minoria e aparece muitas vezes a secundar a liderança masculina. Toda esta reflexão ocorre quando nesta edição abordamos a saída em outubro da única presidente de junta de freguesia atualmente em funções no concelho, que liderou o Nadadouro, tendo mostrado eficácia, liderança, presença permanente e credibilidade.

    Dirão alguns que estas observações resultam de um viés de análise, mas visto à distância e meio século depois da Revolução de Abril, não pode deixar de nos interrogar para o que se passa na maioria dos municípios e freguesias da região.

  • Corrida dos Agricultores do Oeste-Concurso de Ganadarias

    Corrida dos Agricultores do Oeste-Concurso de Ganadarias

    Rui Lopes

    A 28 de Julho em Caldas da Rainha decorreu um bom concurso de ganadarias, com uma assistência numerosa e entusiasta. Para o êxito repartido por todos muito contribuíram os toiros irrepreensíveis na apresentação e a dar bom jogo. Abrilhantou bem a banda Comércio e Indústria de Caldas que executou uma composição do seu amestro em honra de Marco José.

    O eterno maestro João Moura começou algo aliviado mas o génio veio ao de cima e acabou com muito valor e grandes ferros, frente ao de Fontembro de 535Kg.

    Marco José despediu-se da sua terra em plano de triunfo com uma lide que chegou forte ao conclave com o eterno cavalo girassol em grande plano, perante um Veiga de 505Kg.
    Ana Batista espalhou classe e bom toureio com muito valor, na arena caldense, ante um poderoso Passanha de 560Kg (prémio de apresentação).

    O imponente Fernandes de Castro, 550Kg (igualmente merecedor de prémios) permitiu a Manuel Telles Bastos uma lide equilibrada e clássica de elevado quilate, das melhores de sempre em Caldas.

    Muito bem esteve também o jovem António Prates galvanizando a assistência frente a um Cunhal Patrício que não era fácil(prémio de bravura)mostrando estar pronto para todos os desafios.

    Paco Velásquez foi uma grata surpresa com muito mérito em crescendo perante um Prudêncio de 530Kg.

    O Real Grupo de Moura que deu sempre vantagens, pegou bem por intermédio do jovem João Ferreira que não complicou o que o toiro também não fez. Gonçalo Caeiro esteve bem com boa ajuda num toiro que empurrou com grande velocidade mais do que bateu. Mário Valente demonstrou grande precipitação e só pegou à 3ª a cesgo com ajudas carregadas.
    O Grupo de Caldas da Rainha que vinha duma participação de êxito total em Moura, esteve bem mostrando muita coesão e técnica, dando sempre vantagens aos toiros. Destaco a prestação em todos os toiros do rabejador de serviço Afonso Muñoz. Abriu bem o cabo Duarte Manoel muito bem perante o toiro mas escorregou a recuar e foi derrubado, voltou com toda a correção e calma concretizando bem. Uma vez mais Salvador Serrenho foi profeta na sua terra, muito calmo citou e fechou-se à barbela pleno de técnica e força suportando poderosos derrotes, bem ajudado, talvez a pega da noite. O muito jovem António Prôa foi para o seu segundo toiro como um veterano com muita técnica e calma citando bem com o toiro a parar a meio da viagem obrigando-o a citar de novo fechando-se muito bem.

  • Memórias XV

    Memórias XV

    Rosa Machado
    Técnica Superior de Biblioteca e Documentação

    Termina hoje a minha coluna neste jornal; foi uma experiência muito positiva, não só pelo acto da partilha, essencial, mas como também porque me fez pesquisar/aprender mais alguma coisa, o que foi muito proveitoso.

    Assim sendo, o meu muito obrigada à Gazeta das Caldas, e a todos os que tiveram a paciência de ler os meus escritos.
    Relendo uns livros cá por casa, voltei a encontrar-me com uma figura pouco falada: Frei Miguel de Contreiras .

    Não encontro explicação para o facto de o seu nome (e de mais 4 companheiros de uma antiga confraria, da Piedade) não ser referido quando se fala da irmandade da Misericórdia de Lisboa.

    Mas de quem se trata?

    Frei Miguel de Contreiras foi um frade castelhano da Ordem da Santíssima Trindade, que terá chegado a Lisboa um ou dois anos antes de 1485. Foi afamado como pregador, mas mais apreciado pela bondade e caridade. Dizia-se que percorria as ruas da cidade para “acordar a caridade” e acudir os pobres e os indefesos e que ia sempre na companhia de um anão que tinha sob sua protecção e de um burro onde carregava as esmolas. Dada a sua fama chegou a confessor da rainha D. Leonor de Avis, esposa e prima de D. João II e irmã do seu sucessor, D. Manuel (ao enviuvar, em 1495, passou a ser apelidada de Rainha Velha). D. Leonor gozava de grande prestígio e o seu empenho com obras pias era proverbial, tendo por exemplo a fundação do Hospital das Caldas com instituição, na igreja, de uma confraria de caridade. E na senda da fama, Frei Miguel Contreiras terá influenciado a D. Leonor a criar a primeira misericórdia em Portugal, a Misericórdia de Lisboa – e da qual se considera ter sido o primeiro provedor.

    Uns dizem que ele nem existiu; outros que foi a alma pensante daquela nova Instituição, logo apoiada pela Rainha D. Leonor. Quem terá razão?

    15 de Agosto de 1498 a data da instituição da irmandade, nos claustros da Sé de Lisboa, na capela de Nossa Senhora da Piedade ou da Terra Solta, sendo confirmada pelo papa Alexandre VI e sob protecção real, não podendo nenhum ministro tomar-lhes contas. (Ordenação do reino, livro I, titulo XVI, e decreto de 13 de Janeiro de 1780).

    A Igreja da Conceição Velha é o que resta da primitiva Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia de Lisboa, destruída pelo grande terramoto.

  • O que é, o que pode ser uma cidade?

    O que é, o que pode ser uma cidade?

    José Ribeiro
    Professor de Políticas Públicas

    Neste último artigo para a GC, colaboração que muito nos honrou, retomamos para título uma questão colocada há um ano. Sabemos, sentimos e sonhamos que a nossa Pólis pode e deve ser muito mais. Mas sentimos em simultâneo uma ladainha nefanda e rendida, um endémico provincianismo que não nos larga (veja-se o discurso de alguns “novos” políticos a lamentarem que já não se inauguram “grandes” obras no 15 de maio como antigamente), um fado inescrutável que ecoa nas construções sem planeamento (aqueles prédios na praça da República, quem os plantou?), nas ruas desconchavadas(menos uma: na Rua da estação já se consegue respirar), nas casas devolutas, sobrelotadas ou abandonadas, por todo o concelho e nas pessoas sem rua para andar, para estar e muito menos para pedalar (as canhestras ciclovias pintadas nas faixas de rodagem são anedotário para caldenses vindouros que saberão o significado de mobilidade urbana, relembrando que estas criativas ciclovias foram iniciadas nos últimos meses do anterior executivo camarário). Uma cidade pode ser muito mais, a nossa tem tudo: identidade, património, e ainda fomos bafejados pelos deuses que nos concederam um clima que, à medida que se agudizam as alterações climáticas, se vai tornando mais precioso. O que nos falta? Não navegar à vista de pomposas inaugurações que dão ótimas selfies e stories nas redes sociais, mas que pouco acrescentam ao concelho.

    Urge desenvolver Políticas Públicas (PP) prospetivas e baseadas em evidências científicas, através de sistemas de apoio à decisão, ferramentas, sobretudo computacionais, que constituem modelos analíticos, criando interfaces entre gestores/formuladores de PP e os diversos stakeholders (perdoem o anglicismo), envolvendo desta forma todas as partes interessadas na formulação, implementação e avaliação das PP, i.e., gestão colaborativa, governança, cidadania fomentada pela administração pública.

