Category: Opinião

  • O lugar onde tudo começou

    O lugar onde tudo começou

    Nuno Francisco
    Diretor do Jornal do Fundão

    A longevidade de certas instituições é, por vezes, a única prova que necessitamos para atestar a sua relevância. Quando falamos de um jornal, então, esta asserção ganha outra dimensão. Porque os jornais regionais vivem nas e para as comunidades. Brotam de um chão comum, fortificam-se no compromisso e ganham asas na confiança que muitas gerações de leitores neles depositam.

    E é precisamente de confiança que devemos falar. Da confiança de tantas e de tantos que trouxeram a Gazeta das Caldas até este ponto. Felizmente para este histórico semanário – e infelizmente para muitos outros que não o alcançaram – entrou no clube restrito dos jornais centenários do país. É um estatuto que pode ostentar com orgulho, pois é sinónimo de que conseguiu manter um compromisso inquebrável com a sua comunidade, que se manteve relevante e que se prepara para continuar a levar avante os elevados valores de proximidade, que são muito mais do que fazer dos jornais meros repositórios da espuma dos dias.

    Não nos iludamos, porém: As tormentas estão aí e não há jornal que não balance em vagas incertas. Será demasiadamente exaustivo – e até aborrecido para o leitor – voltar a elencar todas as ameaças com que a imprensa está confrontada. Destas, ressalvo apenas duas: a migração para o digital, que é um caminho inevitável e que se vem percorrendo a custo. A custo, não porque tomemos as edições em papel como um dogma, mas porque essa migração acarreta a desestruturação do tradicional modelo de negócio que sustentava a imprensa livre. A maioria dos jornais, por via da expansão digital, até tem mais leitores atentos aos seus conteúdos, mas essa mais-valia não se traduz em mais receitas publicitárias; muito pelo contrário. A outra é a profusão de sites de “informação”, alguns deles alegadamente “jornalísticos” que pululam no universo digital e que não passam de ameaças mais ou menos descaradas ao rigor e à verdade, ao contraditório e à prevalência do facto sobre o boato e a mentira.

    Mas todos, mais cedo ou mais tarde, necessitaremos do conforto do rigor, da credibilidade e da seriedade no tratamento da informação. No fundo, do jornalismo. E será essa credibilidade que associamos a este centenário jornal que o continuará a mover por entre as gerações. Nesse tal mar revoltoso onde navegamos, há faróis e há portos de abrigo. E as comunidades sabem quais são e onde estão. É a confiança que trouxe a Gazeta das Caldas até aos cem aos e será a confiança que tantos continuam a depositar nela que a continuará a fazer navegar. No papel ou num qualquer ecrã.

    Do diretor de um jornal que está prestes a cumprir 80 anos, um forte e fraterno abraço a este irmão mais velho.

    Vemo-nos no futuro.

  • Cem anos da Gazeta das Caldas

    Cem anos da Gazeta das Caldas

    Filipe Alves
     Diretor do Diário de Notícias

    A Gazeta das Caldas está de parabéns e o Diário de Notícias associa-se às comemorações do seu centenário, com os mais sinceros parabéns e votos de que continue a servir os seus leitores e a sua região com o jornalismo de qualidade e de proximidade que a têm distinguido desde a sua fundação.

    A Gazeta das Caldas é a prova de que o jornalismo tem futuro, quando existe para servir a sua comunidade com informação que faz a diferença. Numa altura em que o sector atravessa múltiplos desafios, a existência de um órgão de comunicação com a presença, o papel e a relevância da Gazeta das Caldas dá-nos esperança em relação ao futuro da imprensa.

    O estatuto editorial da Gazeta das Caldas, publicado pela primeira vez em 1925, permanece muito atual. Em poucas linhas, diz tudo o que é realmente importante quando falamos de jornalismo, o que certamente ajuda a explicar a longevidade do vosso jornal. Destaco esta passagem:  “Livre, em absoluto, de toda a política de partidarismos, procurará servir os interesses da região, chamando a si todas as ideias, venham de onde vierem, que concorram para o seu progresso incessante. Não nos movem inimizades, não nos sacodem vaidosos desejos de grandeza. Estamos convencidos de que, com a nossa presença preenchemos uma lacuna”.

    Nestas palavras encontramos jornalismo em estado puro, que existe para produzir informação que faz a diferença nas vidas das pessoas, para que possam fazer escolhas informadas e esclarecidas, contribuindo assim para o progresso da sua região. Jornalismo que procura chegar o mais perto possível da Verdade e que vai ao encontro de uma necessidade real que existe em todas as sociedades humanas, de ser informado com objetividade e rigor.

    Jornalismo desta qualidade terá sempre futuro e desejo muito sucesso à Gazeta das Caldas, a toda a sua equipa e aos seus leitores.

  • “Esta história tem de ser contada”

    “Esta história tem de ser contada”

    David Pontes
    Diretor do jornal Público

    Em Maio, o jornal local South London Press (SLP) pôs um ponto final na sua história no ano em que fez 160 anos. Há 25 anos, vendia mais de 60 mil exemplares das suas duas edições semanais e era um dos melhores jornais locais de Inglaterra, cobrindo a vida de uma grande área da capital londrina. Como para os mais de 300 títulos de imprensa local de Inglaterra que desde 2005 fecharam portas, a vida foi ficando mais difícil para o SLP. O jornal tentou ampliar a área de cobertura, foi passando de mão em grupos de media e, no final, sobrevivia com as notícias fornecidas pelos repórteres locais da BBC e a aposta no acompanhamento dos clubes de futebol local.