    Mas antes de tudo é preciso definir que PP queremos, o que deve estar (ou não) na agenda, e neste ponto é essencial que percebamos o poder que todos/as temos enquanto Homo Politicus. Estabeleçamos as nossas prioridades comuns: O novo Hospital; a reabilitação dos pavilhões do parque; a desburocratização dos serviços públicos locais; um planeamento urbano de futuro que analise cenários, antecipando futuros possíveis, (re)construindo um concelho não para carros ou para o betão, mas para as pessoas, que proporcione qualidade de vida e conforto; reabilitação urbana e coesão territorial; investimento nos nossos atributos diferenciadores (só alguns: a praça da fruta; a cerâmica de autor; a literatura e o teatro; a agricultura; a ESAD…).

    Inovemos, mas acima de tudo, exijamos aos nossos representantes uma irrepreensível ética de virtudes, conforme definiu Aristóteles.

  • GC no centenário

    GC no centenário

    José Luiz de Almeida Silva

    Na semana passada publicámos um excelente suplemento dedicado ao centenário da vitória de José Tanganho numa inventada, para prestígio militar na época, de uma Volta a Portugal a Cavalo, numa antecipação das voltas a Portugal em Bicicleta que tanto levantavam e levantam o país.

    Já por ocasião das Festas da Cidade em maio 1981, com o apoio do município e de muitos comerciantes caldenses que entenderam o esforço, a Gazeta havia publicado um suplemento, pela primeira vez feito a cores e em off-set, tecnologia que revolucionaria a imprensa escrita e que tinha sido inaugurada na época.

    No mesmo, dedicado à inauguração do Pavilhão Gimnodesportivo, falávamos sobre a origem das Caldas, fundada pela Rainha D. Leonor, na preparação do seu V Centenário, na estadia nas Caldas do Papá Urso durante II Grande Guerra, da recuperação da Casa Amarela (Levi) e do Palácio Real, bem como da então criação da Região de Turismo do Oeste e da construção do Hotel Malhoa, como e especialmente, da sanha de José Tanganho, o “Herói do Povo”, como intitulávamos o artigo.

    Como já o transmitimos, para nós era indispensável e irrecusável, a criação de um “Marco Histórico” à proeza de José Tanganho no cemitério ou num ponto central da cidade, com as suas cinzas ou sem elas, do homenageado, para testemunhar um facto histórico hoje esquecido, de alguém do povo – um verdadeiro Zé Povinho – que levantou o “país povo” em uníssono num momento em que se iria cair depois numa letargia imposta pela ditadura de 28 de maio de 1926.

    Também nesta edição fazemos a transição entre os colunistas que semanalmente transmitem aos nossos leitores as suas reflexões sobre o momento e as circunstâncias que vivemos, iniciando outros a mesma missão. A uns e outros, e a todos os que antes já o fizeram generosamente também, os nossos sinceros agradecimentos.

  • Parabéns pelo esplêndido trabalho que foi feito na Rua da Estação!

    Um enorme, mega, grande Obrigada!

    No passado dia 28 de Junho ,2025 foram inauguradas duas obras. A ponte pedrestre por cima da estação de comboios, e a nova estrada de dois sentidos na rua da estação.
    Em Janeiro de 2025 apercebi-me pela primeira vez, que tal obra estava a ser feita.

    Por ter estado emigrada no estrangeiro durante doze anos, não tinha conhecimento prévio.
    Confesso que fiquei feliz ao ver ,que Caldas da Rainha teria muito em breve uma estrada nova, estacionamentos novos e condições para os ciclistas andarem em segurança.

    Fiquei ainda mais radiante quando vi que estava a ser construída uma nova ponte pedrestre, e que a “antiga ponte amarela” iria passar à história.

    Hoje fui pela primeira vez, fui ver a nova estrada. Fiz o percurso a pé, passei pela ponte em cima da estação. Fiz questão de sentir a obra.

    Ouvir os veículos a circular numa estrada nova, dá uma sensação de segurança .

    Que maravilha!

    A ponte está muito bem conseguida.
    Parabéns a todos aqueles que foram responsáveis pela ideia, e a todos aqueles que colocaram mãos-à-obra e realizaram o projeto.

    Obrigada por terem pensado na comunidade!

    Está tudo muito bem pensado!

    Elevador para os carrinhos de bebés, para as cadeiras de rodas, para aqueles que têm problemas de joelhos ou que andam de muletas.

    No fundo pensaram em todas as faixas etárias e todas as pessoas. Pensaram também em todos aqueles que viajam, e que arrastam as malas pela cidade.

    Obrigada também por terem pensado nos dias de chuva e vento!

    Ver a ponte coberta, deu-me imenso gosto !

    Há muito tempo que eu não via assim uma obra, tão completa, tão bonita, tão bem organizada, tão bem pensada, tão colorida, tão brilhante, tão fascinante.
    Toda esta obra, veio trazer uma nova cara às Caldas da Rainha!

    Dá gosto ser caldense, viver nas Caldas da Rainha e andar pelas Caldas da Rainha.

    Quero terminar e dizer apenas, a todos aqueles que trabalharam debaixo de chuva, no frio, no pó, no calor e na pressão de concluir esta obra … a vocês sim , um mega aplauso !

    Dina Guibá

  • A reserva natural local do Paul de Tornada comemorou esta semana o seu 16.º aniversário

    Todos conhecemos o Paul de Tornada. Ou melhor, todos os caldenses e a maioria dos destinos já ouviram falar do Paul de Tornada. Uma parte significativa já visitou este espaço, utilizando-o regularmente como local de passeio, contemplação e observação da vida selvagem no seu ambiente natural.

    O Paul é um verdadeiro santuário de biodiversidade, situado paredes-meias com uma zona habitacional e uma área industrial, a menos de 5 quilómetros da cidade das Caldas da Rainha. Esta coexistência deve-se à ação dedicada de duas associações ambientais – a Associação PATO (Associação de Defesa do Paul de Tornada) e o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) – bem como ao esforço incansável de muitos voluntários, que têm contribuído, ao longo dos anos, para a sua conservação e divulgação.
    Este trabalho teve início há quase 40 anos, com o estudo e a avaliação do potencial ecológico desta zona húmida, na ocasião bastante degradada. Desde então, foi possível restaurar, recuperar e renaturalizar a área, tornando-a ecologicamente equilibrada e criando habitats adequados para acolher uma grande diversidade de espécies que dependem das zonas húmidas para sobreviver. Graças a este esforço contínuo, o Paul de Tornada cumpre hoje plenamente o seu papel como refúgio, local de abrigo e reprodução para aves, mamíferos, anfíbios, peixes, insetos e outros invertebrados, além de albergar uma ampla variedade de plantas, cogumelos e incontáveis seres vivos microscópicos.
    Para além do interesse ecológico, o Paul de Tornada desempenha um papel essencial no ciclo da água e na regulação das cheias, prestando-nos assim um serviço direto pelo qual devemos ser gratos.

    O Paul de Tornada é a única área protegida do concelho das Caldas da Rainha, classificada como Reserva Natural Local do Paul de Tornada a 2 de Julho de 2009, através da publicação em Diário da República do Aviso nº 11724/2009. Este ato constituiu um marco fundamental para o futuro desta zona húmida, materializando o compromisso da autarquia e dos seus dirigentes com a gestão e conservação deste espaço, que hoje integra a Rede Nacional de Áreas Protegidas.