    É mais um episódio da história amarga em que os jornais são notícia de uma crise sem remédio à vista. O SLP, como tantos outros, enfrentou o desafio da Internet, a perda de audiências, a substituição do jornalismo pelo post na rede social e, muito provavelmente, o deslassar dos laços da comunidade, que são a razão do serviço da imprensa local.

    Apesar do desafio lançado, ao convidarem-me para escrever nos 100 anos da Gazeta das Caldas, não tenho qualquer conselho para dar sobre como superar a crise da imprensa local que não tenha de dar a mim próprio enquanto director de um jornal nacional. Ter uma equipa de jornalistas entusiasmados por contar o que vêem pelo mundo, sabermos questionar o que vemos, procurando empregar os melhores meios para se ser relevante para os nossos leitores. São os princípios pelos quais vale a pena ser um jornal. Se a crise nos tirar isso, o caminho deixará de fazer sentido.

    Se isso não é fácil fazer por 35 anos, imaginem pelos 100 que leva a Gazeta das Caldas. E o problema da história amarga é que nos últimos anos se tornou muito mais difícil fazer. A Internet alterou tudo, e se nos deu meios inimagináveis no passado de contar histórias e de nos ligar aos leitores, o facto é que também retirou os meios para que as redacções consigam ser sustentáveis. Os jornais, muitos jornais, tentaram e tentam com as suas forças e com engenho reinventar-se, mas as forças a que se opõem são imensas.

    O jornalismo, na sua expressão nacional ou local, mantém inalterável o valor que tem para uma sociedade democrática. Não existe melhor meio, com as regras deontológicas e a procura do serviço público, para ajudar a encontrar as melhores forças para fazer comunidade, para ajudar o mundo a resolver-se. Mas a verdade é que não fomos capazes, até agora, de fazer uma sociedade melhor, que defenda o que deve ser o coração palpitante da conversa em sociedade.

    Nos seus 100 anos, a Gazeta das Caldas continua a ser a história que merece ser contada, porque tem histórias que têm de ser contadas. Que o possa fazer durante muitos mais anos.

  • “Jornalismo de proximidade, um antídoto contra o populismo”

    “Jornalismo de proximidade, um antídoto contra o populismo”

    Manuel Carvalho
    Ex-diretor e atual redactor principal do PÚBLICO

    Num passado não muito distante acreditava-se numa revolução benévola do jornalismo. Acreditava-se que a internet permitiria a nascença de uma nova categoria de mediadores, os “jornalistas-cidadãos”. Ninguém fora capaz de prever a dinâmica das redes sociais alimentadas por algoritmos que potenciam o discurso de ódio em detrimento da empatia com os outros, da emoção primitiva e irracional em desfavor da razão que determinava as regras da vida em comunidade. Essa esperança acabou e o jornalismo precisa de se redefinir. Precisa de determinar como pode assumir nestes tempos de tribalismo o seu tradicional papel de cimento do diálogo plural, da liberdade responsável de expressão, de ponte entre todas as diferenças de opinião, de debate aberto e livre em favor do interesse geral.

    Uma das mais eficazes receitas contra o avanço do populismo, da radicalização e das percepções transformadas em factos encontra-se na velha regra do jornalismo que recomenda a proximidade. Quanto mais perto se está do interesse ou das preocupações das pessoas, mais firme é a relação de confiança. Na vida pessoal ou de uma comunidade, a proximidade gera empatia, garante um maior espaço de tolerância e compreensão para com os outros, alicerça o diálogo franco e aberto. Na política, como no jornalismo, a proximidade cria mais facilmente canais pelos quais se consegue dar uma resposta mais credível ao principal problema dos nossos tempos: a perda de referenciais comuns, como a verdade sustentada em factos, o respeito pelo pluralismo e os direitos humanos, a crença que as diferenças de hábitos, doutrinas, raças ou identidades de género são uma riqueza que se consegue harmonizar no quadro de referências da democracia.

    É por isso que os jornais e os jornalistas fazem falta. Por muitos erros e pecados que tenham cometido, e cometeram-se muitos, é no jornalismo que se podem ainda encontrar as âncoras de um debate público livre e plural. Um debate baseado na procura da factualidade que implica o tratamento da informação, o contraditório e uma deontologia fiscalizada por um órgão de regulação e contemplada em leis da República. Não admira que os jornais e os jornalistas estejam na linha frente dos ataques do radicalismo populista. Entre a mentira tolerada das redes sociais potenciada pelos algoritmos e a obediência aos princípios consagrados na Constituição (democracia, estado de direito, direitos humanos, respeito pela liberdade religiosa), essas forças sabem o lugar dos jornais e dos jornalistas.