    Devemos orgulhar-nos e defender este património. O Paul de Tornada e a Reserva Natural Local que hoje celebramos são motivo de orgulho para todos nós, merecendo a nossa contínua atenção e cuidado. Ao protegê-los, estaremos a defender o nosso futuro e o das gerações vindouras.

    Com profundo pesar, termino este texto com uma referência e uma homenagem póstuma à pessoa que mais contribuiu para o sucesso deste processo: Maria da Conceição Martins, bióloga, professora universitária, cidadã empenhada e defensora incansável das causas ambientais. Realizou os primeiros estudos científicos sobre a ecologia do Paul de Tornada, foi fundadora da Associação PATO e sua presidente durante uma década, mantendo sempre uma ligação próxima à associação e ao Paul ao longo da sua vida. Foi também presidente do GEOTA, reconhecida e respeitada no seio do movimento ambientalista português. Durante toda a sua vida, lutou pela importância da Educação Ambiental e pelo seu papel transformador na alteração de comportamentos e na promoção de práticas mais sustentáveis e conscientes para com a vida selvagem, o planeta e o próprio ser humano.

    Privilegiou sempre o diálogo e a procura de consensos, atitude que muito contribuiu para aproximar dirigentes locais e população do Paul de Tornada, facilitando a sua classificação.
    Conceição Martins faleceu no passado dia 14 de maio, em Lisboa, vítima de doença prolongada. A Assembleia Municipal das Caldas da Rainha aprovou, por unanimidade, na última reunião, um voto de pesar. Honremos a sua memória e o seu legado.

    O nome desta ilustre cidadã ficará sempre associado à Reserva Natural Local do Paul de Tornada, que hoje homenageamos.

    Maria de Jesus Fernandes (cidadã caldense, bióloga, membro da Assembleia Municipal das Caldas da Rainha pelo VM)

  • Comparação versus Inspiração

    Comparação versus Inspiração

    Joaquim Sobreiro Duarte
    Facilitador de Aprendizagens e Coach Carreiras Profissionais e Liderança

    Escolher viver segundo os pilares do “Ocupa-te e Vive”
    Vivemos numa era de constante exposição à vida dos outros — redes sociais, notícias, vitrines digitais do sucesso. Somos constantemente convidados a comparar: o corpo, o percurso profissional, as relações, os bens materiais. Mas até que ponto a comparação nos serve? E se, em vez de compararmo-nos, optássemos por inspirarmo-nos?

    É aqui que entra o sistema “Ocupa-te e Vive”, com os seus cinco pilares transformadores: Observa-te, Liberta-te, Incorpora-te, Objetiva-te e Realiza-te.
    Comparar: o caminho da estagnação

    A comparação, quando feita de forma inconsciente ou constante, é um dos principais ladrões da autoestima. Olhamos para os outros com lentes distorcidas, esquecendo que aquilo que vemos é apenas uma parte — normalmente a mais polida — da história. Esta prática consome energia, paralisa decisões e alimenta crenças limitadoras como “não sou suficiente” ou “nunca vou chegar lá”.

    Inspirar-se: o motor do crescimento

    A inspiração, por outro lado, convida-nos a olhar para fora com admiração e, depois, voltar o olhar para dentro com intenção. Ser inspirado é reconhecer no outro possibilidades que também podem viver em nós. Não se trata de imitar, mas de permitir que o que vemos nos outros nos leve a agir em coerência com quem somos.
    Aplicar os 5 pilares do “Ocupa-te e Vive”

    1. Observa-te
    Antes de olhar para fora, é essencial olhar para dentro. A auto-observação permite perceber quando a comparação se instala e que emoções ela desencadeia. Pergunta-te: Estou a admirar ou a julgar? Isto serve-me ou limita-me? Só com esta consciência é possível mudar o foco.

    2. Liberta-te
    Liberta-te das expectativas alheias, da pressão de corresponder a padrões externos. A comparação muitas vezes surge da tentativa de cumprir um “ideal” que nem é nosso. Libertares-te é dar permissão para ser quem se é, e viver com autenticidade.

    3. Incorpora-te
    Este pilar convida-te a voltar ao corpo, à presença, ao agora. Estar conectado contigo mesmo impede que fiques preso em narrativas mentais de insuficiência. Quando incorporamos quem somos, com os nossos ritmos, limites e dons, tornamo-nos mais íntegros — e menos vulneráveis à comparação.

    4. Objetiva-te
    Estabelece objetivos baseados na tua verdade, não nas metas dos outros. O que te move genuinamente? O que queres construir? A inspiração pode ajudar-te a traçar o caminho, mas os passos devem ser definidos por ti, com clareza e intenção.

    5. Realiza-te
    Realizar-se é viver alinhado com o teu propósito. Não é atingir um ponto final, mas estar em processo, em movimento. Aqui, a inspiração pode ser combustível, enquanto a comparação perde espaço. Realizar-te é ocupar o teu lugar no mundo — único, legítimo e insubstituível.

    Do espelho ao farol

    Que possamos trocar os espelhos da comparação por faróis de inspiração. Que o que vemos nos outros nos lembre da nossa capacidade de crescer, criar e viver com significado. E que os cinco pilares do “Ocupa-te e Vive” sejam bússolas para esse caminho de regresso a nós mesmos.

    Nesta minha última crónica desta séria, agradeço a oportunidade e a confiança da Direção da Gazeta das Caldas, assim, como a paciência que os leitores tiveram comigo, agradeço também os inúmeros comentários que foi recebendo. Gratidão a todos de uma forma Simples Poderosa e muito Significativa!

  • O SNS é o melhor seguro de saúde

    O SNS é o melhor seguro de saúde

    Joana Louro
    médica

    Termina hoje a minha colaboração com a Gazeta. Não faço balanços. Compete aos leitores essa avaliação. Mas talvez tenha falado pouco do tema ao qual dedico parte significativa da minha vida e que defendo convictamente: O meu querido SNS.

    Talvez o meu silêncio seja o espelho de uma profunda tristeza pela forma como tem sido desvirtuado. Destruído. Talvez tenha sido a forma de me proteger – não isenta de cobardia – para não dizer o que não devo. Infelizmente (ainda) me acontece muito!

    Há uns anos atrás, depois do COVID, no extremo do cansaço e desilusão, estive quase a abandonar e a dedicar-me a uma carreira (bem atrativa!) na Medicina Privada. Desisti no ultimo instante. Até hoje pergunto-me se foi estupidez, burrice ou se serei sempre uma eterna sonhadora.

    Porque é que os médicos saem do SNS? Porque nenhuma relação sobrevive, mesmo com amor, sem respeito. Sem partilha e reciprocidade. Porque só se consegue dar quando também se recebe e não quando se esvazia, escraviza ou se destrói.

    No SNS a medicina ainda tem muito de missão. É o único sitio onde alguém com febre e falta de ar é atendido as 3h da manha, sem cartão de crédito, nem autorização da seguradora. A maioria dos hospitais privados não tem um verdadeiro serviço de urgência capaz de dar resposta a situações graves e complexas porque a urgência real é imprevisível e potencialmente dispendiosa, fora da logica do negócio que supõe episódios previsíveis e lucrativos. A privada funciona quando o SNS se aguenta. Se o SNS colapsar o privado será forçado a assumir um papel que não quer e para o qual não esta preparado. E vos gestores sabem disto!Não sou contra a Medicina Privada! Nem a medicina privada é o inimigo. Funciona segundo regras de mercado muito claras e com objetivos definidos: ter lucro! O erro é acreditar-se que pode substituir o SNS. Não pode! A saúde não é liberalizável.

    Se o SNS colapsar o custo da saúde torna-se insuportável, mesmo os ricos teriam dificuldade em pagar… a classe media seria impensável. Os seguros disparam, os doentes crónicos, complexos são excluídos, os idosos descartados.