    Mas se esta verdade funciona como um princípio universal, ganha ainda mais pertinência no jornalismo local e regional. É no âmbito da sua audiência que se criam as células base da nossa vida em comunidade. É nos bairros, nas freguesias, nas cidades ou nas regiões que mais facilmente se contestam as mentiras das campanhas de desinformação. É aí que se podem preservar as raízes da cidadania que reconhecem a diversidade das pessoas e a diversidade do pensamento. Ou a crença que o estado de direito é a única fórmula que nos resta para garantir a liberdade, os direitos de personalidade ou a igualdade de todos perante a lei. Princípios e valores que, com todas as vicissitudes, tornam as sociedades europeias invejáveis. Sem um debate público livre e vigoroso nas comunidades locais, é impossível acreditar num debate público livre e vigoroso na comunidade nacional ou internacional.

    É por isso que a celebração do centenário do Gazeta das Caldas tem de ser um momento para se acreditar num caminho que nos permita preservar os valores da humanidade e da democracia hoje tão ameaçados. Um jornal que consegue atravessar um século da nossa vida colectiva, do estertor da Primeira República ao Estado Novo, do 25 de Abril à integração europeia, tem de ter em si todos os ingredientes para nos ajudar a compreender as ameaças dos novos tempos. Tem de dispor de uma relação de confiança com os seus leitores à prova de bala. Se resistiu assim tão longamente à todas as vicissitudes da História é porque foi entendido, geração após geração, como uma entidade voltada para o interesse da comunidade que serve.

    É por isso que esta celebração, sendo em primeiro lugar uma manifestação de gratidão e de festa a quem faz e quem lê o Gazeta das Caldas, é igualmente uma prova de força que sensibiliza todos os jornalistas. Um jornal define-se também como um acervo de memórias e nessas memórias podemos certamente encontrar outros momentos sombrios da nossa História e saber como foram enfrentados e vencidos.

    Muitos parabéns ao Gazeta das Caldas, a todos o que o fazem e a todos os que, lendo-o, lhe dão sentido e garantem a persistência. A festa da vossa comunidade, é uma festa para o jornalismo. E, sendo-o, é igualmente uma festa para todos os que acreditam que a democracia liberal é, apesar de todos os seus defeitos, o melhor regime político que a Humanidade foi capaz de criar até aos nossos dias.

  • “Imprensa local – O naufrágio anunciado”

    “Imprensa local – O naufrágio anunciado”

    Carlos Querido
    Diretor Convidado

    O triunfo da comunicação online acessível nos chatbots com tecnologia IA coincide com uma profunda crise da imprensa, associada à erosão da sua credibilidade, alimentada pelo apelo à desmediatização por parte dos movimentos populistas.

    A desconfiança está instalada.

    No seu estudo “Irrelevant and unloved: how the press lost its touch”, Rasmus Kleis Nielsen dá-nos conta de que metade do público teme que os meios de comunicação social estejam sujeitos a influências comerciais indevidas, acreditando, na mesma proporção, que os jornalistas manipulam os leitores e as audiências para servirem a agenda dos políticos.

    Longe vai o mito de que nos fala Manuel Carvalho no excelente texto que publicamos nesta edição: «acreditava-se que a internet permitiria o nascimento de uma nova categoria de mediadores, os “jornalistas-cidadãos”».

    Como refere o mesmo autor, «não se previa, no entanto, que a dinâmica das redes sociais alimentadas por algoritmos viesse potenciar «o discurso de ódio em detrimento da empatia com os outros, da emoção primitiva e irracional em desfavor da razão que determinava as regras da vida em comunidade».

    Sem o filtro da mediatização, instalou-se o ambiente propício a partidos e movimentos sociais populistas que apostam na «mentira tolerada das redes sociais potenciada pelos algoritmos».

    Certo é que a imprensa vai resvalando numa rampa descendente, da qual se avista o abismo, sem conseguir encontrar soluções que travem o seu declínio.
    Conclui-se num estudo da Revista Prospect, de março de 2025 (David Caswell e Mary Fitzgerald), que «no Reino Unido, mais de 320 títulos locais fecharam entre 2009 e 2019, uma vez que a sua receita publicitária caiu 70% nessa década.».
    Poderá a imprensa tradicional competir com a IA generativa?

    O cenário é trágico.

    Referem os autores citados que a X.AI, empresa irmã da X, utilizando o “assistente” Grok, produz avalanches de “informação” desde abril de 2024 com um serviço de notícias para subscritores – a “X Stories”- que lê continuamente cada novo post no X (quase 500 milhões por dia) para identificar histórias emergentes, criando em seguida uma narrativa escrita atualizada e um título para cada história.

    Como alerta Rodrigo Tavares (Expresso, 31.07.2025), o que a IA, nos traz «já não é a notícia no sentido clássico, mas uma construção informacional sob medida, ajustada ao seu histórico de leitura, ao seu vocabulário, à sua tolerância ao dissenso.».

    Em artigo do Público de 20.02.25, Pedro Esteves e Clara Barros Neto chegam à mesma conclusão: «Ao contrário de um jornal, que se apresenta igual para todos e tem por base o critério editorial de uma equipa, a inteligência artificial parece funcionar de uma forma aleatória, produzindo respostas distintas em momentos diferentes e para utilizadores diferentes.».

    A oferta a cada leitor de uma “narrativa” adequada ao estatuto que lhe é atribuído pelo famigerado algoritmo, destrói a “comunidade de leitores” que se identificam com o jornal que oferece a todos as mesmas notícias.

    E os jornais, para onde vão?

    E o cheiro a tinta fresca que nos manchava as mãos e que fazia da leitura do jornal um ritual imperdível?

    E o que será feito da memória da comunidade, que os jornais locais preservam como “arquivo vivo” em constante atualização, desempenhando um papel fundamental na promoção da identidade e da coesão social?

    Com a crise instalou-se a angústia no jornalismo.

    Anunciado o naufrágio, os jornais navegam à deriva, apostando na leitura online e na audição dos podcast, procurando novas formas de resistência.

    A Gazeta das Caldas navegou Cem Anos, resistindo a todas as tempestades sociais e políticas como refere o Presidente da República no texto com que nos honrou nesta edição.
    Urge procurar formas de continuar a navegar, contra os ventos e as marés da adversidade.
    Pilares da vida cívica, fatores de agregação e de identificação comunitária, há que encontrar soluções para o resgate dos jornais locais, promovendo a reflexão e o debate sobre as ameaças que pairam no horizonte sombrio, e sobre o desolador e irremediável vazio que fica quando um jornal local desaparece.

    A Gazeta das Caldas faz Cem Anos,

    Viva a Gazeta das Caldas!

  • Como um balanço de tempo longo

    Como um balanço de tempo longo

    José Luiz de Almeida Silva

    Diretor da Gazeta das Caldas

    Aquela noite em que subi as escadas do Sindicato dos Caixeiros, na rua de Jardim, em 9 de novembro de 1974, para uma reunião pública e aberta convocada no jornal, dias depois de chegar do estrangeiro, marcou o resto da minha vida até hoje. Este momento coincidiu também com a aprovação final dos Estatutos da Cooperativa Editorial Caldense que assumiu a responsabilidade formal e jurídica deste jornal.

    Até então havia colaborado na Gazeta com alguns textos amiúde e quase desconhecidamente, antes do 25 de abril por vezes com pseudónimo, e depois, com alguma frequência, em textos assinados. Dessa reunião sai integrado numa comissão de Direção com mais 4 pessoas, tendo já como diretor do jornal Adérito Amora, desde maio desse ano.

    Nunca mais tive uma semana indiferente, a não ser quando estive durante dois meses retido da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital da Universidade de Coimbra, depois de acidente sofrido na estrada de Alcobaça, quando ia entrevistar a Porto de Mós o industrial e deputado do PSD Silva Marques (militante antifascista antes do 25 de Abril e também refugiado em Paris, onde o conheci em 1973 e que fora Presidente da Câmara de Porto de Mós e Governador Civil de Leiria nos anos 70 pós 25 de abril pelo PSD), na campanha eleitoral de 1991.

    Foram dois meses inenanarráveis, seguidos de um período de mais alguns meses em recuperação de uma situação de coma induzido e real, que me marcaram bastante. Coube a João Bonifácio Serra substituir-me na direção da Gazeta neste difícil período.
    De 1975 e até hoje na titularidade deste jornal (sempre pro bono), com colaboração mais intensa ou menos de outros responsáveis no espaço editorial neste longo período, pude fazer, em paralelo, uma carreira profissional, académica e científica, nas Caldas e especialmente fora das Caldas, mesmo no estrangeiro, mantendo sempre uma ligação semanal ao projeto que hoje comemora o centenário.

    Foram 2.773 edições das 5.611 que o jornal comemora hoje, em equipa ou mais individualmente, em que tinha a responsabilidade do jornal, dos quais 2726 na sua direção editorial, perfazendo 48,5% das edições da Gazeta desde a sua fundação.

    Passou rápido este tempo longo, talvez demasiado longo, mas algumas das tentativas para a deixar, por razões profissionais e académicas, ou outras, se verificaram inviáveis ou difíceis de concretizar, tendo a situação permanecido, na última fase, com crescentes dificuldades idênticas às de toda a imprensa escrita nacional e mundial. O tempo estabelece regras e a coincidência com o centenário do jornal aconselha agora esta decisão.

    É altura de agradecer a todos, responsáveis pela Cooperativa e pelo jornal, outros colaboradores incansáveis na área técnica e administrativa, e especialmente aos jornalistas profissionais com que se passou a contar – desde a década de 90 -, e, essencialmente, aos seus leitores, anunciantes e colaboradores que nunca deixaram de confiar no projeto.
    Foram muitos os momentos passados, alguns de rara alegria e coincidência de vontades, outros naturalmente de viva polémica e dissensão com alguma parte deles, mas sempre respeitando as palavras sábias e justas da linha editorial resumida na afirmação: “Em termos jornalísticos respeitaremos os princípios deontológicos e de ética profissional, tanto dos jornalistas bem como o direito dos leitores a uma informação séria e objetiva.”
    A que se acrescenta o parágrafo anterior deste estatuto em que se diz: “Julgamos que o jornal será o lídimo representante do querer local e da afirmação dos princípios da Democracia representativa e da Liberdade de pensamento e de ação, num espírito de partilha e de solidariedade que dê as mesmas oportunidades a todos, independentemente da sua origem.”