    Quanto custa? Um idoso que precisa de cuidados paliativos? Um doente com cancro que precisa de quimioterapia, imunoterapia de elevado custo? Um AVC que precisa de reabilitar? Um filho que tem uma doença rara? Tantas milhares de situações que não cabem numa tabela excel, num relatório de contas.

    O SNS é o melhor seguro de saúde que os portugueses têm. Mesmo os que não o querem e não o usam de forma rotineira, porque não precisam, porque podem pagar, porque têm dinheiro. Porque o SNS representa segurança! IE isso não tem preço. Quando tudo falha, o SNS existe: a intubar, ventilar, reanimar, tratar, paliar. Virtualmente de borla. Para todos!
    É ilusório pensar que o SNS sobreviverá sem médicos, sem investimento, sem respeito.
    No dia em que SNS deixar de existir será o dia em que todos vão perceber que sempre precisaram dele. A saúde é mesmo a nossa maior riqueza.

  • Festas e Festivais

    Festas e Festivais

    José Luiz de Almeida Silva

    Neste período de Verão, o país é atravessado por uma infinidade de Festas & Festivais, cada um mais atrativo que o outro, numa economia criativa, que movimenta milhões de Euros e que cria atividade popular e associativa um pouco por todas as regiões, mesmo nas terras mais recônditas onde parte o ano se vive em solitária situação. É o fenómeno que devia ser estudado e interpretado, uma vez que demonstra energias desconhecidas ou escondidas, que canalizadas para fins sociais – quando o não são já – mostra o quanto o povo mais anónimo tem de potencial para melhorar a vida e o bem-estar dos seus concidadãos.

    Este fenómeno, que encontra pelo mundo fora idênticas manifestações recreativas, desportivas ou culturais, algumas com uma dimensão muito maior e atraindo milhares de pessoas, nalguns casos milhões (baseadas nas crenças religiosas como em fenómenos populares ligados à época do ano ou a profissões e hábitos ancestrais), são também a motivação turística mais ou menos genuína ou erudita. Só que uma oferta tão vasta e extensa, muitas vezes repetitiva, esconde particularidades que deviam ser potenciadas e que dariam diversidade e riqueza cultural, que podiam criar procuras qualificadas e específicas, dando maior valor ao trabalho generoso das populações envolvidas.

    Hoje com a proliferação dos meios propostos pelas redes sociais a organização destas ofertas devia ser mais criteriosa e inovadora, com a apresentação dos aspetos mais particulares e criativos de cada uma, atraindo clientelas mais exigentes e que possam recompensar melhor este trabalho comunitário mais genuíno.

    Não basta fazer. É necessário propor uma oferta mais criteriosa, que evite o desperdício do esforço e dos recursos e recompense melhor quem os organiza. Não basta fazer por fazer, é necessário dar-lhe um sentido e fazer com retorno devido.

  • Melhor fórmula para a perda de peso

    Melhor fórmula para a perda de peso

    Vítor Ilharco
    Personal Trainer

    A perda de peso é um tema recorrente e, muitas vezes, mal compreendido. Num mundo que valoriza resultados rápidos, é importante reforçar que não existem caminhos fáceis, mas sim mudanças sustentadas no estilo de vida. A perda de peso é um processo multifatorial, no qual entram em jogo a alimentação, o sono, a atividade física, o stress, o ambiente social e até fatores genéticos.

    Nos últimos tempos, medicamentos como o Ozempic (semaglutida), inicialmente desenvolvidos para o tratamento da diabetes tipo 2, ganharam popularidade por induzirem a perda de peso. Estes medicamentos atuam principalmente através da redução do apetite e da regulação dos níveis de açúcar no sangue. De facto, os resultados iniciais são evidentes, provocando uma perda de peso relativamente rápida. No entanto, os estudos mostram que, após a interrupção do tratamento, a maioria das pessoas volta a ganhar peso, sendo frequente um aumento relevante ainda no primeiro ano. Isso mostra que, sem uma mudança de comportamento e de hábitos, os resultados não se mantêm.

    Apesar de não ser a mais tentadora, a boa e velha fórmula continua a ser a mais recomendada: ter hábitos de vida saudáveis. Quanto ao treino, há evidência científica a suportar os benefícios do treino de força, do treino cardiovascular, do Pilates, da dança ou do treino intervalado de alta intensidade na perda de peso. Então, qual é o melhor? Sabendo que a motivação melhora com o prazer e que, com ela, surgem a regularidade e a intensidade — dois fatores cruciais para aumentar o débito energético —, escolher uma atividade de que se goste será sempre a melhor opção.

    Por outro lado, treinar mais vezes e com maior intensidade não compensa uma alimentação desajustada. A alimentação é decisiva e deve estar alinhada com os objetivos. Comer com qualidade, respeitar a saciedade e evitar excessos são pilares fundamentais para criar um défice calórico saudável e sustentável.

    Em resumo, perder peso exige compromisso, paciência e consistência. Não se trata de encontrar o suplemento ou o plano ideal, mas de criar um estilo de vida que se possa manter ao longo do tempo. E é essa mudança, enraizada no dia a dia, que faz a diferença.

  • Empreendemos juntos

    Empreendemos juntos

    Rui Vieira
    Gestor

    Vivemos tempos onde empreender muitas vezes se confunde com várias corridas de 100 metros. Correr para crescer, correr para faturar e pagar dívidas, correr para vencer, correr para almoçar rápido, correr para responder a todos os e-mails e mensagens das redes sociais. E se empreender não for uma corrida solitária, onde olhamos para o lado apenas para medir quem está à nossa frente?

    Acredito que empreender pode e deve ser um caminho partilhado. Feito de trocas, de apoio mútuo, de escuta e de verdade. Mas este caminho é feito de pedras e buracos, não dá para correr, ele tem que ser trilhado com calma, a calma necessária para não torcermos os pés. E é neste caminho que exatamente por não podermos correr, vamos encontrando pessoas incríveis à nossa volta. Sentamo-nos e conversamos, ouvimos e somos heróis uns dos outros, sem palcos nem posts para se fazerem likes e partilhas.

    O que nos move não é ter uma marca maior, mais famosa ou mais lucrativa do que a do nosso vizinho. O que nos move é saber que podemos envelhecer com tempo para jantar em família, com tempo para olhar nos olhos dos nossos filhos assim que chegamos a casa. O que realmente nos move é vivermos uns para os outros, é sermos como que uma árvore que dá fruto e quanto mais fruto der mais ela é feliz.

    O meu sonho é ver a nossa cidade crescer com ideias diferentes, histórias diferentes mas uma vontade em comum, a vontade de fazer parte de algo que transforma. E transforma com sentido. Porque aqui, empreender é sobre criar valor e não sobre competir por atenção.

    “Todos podem ser grandes… porque todos podem servir.”
    Martin Luther King

    Servir a cidade. Servir uns aos outros. Servir com aquilo que sabemos fazer bem. Não se trata de romantismo, trata-se de um outro modo de fazer negócios, mais humano, mais consciente, mais presente. E a boa notícia é que ele já está a acontecer. Aqui, nas Caldas da Rainha.

    Vamos continuar a fazê-lo. Juntos.

  • Chega o dia da  última crónica

    Chega o dia da última crónica

    Sandra Santos
    Professora

    Chega o dia da última crónica. Há fases que se cumprem e espaços que se abrem para que sejam habitados por outros pensamentos.