    Não esquecendo também as palavras iniciais dos fundadores do jornal, agora comemorando os cem anos: “A Gazeta das Caldas, jornal regionalista que hoje inicia a sua publicação é, por assim dizer o porta-voz de todos os que amam esta região.”

    “Livre, em absoluto, de toda a política de partidarismos, procurará servir os interesses da região, chamando a si todas as ideias, venham de onde vierem, que concorram para o seu progresso incessante.

    Não nos movem inimizades, não nos sacodem vaidosos desejos de grandeza. Estamos convencidos de que, com a nossa presença preenchemos uma lacuna; e, assim, saudamos os habitantes das Caldas e sua região, com o desejo de trabalho fecundo e progresso contínuo.

    Eis ao que vimos. Eis para que aqui estamos.

    Que as desilusões nos não toquem a alma, e que nos encorajem os nossos ideais, todos aqueles que, desassombradamente, trabalhem para o bem comum.”

    Outro farão um balanço desta verdadeira odisseia, alguns dos quais a partilham já nesta edição as suas opiniões e darão testemunho para sempre da “missão” desempenhada pelo jornal ao longo de mais de 5600 edições e de 5217 semanas, em cem anos.

    Tenho imensa pena da situação difícil a que os jornais chegaram neste período – pós grandes transformações nas tecnologias e nos hábitos das pessoas -, que os levaram quase plenamente para o digital e à sociedade tecnológica pós moderna, em que o tempo pouco conta e as perceções cada vez mais dominam.

    Passámos num século de um período da sociedade fortemente analfabeta funcionalmente, em que grande parte das pessoas não havia frequentado a escola, para um tempo que a sociedade vive do bit e da imagem repentina, mesmo virtual, em que cada vez mais a inteligência artificial tem um peso determinante.

    Não será melhor nem pior em termos do tempo longo, uma vez que, como em cada momento, a sociedade se foi adaptando e pagando os custos, mas também beneficiando das inovações. Foi e sempre será assim, apesar de parecer que tudo se torna mais rápido na mudança e para pior. Mas a mudança é inevitável e às vezes má conselheira, mas em termos desse tempo longo, fará sempre parte da Civilização que pisamos no tempo em que vivemos.

    Finalmente só posso desejar muitos mais anos ao projeto, seja nesta fórmula ou noutra que seja inventada de acordo com os novos desafios que se apresentam. De qualquer forma fica um imenso espólio e testemunho histórico que será indispensável para conhecer este longo período da vida concreta desta comunidade a quem agradeço reconhecidamente ter podido participar em boa parte dela.

    Àqueles que me acompanharam neste longo período, e que deram o seu apoio mesmo criticamente, só tenho a deixar um reconhecido agradecimento. Foi um percurso duro mas ficou uma bela caminhada com que nos podemos orgulhar, mesmo de alguns momentos mais difíceis. A todos mais conhecidos e próximos, ou desconhecidos pessoalmente e mais distantes, mesmo aqueles que militantemente comigo discordaram, o meu obrigado.

    Referir alguns nomes em especial, cometeria a injustiça de esquecer outros. Todos saberão a quem me dirijo e será mais justo assim, mas todos foram importantes neste projeto de vida e projeto jornalístico em que bastantes se reviram e ainda se reveem.

  • Mensagem do Senhor Presidente da República

    Mensagem do Senhor Presidente da República

    Cem anos

    Marcelo Rebelo de Sousa
    Presidente da República Portuguesa

    Por definição, o editorial de uma publicação é da autoria do Diretor, pela simples mas evidente razão de que retrata a orientação editorial dessa publicação.

    Pode ser por ele ou ela delegado em membros da direção ou da redação. Sempre identificados com os valores e princípios a que obedece a mencionada orientação.

    Porque não há comunicação social sem uma pauta de valores e princípios retores da sua afirmação comunitária ao longo dessa missão cívica.

    Não obstante, o que importa é a honra que foi concedida ao Presidente da República Portuguesa de escrever umas linhas na edição comemorativa de cem anos de vida.

    Não sendo um editorial, representa sempre uma colaboração e o respetivo convite um gesto muito gentil.

    Cem anos significam que esta Casa testemunhou ainda o final da Primeira República nas Caldas da Rainha, em Portugal e no mundo.

    Viveu o caminho das esperanças do termo da Grande Guerra frustradas e mesmo destruídas pela ascensão das ditaduras e pelo galope para a Guerra de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.

    Sentiu no seu quotidiano a censura, a negação das liberdades e a imposição do pensamento único ou dominante.

    Teve de esperar décadas para ver o mundo assistir ao ruir da bipolarização mais aos ensaios de novos arranjos universais, multilaterais, bilaterais, unilaterais, com potências a cair e outras a emergir.

    Viveu os vários lances da integração europeia.

    Entre nós, testemunhou ocaso da ditadura, descolonização com termo de Império de cinco séculos, revolução, democratização por fases, inserção europeia.

    Pelo meio, contou como a rádio se juntou ao cinema e ambos foram submergidos pela televisão e a internet e as novas redes sociais aceleraram o tempo na existência das pessoas.

    Narrou como as Caldas e a região deram saltos demográficos, económicos e sociais. Mas também sofreram crises e tempos de compassos de espera.

    Tudo, com paciência, resistência, constância nos valores e princípios humanistas, éticos, cultores da liberdade e da democracia republicana, dentro do espaço possível, ou seja o espaço deixado pela ditadura, as recessões económicas, os sufocos de uma imprensa sem meios e de uma imprensa regional e local a desaparecer por permanente cerco das conjunturas adversas.

    Resistiu e fez um século.

    Coisa de sublinhar por quem andou nessa vida desde há sessenta anos.

    E de realçar como sinal de cultura liberal e democrática numa comunidade, que nunca regateou solidariedade, mesmo se com escassos recursos, a esta empreitada de vulto.
    Finalmente, a teimosia, quase obstinação, de quem nunca desistiu.

    Como o convidante para esta colaboração.

    Ele é um exemplo feliz de que fazer-se jornais e, com isso, lutar-se pelo bem comum que o mesmo é dizer o bem do povo, das pessoas, é uma paixão.

    Uma paixão que não morre

    Bendita paixão!

    Dela se faz o conhecimento, a liberdade, a democracia, o verdadeiro progresso e a mais duradoura felicidade dos povos e das nações.

  • Presidência da CMCR. Carta aberta aos Candidatos.

    Quem tem medo do Hospital Oeste Norte?
    Um hospital apropriado, eficiente e útil é aquele em que existe: uma estrutura arquitetónica adequada; instalações técnicas e equipamentos adequados; o número exato de profissionais e os recursos financeiros necessários, de forma que a garantia da prestação de cuidados de qualidade possa ser feita com um mínimo de demora, de risco e de dor para a Pessoa/Doente.
    Só assim, poderá ser garantida a eficiência do hospital; a segurança e o conforto das Pessoas/Doentes, que é a missão, objetivo e razão de ser de um hospital.
    Gerir um hospital com elevado nível de performance, de forma holística, humana e com dignidade é conseguir a alocação de todos os recursos disponíveis, através da aplicação da dialética do método, da técnica, do zelo, do bom senso e da arte.
    O fazer a acontecer na governação hospitalar tem de utilizar a teoria dos 5 porquês como base da tomada de decisão, conducente à resolução de problemas e não conformidades encontradas no processo de gestão.
    Em 2001, fui mentor do Hospital Oeste Norte (250 camas, a 25 minutos de 250 000 pessoas) Em 2008.08.28, uma Resolução do Conselho de Ministros aprovou a sua edificação. Na visita às Caldas da Rainha a Comissão Técnica, enviada pelo Ministério da Saúde, chumbou todas as localizações (terrenos ) propostos pela CMCR e CMA.
    O resultado da disputa da localização entre estes dois municípios está à vista. O Hospital Oeste Norte ficou na gaveta (há 24 anos). Hoje, o investimento será superior em mais 100 milhões de euros, relativamente a 2008.
    O estudo elaborado pela Universidade Nova de Lisboa defendeu a localização do Novo Hospital do Oeste no Bombarral.
    Os municípios de Caldas da Rainha, Óbidos e Rio Maior rejeitaram a localização proposta pelo estudo e apresentaram como alternativa de localização do Novo Hospital do Oeste, em terreno entre Caldas e Óbidos.
    Desde o ano 2020 que apresentei a minha proposta de 2 hospitais ( Twin Hospitals, em articulação, parceria e complementaridade (instalações, serviços e meios técnicos, altamente diferenciados) para o Oeste: Hospital Oeste Norte, Caldas da Rainha e Hospital Oeste Sul, Torres Vedras.
    Pela minha experiência e pela investigação feita ao longo de mais de 20 anos não consegui encontrar base na ciência de gestão e no planeamento hospitalar, para a edificação de um único hospital para todo o Oeste:
    Considerando, de forma compreensiva, todos os fatores e parâmetros base de tomada de decisão sobre a escolha de terrenos para a localização de um hospital, a localização Bombarral não cumpre, nem reúne os critérios definidos no documento publicado, em 2003, pela Direção- Geral das Construções Hospitalares “ Critérios de avaliação de Terrenos para Unidades Hospitalares ”.
    A localização Caldas/Óbidos, também por uma análise sistémica e holística não cumpre cabalmente critérios base exigíveis a um bom planeamento e programação hospitalar territorial, como o da justiça e equidade regional. Também fere a Constituição da República Portuguesa na alínea b) do n.º 3 do artigo do Art.º 64: “garantir uma eficiente e racional cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde”.
    A distância das populações, em tempo e acessibilidade de transportes; a dificuldade de fixar profissionais de saúde diferenciados (médicos, enfermeiros, técnicos de saúde e outros); os elevados custos financeiros e ambientais de deslocação de profissionais e Pessoas / Doentes); a insegurança da população destinatária e a falta de equidade regional e injustiça de cidadania, entre outros.
    O momento presente do SNS e nomeadamente na rede hospitalar, relativamente à dificuldade de captação e disponibilidade para ter prestadores médicos faz-me, nesta gestão de incerteza atual, nacional e internacional, defender a edificação de 2 hospitais, porque a atratividade deste tipo de profissionais é muito superior, pela desmotivação e excessivo incómodo, em km percorridos e tempo de deslocação para o local de trabalho.
    Assim, cumpre-me a missão de desafiar os Candidatos Presidência da CMCR a não terem medo de defender o Hospital Oeste Norte, sem complexos e a pensar na visão estratégica, politicamente e tecnicamente correta de trazer de volta todo o concelho de Alcobaça, por lógica da Comunidade Intermunicipal do Oeste, pela realidade e conhecimento de que o Hospital de Leiria está em sobrecarga na grande área abrangente que serve atualmente.
    “Tentar fazer o futuro é altamente arriscado. É menos arriscado, no entanto, do que tentar não o fazer “Peter Drucker.
    Este desafio que vos deixo …… Em nome de um Hospital de Proximidade, Moderno, Inteligente, Humano e Sustentável e sobretudo pelo respeito da Constituição da República Portuguesa e os Fregueses / Munícipes do Oeste.