    Durante este tempo em que escrevi para a Gazeta das Caldas, tive o privilégio de parar, de pensar e de transformar em palavras aquilo que muitas vezes nos escapa na pressa dos dias. Estes meses foram uma espécie de gesto de presença, uma forma de parar o tempo e de dar sentido aos temas que me são mais próximos, esperando que alguma ideia, algum sentimento passado para palavra pudesse encontrar um recetor que o acolhesse. Há palavras que, sem se imporem, permanecem. Não por serem extraordinárias, mas porque tocaram em algo comum, familiar, íntimo. E é isso que mais me importa: saber que, algures, alguém se reviu no que leu. Que pensou um pouco mais. Que sentiu que não estava sozinho no que pensava ou sentia.

    Agora, com o verão à porta, talvez seja tempo de dar lugar a outras formas de escrita menos formais, mais leves, feitas com os pés descalços, com o olhar demorado sobre um livro esquecido, ou com o silêncio bom das manhãs sem pressa.

    Há uma escrita que não se publica, mas que se vive: nos detalhes, nos encontros, nos momentos que não precisam de legenda.

    Escrever neste espaço foi um exercício de disciplina e liberdade. De escuta interior e atenção ao mundo. Termino este ciclo com leveza e gratidão.

    As crónicas fazem pausa. As ideias, essas, continuam.

  • Recursos endógenos e sustentabilidade

    Recursos endógenos e sustentabilidade

    José Luiz de Almeida Silva

    Há seis décadas, mais concretamente em agosto de 1962, a Gazeta inseria a notícia da publicação de um importante estudo realizado “a expensas da Fundação Calouste Gulbenkian” realizado pelo Centro de Estudos de Economia Agrária da Universidade de Lisboa, “segundo processos científicos, da região constituída pelos concelhos de Caldas, Alcobaça, Nazaré, Óbidos e Peniche e habitada por cerca de 130 mil almas”.

    “Para nós, caldenses, contém dados muito lisonjeiros de entre os quais avulta o de ser as Caldas um dos poucos meios sociais do país que constitui centro de atração de estranhos os quais demandam em grande número a fixação de residência”.

    Nesse estudo dirigido por Carlos Silva, Alberto Alarcão e Lopes Cardoso, com mais de 800 páginas, como se referia na época, caraterizava a região a “Oeste da Serra dos Candeeiros” pelas suas caraterísticas físicas, geológicas, produtivas, demográficas, sociais, institucionais e técnicas, no espaço do que chamavam o “vale tifónico e plataforma costeira” limitada pelos maciços de Porto de Mós e serra de Sintra.

    Quando, no momento atual, se falam dos picos de mortes no país e no mundo resultantes das ondas repentinas de calor provocadas pelas alterações climáticas, verificamos que esta caraterística tem poupado mais a população desta região do Oeste, permitindo também a existência de produções endógenas, ou seja, caraterísticas localmente, que nos distinguem de outras regiões.

    É evidente que esta situação não atrai o turismo de massa que procura Sol e praia exclusivamente, mas provavelmente é a razão de outro turismo menos sazonal e mais estável, que permite a instalação de forma duradoura de turistas nacionais e estrangeiros que fogem à crescente agressividade climática.

    Estaremos nós cientes destes factos e vantagens naturais resultantes destas caraterísticas morfológicas que deveremos zelar e promover? ■

  • The new immigration bill: the four measures that may change everything

    The new immigration bill: the four measures that may change everything

    Flavia L. Lamattina

    On June 23, 2025, the Portuguese Government approved a legislative package consisting of four measures that might profoundly reform the country’s immigration, nationality, and border control policies. The proposals, approved in the Council of Ministers, aim to tighten the requirements for entry, residence, and integration of immigrants in Portugal, and will now proceed to debate and vote in Parliament.

    Among the main changes is the revision of the Nationality Law. The minimum period of legal residence required to apply for Portuguese citizenship has been increased from five to ten years for most foreigners, and from five to seven years for citizens of CPLP countries (Community of Portuguese Language Countries). This period is now counted from the issuance of the residence permit.

    In addition, a formal examination will be required to demonstrate sufficient knowledge of the Portuguese language, culture, fundamental rights and duties, and the political structure of the country. Naturalization will no longer be granted to individuals who have been convicted of prison sentences. Those who have already acquired Portuguese citizenship may lose it if they commit serious crimes such as homicide, rape, or crimes against the State, provided that the penalty is imposed by a court.

    There are also changes regarding citizenship by birth. For a baby born on Portuguese soil to acquire nationality, the parents must have been legally residing in the country for at least three years. Even then, citizenship will not be granted automatically — the parents must formally request it.

    Another significant change is the elimination of the extraordinary naturalization regime for Sephardic Jews, and the restriction of citizenship by descent to a maximum of great-grandchildren.

    The Government also announced the creation of a new national unit for immigration and border control within the PSP (Public Security Police), taking over responsibilities previously held by the now-defunct SEF (Foreigners and Borders Service). This new unit will be responsible for controlling entry at borders, internal inspections, and enforcing removal orders for individuals sentenced for immigration infractions. According to the Minister of the Presidency, António Leitão Amaro, this measure meets Portugal’s need to “once again have an effective border police,” ensuring greater control over entry and residence.

    The new law will allow only highly qualified individuals to obtain temporary stay visas without existing employment contracts. The Government’s stated goal is to redirect migration flows to attract more skilled workers, promoting a transformation of the national economy based on knowledge and added value. In this context, a “talent department” will be created within AIMA (Agency for Integration, Migration and Asylum), and partnerships will be established with higher education institutions to facilitate the arrival of foreign professors and researchers.

    Family reunification rules have also been restricted. For an immigrant to bring family members to Portugal, they must have resided legally in the country for at least two years. Even so, the request will be limited to minor children. Spouses and other relatives will need to follow different legal processes to enter. Reunification will also be subject to proof of adequate housing, sufficient means of subsistence (without relying on social benefits), and compliance with integration measures, such as learning Portuguese and attending compulsory education.

    For CPLP nationals, the new rules maintain the waiver of the AIMA opinion but now require prior approval from the Coordination Unit for Borders and Foreigners (UCFE) of the Internal Security System. Furthermore, aspiring CPLP immigrants will no longer be able to request residence permits without first obtaining a specific consular visa.

    As a transitional measure, the Government announced that the deadline for the regularization of pending residence authorizations has been extended until October 15, 2025. AIMA is expected to open a portal to facilitate visa-renewal and documentation-update processes.

    According to António Leitão Amaro, these measures represent a “tightening of requirements” for immigrants, following what he described as “seven years of uncontrolled immigration.” At the same time, he assured that the reforms were developed based on constitutional principles and humanist values. The constitutionality of the new rule that allows for loss of nationality due to criminal conviction has been questioned, but the Government argues that it is a supplementary judicial sanction, not an automatic consequence — and thus complies with constitutional parameters.
    OICV is looking for writers for this feature! Contact us at OICV.email@gmail.com. ■

     

  • Fome de justiça

    Se somos o que comemos, como dizia Hipócrates, o que somos quando não temos o que comer? A fome – arquitetada e imposta – é a arma mais sádica do governo de Israel na sua campanha de extermínio dos palestinianos. Em 20 meses, ataques incessantes de uma das forças armadas mais poderosas do planeta, e potência nuclear, contra civis encarcerados já eliminou centenas de milhares de pessoas. Ao continuar a negar acesso à comida e à água, submete homens, mulheres, crianças e bebês a uma morte lenta, com requintes de crueldade. Isso, quando não fuzila aqueles que, desesperados, teimam em buscar alimentos.