    José Marques Mentor do Hospital Oeste Norte, em 2001; Administrador Hospitalar Aposentado; Provedor do Utente, ULSO

  • Imprensa regional e identidade local: Porque precisamos de jornais como a Gazeta?

    Imprensa regional e identidade local: Porque precisamos de jornais como a Gazeta?

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    Atualmente, tem-se falado muito em identidade. E, de facto, a identidade é algo que nos junta. É algo que nos ‘cola’ enquanto pessoas. Podemos ter, digo eu, diversos níveis de identidade. Podemos falar de uma identidade ocidental. Ou europeia. Ou portuguesa. Ou oestina. Ou caldense. Ou bairrista… À medida que vamos apertando a malha, vemos que a nossa identidade, apesar de única, vai-se alterando.

    Hoje, gostaria de falar daquela identidade mais local, que vai da nossa rua ao nosso bairro, passando pela nossa aldeia, vila ou cidade e, porventura, acabando na nossa região.

    Entendo que a imprensa regional é um espelho da comunidade e, como tal, identifica-se connosco. É uma espécie de instrumento de coesão territorial e cultural, que retrata os nossos quotidianos locais e dá visibilidade a histórias que os grandes media – aqueles que estão noutro grau de identidade – tendem a ignorar. A imprensa local e regional reforça, portanto, o sentimento de pertença. E, quando falo de imprensa, refiro-me a todos os meios: seja a rádio, a televisão, ou os meios digitais, que acabam por ser multimédia.

    Há estudos que indicam que os jornais locais ou regionais são mais confiáveis para os leitores do que os nacionais. Porquê? Porque a proximidade cria legitimidade. As pessoas conhecem os jornalistas, os temas e os protagonistas.

    Num tempo de algoritmos e de notícias, muitas vezes “copy-paste”, a imprensa regional começa a ter dificuldades em resistir a esta homogeneização informativa, onde o que é notícia é muito genérico, frequentemente distante e quase sempre adaptado ao simplismo e à superficialidade.

    É por isso que a imprensa local e regional é tão importante. Vejamos, por exemplo, os tempos que aí vêm, de eleições autárquicas. Se não fosse a imprensa local e regional, estariam cá os meios nacionais a fazer notícia dos programas e das ideias dos diversos candidatos, de todos os partidos e movimentos, nos diferentes concelhos da região? Estou em crer que não estariam.A imprensa local e regional, com a sua mediação, promove, por isso, a literacia cívica. Informa sobre as assembleias, sejam elas de freguesia, municipais ou da nossa coletividade. Fala das decisões dos nossos eleitos. Apresenta os projetos da comunidade. E, muitas vezes, é o único espaço de escrutínio local, com direito a contraditório.

    Apesar desta evidência, os órgãos de comunicação social locais e regionais enfrentam muitos desafios. Terão de se adaptar aos novos tempos, às novas linguagens, a novos públicos e a novas formas de gestão. Mas também cabe aos leitores, aos empresários, aos munícipes, aos cidadãos, fazer a sua parte. Se queremos manter parte da nossa identidade, não podemos deixar a imprensa local e regional cair.
    Basta imaginar o que seria a nossa região se não houvesse Gazeta das Caldas.
    Vá. Mãos à obra.

  • A educação ambiental para a sustentabilidade

    A educação ambiental para a sustentabilidade

    Teresa Lemos
    Coordenadora do GEOTA

    A educação ambiental para a sustentabilidade (EAS) é um processo de sensibilização, promoção de valores e de mudança de atitudes e comportamentos face ao ambiente. Este é um processo de aprendizagem ao longo da vida, comprometendo cada um de nós com um futuro sustentável, para que possamos atuar como cidadãos conscientes e pró-ativos perante as problemáticas ambientais atuais, usando os recursos de forma consciente, preservá-los e garantir que o crescimento de hoje não prejudica a vida das próximas gerações.

    A EAS não se destina apenas a crianças e jovens. Direciona-se também para as suas famílias e as comunidades em que se inserem e deverá ser integrada no currículo escolar de forma transversal, incentivando a participação ativa de toda a comunidade educativa. Como grandes impulsionadores da EAS destaca-se a atuação da Rede de Professores Coordenadores de Projetos de Educação Ambiental, fruto de um protocolo de cooperação entre os ministérios que tutelam a Educação e o Ambiente. Esses docentes em situação de mobilidade em Organizações Não Governamentais de Ambiente, como por ex. nas associações de defesa do Ambiente GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente e na Associação de Defesa do Paul de Tornada – PATO desempenham um papel fundamental na mobilização da comunidade educativa em torno de temas ambientais como resíduos, biodiversidade, conservação e alterações climáticas.