    Além do bloqueio, Israel conduz uma política de terra arrasada – transforma também a área agrícola de Gaza em destroços, e avança pelas terras da Cisjordânia ocupada a arrancar árvores, queimar plantações, invadir. Devastador em todos os sentidos, principalmente tendo em conta que a Palestina é um país com raízes profundas na agricultura.
    Enquanto na terra ancestral o prato do dia é a fome forçada, proliferam nas redes sociais milhares de vídeos de culinária palestiniana. Parece dissonante mas é a diáspora reagindo, ciente de que um projeto colonizador etno-supremacista – como o sionismo – age em várias frentes. Uma das formas de apagar um povo é por meio da apropriação cultural. E a Antropologia ensina-nos que comida é cultura, é memória, é identidade.

    Em junho, três palestinianos receberam o James Beard Award 2025 – uma das premiações internacionais mais prestigiosas das artes culinárias. São eles: o influencer e cozinheiro comunitário de Gaza, Hamada Shoo, a escritora e jornalista Laila El-Haddad, e o escritor e poeta Mosab Abu Toha – os dois últimos radicados nos Estados Unidos.

    No discurso proferido na entrega do prêmio, El-Haddad disse que neste momento, “em que Israel usa a comida como arma de genocídio, cozinhar tornou-se mais do que memória e sobrevivência. É uma forma de afirmação da vida em si. Um ato de rebeldia”. O texto premiado tem como título “Uma cozinha sitiada”. O ensaio é uma homenagem à tia Um Hani, que a ensinou a cozinhar e que foi assassinada com os filhos em um bombardeio israelita, antes que tivesse tempo de passar à sobrinha uma receita da avó.

    Assim como os vídeos nas redes sociais, são muitos os novos livros de receitas palestinianas. É a forma como uma geração de chefs e escritores tenta barrar o apagamento e a apropriação cultural pelo colonizador invasor. Na contramão, nota-se um esforço de promoção de uma “culinária israelense” na cena da restauração internacional nas últimas décadas. Na maioria das vezes, reivindicam, como seus, pratos da culinária tradicional árabe. De países como Palestina, Líbano, Síria, Iêmen – não por acaso, todos na mira dos F-15 e F-35 de Israel.

    Em sua conta no Instagram, o chef palestiniano-londrino Sami Tamimi, que acaba de lançar o livro Boustany (Meu Jardim), reconhece ser difícil falar de comida face ao genocídio. Mas necessário.

    “Escrever sobre nossa comida é dizer: nós temos nomes, sabores, avós, oliveiras, especiarias, rituais. Nós temos alegria, profundidade e memória. E isto não desaparece, por mais que eles tentem… Nós temos que continuar a falar da Palestina… Nós levamos este legado adiante, em cada história, em cada prato, em cada página.”

    Se somos o que comemos, que seja servida justiça.

    Palestina Livre Caldas

  • Vamos Mudar; Vamos Continuar ou Vamos Voltar?

    Vamos Mudar; Vamos Continuar ou Vamos Voltar?

    José Ribeiro
    Professor de Políticas Públicas

    Nas autárquicas teremos o “Vamos Mudar” com uma novidade: o apoio do PS local, que não conseguiu contruir uma alternativa própria nos últimos 4 anos, enquanto o PSD (coligação AD) apresentou, sem surpresa, Hugo Oliveira, com a pseudonovidade de Fernando Costa encabeçar a lista para a AM. O mesmo anunciara (Gazeta das Caldas, agosto de 2024) que seria “candidato a candidato”, afirmando: “Já me ofereci ao PSD para ser candidato à Assembleia Municipal.”, na mesma entrevista referiu que caso não fosse o n.º 1 pelo PSD à AM concorreria com uma lista de independentes. Se foi este ocupar precoce do espaço político, o receio da lista independente ou verdadeira vontade de fazer regressar aquele que foi presidente da Câmara durante 27 anos, não sabemos, mas o PSD “convidou”, Fernando Costa “refletiu” e aceitou, parecendo que na verdade não deixou outra opção ao PSD. Realçamos ainda o jovem candidato da CDU, Duarte Raposo. Ao contrário do PS e PSD, a CDU não aparenta sofrer de dificuldades em revitalizar, rejuvenescer e encontrar pessoas com outras competências para além da habilidade para gerir o poder nas concelhias locais. No contexto atual, urge o PS e PSD reverem os processos democráticos internos e serem aliciantes para os eleitores mais jovens (que votaram maioritariamente no Chega nas últimas legislativas), é uma questão de sobrevivência, a experiência não é condição suficiente em política, condição bem mais central é a prospetiva e a proximidade à população, principalmente nas autárquicas. É sabido que foi Vítor Marques quem venceu em 2021, por pouco mais de 1300 votos, graças à competência demonstrada enquanto presidente de junta, mas principalmente pelo que é enquanto pessoa e cidadão: empático; disponível; afável e confiável. O seu bom nome bastará, a obra e os planos apresentados serão suficientes? Será convincente o trabalho desenvolvido na reorganização da Câmara, como o da vereadora Conceição Henriques, que na área da cultura dirigiu uma mudança assinalável? O PS ainda vale os 2400 votos de 2021 (altura na qual o PS nacional estava há um ano da maioria absoluta de A. Costa)? O VM ganhou nas duas freguesias urbanos, só em Nª. Sr.ª. do Pópulo a diferença foi de mais de 2300 votos para o PSD. O maior desafio do VM será manter o ímpeto nas freguesias urbanas, alicerçado em Vítor Marques, mas com os mesmos nomes, é tal possível? Outros partidos poderão fazer a diferença, em particular o Chega. O PSD contrapõe com nomes do passado, que conhecendo bem o concelho e vivendo-o, querem regressar ao poder que sentem que lhes foi usurpado. Trará Hugo Oliveira verdadeira inovação, nas listas e no programa, ou voltaremos à praxis política dos aos 80 e 90? ■

  • MEMÓRIAS XIV

    MEMÓRIAS XIV

    Rosa Machado
    Técnica Superior de Biblioteca e Documentação

    Ainda noto uma certa confusão quando falamos de conventos ou mosteiros; eu própria, até há bem pouco tempo o fazia, e devo ao meu estimado amigo, Carlos Guardado da Silva, a explicação.

    Conventos, para as ordens mendicantes, mosteiros, para as monásticas.

    Nada tem a ver com estarem dentro ou fora da urbe; homens ou mulheres.

    A diferença está nos objectivos religiosos prosseguidos pelos seus ocupantes.

    Os frades ou freiras são religiosos que pertencem às ordens mendicantes (Franciscanos, Dominicanos, Agostinhos e Carmelitas), vivem em comunidade, e mantêm uma forte interacção com a sociedade que os envolve. O edifício assume a designação de convento.
    Os monges ou monjas são religiosos que vivem, por definição, em clausura, em isolamento, recolhidos em oração, pertencentes às ordens monásticas (cistercienses, beneditinos…), não saindo, teoricamente, do local onde residem. O edifício tem a designação de mosteiro.

    Curiosidades sobre algumas destas casas.

    O Mosteiro de Odivelas – Conta-se que andando o rei D. Dinis à caça num sítio chamado Belmonte, da freguesia de São Pedro de Pomares, distrito de Beja, se perdeu dos companheiros. Ao passar por uma fraga, saltou sobre ele um enorme urso que o derrubou do cavalo e estava sobre ele prestes a tirar-lhe a vida. Na sua aflição, D. Dinis pediu a São Luís, bispo de Tolosa (seu primo), ainda vivo, que o salvasse daquele perigo e prometeu construir um mosteiro para a Ordem de Cister, na sua quinta de Vale de Flores em Odivelas, se saísse dali com vida.

    O Santo apareceu-lhe e encorajou-o a puxar do punhal que trazia à cintura e a matar a fera. Cheio de ânimo, o monarca assim fez, livrando-se da morte. Cumprindo a sua promessa, no dia 27 de Fevereiro de 1295, veio com o Bispo de Lisboa, a Rainha e toda a Corte lançar a primeira pedra, estando também presente o Abade de Alcobaça. Este milagre está representado num dos pedestais da arca tumular, executada em vida do Rei.

    O cronista diz: «Livre o Rei do urso ficou com grande devoção a São Luís, a quem mandara fazer uma capela no Mosteiro de São Francisco de Beja. Outro favor recebeu El Rei do mesmo Santo na própria cidade de Beja, no exercício da caça de volataria, ressuscitando-lhe um falcão que El Rei estimava muito, por ser o principal instrumento de seu alívio.»
    Está incorrecto afirmarem que a construção da capela em Beja foi em agradecimento ao milagre do urso, quando o que o cronista diz, é que foi em resultado do milagre do falcão.
    O Mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas, foi mandado construir pela Rainha D. Leonor.

    Em 1958, a minha Mãe levou-me lá, para ver a Exposição sobre esta Rainha. Recordo um dos nossos “cicerones”, o Sr. Manuel Estevens, e as conversas entre eles: por ex. que o local original do túmulo da Senhora não é o que conhecemos nos nossos dias. Refiro que, ao longo dos anos, no Convento, hoje Museu do Azulejo, penaliza-me bastante que, em visita guiada e colocando a questão à guia, tenha obtido como resposta que o local do túmulo é o original. Ora esta!!

  • Zé Povinho ou Zé Povão?

    Zé Povinho ou Zé Povão?

    José Luiz de Almeida Silva

    Está patente no CCC, desde sábado, uma excelente exposição dedicada aos 150 anos da vida longa, rica, recheada e também trágica da figura criada por Bordalo Pinheiro em 1875 e que marcou a história de Portugal neste período.

    O responsável pela recolha e exibição desta história longa da principal figura da caricatura e cartoonismo nacional, conseguiu dar uma visão múltipla e bastante preenchida do que foi o Zé Povinho criada por Rafael e de todos os seus seguidores, provindos de todos os quadrantes, uma vez que o nosso Zé Povinho serviu para todos e a todos serviu.

    E é essa a principal virtude daquela apresentação muito singular, bem como do catálogo que lhe está associada, e que permite a cada um de nós, numa verdadeira autocrítica, conhecer os nossos concidadãos e a nós próprios, naquilo que somos e o que fazemos, tendo como alter-ego aquela figura tão simplória, como arrogante, tão fina como grosseira, tem delicada como indelicada, tão progressista como reacionária, tão altruísta como cínica.

    O verdadeiro Zé Povinho é aquele que vota à esquerda e à direita, que paga os impostos doridamente mas também admira como seu herói os que fogem aos impostos, o Zé é matreiro e ingénuo, queixa-se mas também é dissimulado, ou seja, é aquilo que o português tem de herói e de covarde, de sério e de mentiroso.Há sempre a possibilidade de escolher um lado do Zé Povinho e muitos ao longo deste século e meio o escolheram, algumas vezes como verdadeiro santo e exemplar, mas é desta contradição que todos nós temos vivido e temos construído este país, que naturalmente, podia ser mais cuidado e respeitador das regras e das normas, mas que tenta muitas vezes escapar-se a elas para atingir os seus fins mais interesseiros. Certamente será por isso que gostamos e valorizamos esta figura pitoresca que em todos cabe! E a exposição demonstra-o bem! Vale bem uma visita!

  • O meu filho está com pintinhas e no Infantário há a Doença  mão-pé-boca – O que é isso? 

    O meu filho está com pintinhas e no Infantário há a Doença  mão-pé-boca – O que é isso? 

    A Doença mão-pé-boca é causada por um vírus chamado Coxsackie da família do Enterovírus. Esta doença manifesta-se habitualmente entre os meses de Verão e Outono. É uma doença comum e normalmente de pouca gravidade podendo afetar crianças de todas as idades e até mesmo os adultos.
    Como ocorre a transmissão?
    Pode transmitir-se através do contacto com os fluidos corporais: saliva, secreções respiratórias (tosse), pelo líquido das lesões da pele ou através das fezes. Os sintomas começam 3-5 dias após o contacto.

    Quais os sintomas? 
    O sintoma mais característico desta doença são umas pequenas manchas vermelhas (máculas e pápulas) que depois evoluem para bolhas com líquido (vesículas) localizadas preferencialmente nos pés, mãos (incluindo palmas e plantas) e à volta da boca. Outras partes do corpo afetadas podem ser também nádegas, região genital, braços e pernas. Estas lesões geralmente não causam comichão, dor ou desconforto, embora em alguns casos, a criança se possa queixar destes sintomas associados.
    Podem também aparecer lesões na língua e interior da boca, como aftas que são habitualmente bastante dolorosas sendo frequente as crianças apresentarem alguma recusa alimentar, por dor ao mastigar e engolir os alimentos. Os bebés e crianças mais pequenas podem babar-se com mais frequência.
    A quantidade destas lesões e a sua distribuição pode variar em cada criança.
    Outros sintomas frequentes são:
    Febre – muitas vezes é o primeiro sintoma a surgir.
    Dor de garganta.
    Perda de apetite.
    Mal-estar.
    Irritabilidade em bebés e crianças mais novas.
    Após a primeira semana da doença, as unhas podem descolar (onicomadese), mas esta é uma condição reversível e as unhas voltam a crescer.
    Apesar de poder ser uma doença incomodativa, habitualmente não causa complicações. No entanto as lesões dentro da boca podem ser bastante dolorosas e em alguns casos podem levar à recusa alimentar total, nomeadamente de líquidos, o que pode levar à desidratação sendo esta a complicação mais comum.

    Como se diagnostica esta doença?
    O diagnóstico é feito principalmente com base nos sintomas e na história da doença, não sendo habitualmente necessário realizar quaisquer exames de diagnóstico.

    Como se trata esta doença? 
    Habitualmente as crianças recuperam completamente em 7 a 10 dias e, tal como em muitos outros vírus, não é necessário nenhum tratamento específico.
    Podemos e devemos aliviar o desconforto da criança:
    – Dar medicação para a febre e para a dor.
    – Medicação para a comichão.
    – Medicamentos tópicos disponíveis em gel ou spray bucal para aliviar o desconforto e facilitar a alimentação.
    –  Oferecer dieta mole e pouco condimentada.
    – Se necessário bebidas e dieta fria – o frio ajuda com a dor.
    Além destas medidas é essencial assegurar que são oferecidos líquidos em quantidade suficiente para manter um estado de hidratação adequado.

    O meu filho pode voltar a ter esta doença? 
    Esta doença não garante imunidade, ou seja, pode aparecer mais do que uma vez em cada criança.

    Como prevenir o contágio? 
    O vírus é mais contagioso na primeira semana de doença, mas pode ser eliminado nas fezes das crianças durante algumas semanas. A medida mais eficaz para a prevenção do contágio é lavar bem as mãos com água e sabão, especialmente depois da muda da fralda, de usar a casa de banho, espirrar ou tossir.
    Outras medidas:
    Evitar tocar nos olhos, nariz e boca sem lavar primeiro as mãos;
    Manter limpas e desinfetadas as superfícies, objetos e brinquedos tocados por crianças ou outras pessoas infetadas;
    Evitar partilha de objetos e contacto próximo desnecessário com pessoas infetadas.

    Quando é que o meu filho pode voltar à escola?
    Quando estiver sem febre há pelo menos 24h, bem-disposto e conseguir alimentar-se adequadamente.

    Inês Menezes ,
    Helena Machado Sousa,
    Vaneza Sichel,
    Carolina Oliveira,
    Madalena Sassetti

  • 40 anos de Portugal na União Europeia

    Sofia Sousa
    Representante da Comissão Europeia em Portugal

    Portugal era uma democracia no início, quando em 1977 seguiu para ‘Bruxelas’ o pedido formal de adesão. Acabado de sair de uma longa ditadura, o país dava os primeiros e por vezes difíceis passos em direção ao que viria a ser um sistema pluralista, multipartidário, assente numa economia social de mercado.

    A adesão de Portugal, nove anos depois, às então Comunidades Europeias consolidou os recém-criados pilares democráticos e teve um contributo decisivo na transformação do país, tornando-o na sociedade aberta e inclusiva que é hoje, assente no Estado de direito e na qual os cidadãos podem definir o destino e as opções de desenvolvimento do seu país.
    Esta efeméride é uma boa ocasião para falar sobre como a União Europeia foi essencial para transformar Portugal no país de hoje. Mas é também importante recordar como Portugal contribuiu para tornar a União Europeia mais plural, mais aberta e mais forte.
    Estar na Europa criou mais oportunidades para os portugueses e trouxe-lhes melhor qualidade de vida.

    Nestes 40 anos, a esperança de vida dos portugueses aumentou de 72,9 para 81,2 anos; o abandono escolar que era de 50% em 1990, é atualmente de 6,6%; o PIB per capita passou de 2.824 euros para 26.666 euros; o número de estudantes no ensino superior quase triplicou de 157.869, em 1990, para 448.235.

    Estar na União Europeia é fazer parte do espaço Schengen, o maior espaço de livre circulação do mundo, que garante viagens fáceis e fronteiras externas seguras. Que garante a possibilidade de residir, estudar ou trabalhar em qualquer país da União.

    Nos últimos 40 anos, a UE realizou progressos significativos em matéria de direitos sociais, proteção da saúde e do ambiente, gestão de resíduos, direitos dos consumidores e segurança dos alimentos, entre outros, ajudando a melhorar a qualidade global da vida das pessoas. Portugal não só beneficia destas normas mais elevadas, como também ajuda ativamente a moldá-las.

    A União Europeia tem sido um garante de estabilidade, num mundo marcado pela incerteza geopolítica e Portugal tem beneficiado dessa estabilidade.

    A Europa tornou possíveis alguns dos mais importantes investimentos efetuados em Portugal. A política de coesão tornou possível, por exemplo, que, já em 2021, Portugal alcançasse a meta europeia para 2030 relativa à participação das fontes renováveis na produção de energia. Portugal é aliás um exemplo entre os 27 Estados Membros.

    Foi a solidariedade europeia que se expressou na hora de responder à pandemia. No desenvolvimento, aquisição e distribuição de vacinas, mas também na resposta ao impacto económico, em que os fundos que dão corpo ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) corresponderam a mais de 8% do PIB nacional.

    Portugal, pelo seu lado, tem estado na linha da frente das grandes decisões europeias, afirmando-se como um parceiro fiável e construtivo, indispensável na construção de pontes entre parceiros europeus e além das fronteiras da União. A posição geostratégica de Portugal e a sua ligação com os continentes africano e americano abriu pontes com os países de língua portuguesa e fortaleceu a vertente marítima e a influência atlântica da União Europeia e Portugal foi também um dos países fundadores do euro e dos demais avanços deste projeto de integração e continuará a fazer sempre parte da solução. E foi na capital portuguesa que em dezembro 2007 assinámos o Tratado de Lisboa, uma etapa importante na consolidação do projeto europeu, tornando a União Europeia mais democrática e eficiente na tomada de decisões.
    A integração europeia tem sido um catalisador para o desenvolvimento democrático e socioeconómico de Portugal, enquanto a diversidade, riqueza cultural e participação ativa de Portugal nas decisões da UE também têm contribuído para o fortalecimento da União. A preservação dessas conquistas e o avanço contínuo dependem do esforço colaborativo entre os Estados-Membros e os próprios cidadãos.

    Há 40 anos a adesão de Portugal foi a expressão da dimensão europeia das mudanças económicas e sociais então em curso no Sul da Europa. A União Europeia de hoje é maior, mais diversa e mais profunda do que aquela a que aderimos em 1986. É a nossa casa que ajudámos a construir juntamente com os nossos parceiros, e as suas fundações são sólidas.

    Da mesma forma que a Europa cumpriu o seu destino ao acolher-nos no seu seio, hoje é nos Balcãs, na Moldávia e na Ucrânia que se joga o futuro da Europa e também de Portugal. Imperativo estratégico e histórico, sem dúvida, mas também moral, essas são as novas realidades que a Europa não pode ignorar sob pena de comprometer a sua segurança, mas também a sua coesão.

    Devemos olhar para os nossos próximos 40 anos de adesão com confiança, responsabilidade e ambição.

  • Onde é que o ativismo pelo ambiente e pelos direitos humanos (não se) cruzam?

    Onde é que o ativismo pelo ambiente e pelos direitos humanos (não se) cruzam?

    Filipa Silva
    Eng. Agrónoma – Consultora e Formadora

    O mundo vive acontecimentos de grande relevância, sendo de grande responsabilidade a seleção do tema sobre o qual decidimos escrever. Poderia escrever sobre vários temas, nomeadamente sobre esta Guerra que nos está diretamente ligada uma vez que o Governo português deu autorização para a utilização da Base das Lajes pelos EUA, mas não consigo mudar o foco da Palestina.

    Ainda aconteceu que um veleiro chamado Madleen com 12 ativistas de várias nacionalidades, incluindo uma eurodeputada francesa, tentou romper o bloqueio de ajuda humanitária a Gaza por mar, para entregar comida e medicamentos à população. Este não foi o primeiro barco a navegar com este objetivo, mas desta vez, figuras mais conhecidas participaram na missão, o que ajudou a atrair maior atenção internacional. Pediram que todas as pessoas os apoiassem e pressionassem os vários governos a protegê-los na sua missão e a apoiarem a abertura de um corredor humanitário. Após navegarem por alguns dias, o exército israelita interceptou o barco em águas internacionais. Os ativistas foram detidos e deportados. Entre eles encontrava-se Greta Thunberg, a famosa menina que com 16 anos foi convidada a discursar na ONU e no Fórum Económico Mundial, em Davos, que iniciou um movimento de Greves à escola pelo Clima à porta do Parlamento da Suécia. O seu compromisso viralizou num movimento internacional chamado Fridays for Future, levando milhares de jovens às ruas em diversos países a exigir ações concretas pelo clima aos seus governos para evitar a destruição do seu futuro.

    Greta tem sido questionada muitas vezes sobre o porquê de ter mudado o foco do seu ativismo: do climático para o da causa da Palestina e outras causas humanitárias e sociais. A resposta é óbvia. Trata-se de uma única luta interseccional pelos direitos humanos. Quem luta por uma justiça climática luta por uma justiça social, contra sistemas de opressão e destruição. Os ativistas climáticos preocupam-se com os ecossistemas, mas não apenas porque querem proteger as árvores e os animais, como infelizmente muitas vezes são vistos – lutam pela vida humana, pelas vidas que irão sofrer pelos desastres climáticos, pelas deslocações forçadas que irão ocorrer cada vez mais – já estão a acontecer em regiões totalmente secas onde não é possível produzir alimentos, e nas ilhas, que devido à subida do nível do mar estão inundadas deixando de ser habitáveis. Os ativistas e ambientalistas sabem que o planeta por cá ficará e a vida continuará, é a sobrevivência da espécie humana e o seu sofrimento que está em jogo, não é a do planeta. Agradeço a todos os ativistas pelo mundo que não param e não se conformam com a destruição do nosso planeta e da vida, incluindo da nossa espécie humana.

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