    Reconhecidos como importantes recursos dirigidos à EAS, os Equipamentos de Educação Ambiental (EqEA) oferecem um conjunto de programas e atividades, constituindo recursos complementares ao sistema educativo. O concelho de Caldas da Rainha dispõe de dois EqEA – O Centro Ecológico Educativo do Paul de Tornada, espaço interpretativo da Reserva Natural Local do Paul de Tornada, e o Centro Interpretativo para a Lagoa de Óbidos. Ambos os espaços são dotados de um Serviço Educativo destinado à comunidade escolar e ao público em geral e as suas atividades contam com os importantes contributos das duas professoras destacadas nas associações.

    Investir em educação ambiental é investir no futuro e num mundo mais sustentável. Participe e seja um agente transformador, mais consciente, crítico e participativo, construindo assim uma sociedade ambientalmente mais justa.

  • Ambiente

    Ambiente

    José Luiz de Almeida Silva

    Quando os problemas estão cada vez mais presentes e à nossa frente, confirmando em larga medidas cenários antecipados há algumas décadas, o mundo volta-se para soluções imediatas tomando decisões de curto prazo, esquecendo pensar o que vai chegar a médio prazo.

    A questão é que isto não acontece apenas no nosso retângulo à beira mar plantado, mas é uma tendência que nos chega diariamente, pior, a todos os instantes através das redes sociais e dos media globais, como se não houvesse amanhã e tudo terá de ser decidido hoje, com soluções que agradem a todos, mesmo que sejam inviáveis em próximos tempos.

    Vemos isso com toda a dramaticidade nas questões ambientais e das alterações climáticas, cujas consequências se medem no dia a dia, contabilizando milhares de vítimas em consequência direta dos “crimes” ecológicos que cometemos consciente ou mesmo inconscientemente, e que estão mais que identificados pelos cientistas.

    Vivemos nestes dias a semana europeia da mobilidade, o dia da Amazónia, Dia Internacional para a Prevenção de Desastres Naturais, o dia de defesa da fauna, o dia sem carros, eu sei lá que mais, como ao longo do ano comemoramos outros dias significativos.

    Mas perante tanta indiferença e irresponsabilidade não sei se tudo serve para a desculpabilização de todos nós, mais ou menos responsáveis.

    Vivemos mesmo uma feira de propósitos ingénuos ou cínicos, em que a ação dos outros nos desculpam, num suicídio coletivo, em que as vítimas vão caindo, pelas doenças, catástrofes climatéricas, pelas guerras indesculpáveis e sem sentido, sem ninguém assumir a responsabilidade, como se fossem as próprias vítimas os autores e fautores do seu destino.

    O debate global que assistimos na ONU é bem um sintoma disto tudo e que parece não ter qualquer sentido que resolva as questões mais urgentes quando não as mais profundas.

  • Deixou-nos o amigo Luís Filipe de Figueiredo

    Deixou-nos, há dias, o amigo Luís Filipe de Figueiredo.

    Faleceu, com 87 anos, s.e., em Faro, onde residia e exercia a profissão de advogado, Luís Filipe Rodrigues de Figueiredo. Caldense de naturalidade; sendo agrónomo, de primeira atividade, bancário e finalmente, decorridos alguns anos – cursando direito – foi jurista.

    Meu amigo pessoal, talvez o primeiro, casou com a sra. Dr.ª Inês, Professora do Colégio Ramalho Ortigão, com família na capital algarvia, onde possuía um estabelecimento hoteleiro. Mudou-se para lá e iniciou a sua nova e definitiva profissão – advogado.
    Raramente voltou à terra natal.

    Filantropo – organizou um conjunto de aulas noturnas no C C C – Conjunto Cénico Caldense, para que vários associados pudessem aceder ao 5.º ano liceal.

    Era filho de Filinto Elísio de Sousa Figueiredo: funcionário da Firma F. A. Caiado; poeta e escritor de méritos firmados – autor de textos e versos, para várias revistas teatrais de costumes locais, aí pela primeira metade do século passado.

    Face à sua importante intervenção na vida cultural local, a Câmara Municipal deliberou atribuir-lhe nome de rua. Porém, por desconhecimento dos executantes, na placa toponímica ficou gravado FILINTO ELÍSIO. Ora, não era este notável poeta árcade (de seu nome – P.e Francisco Manuel do Nascimento (1734-1819) que se pretendia homenagear – mas sim FILINTO DE FIGUEIREDO.

    Grato, pela publicação.

    Mário Tavares

  • Uma Agenda para unir as Caldas

    Uma Agenda para unir as Caldas

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    Não serei o único que pensa sobre esta questão, por isso decidi partilhá-la de forma mais vasta, escrevendo sobre ela. Desde já, esclareço que, irei basear-me no “Verão”, um período mais alargado — entre março e setembro — ainda que isso vá além do calendário oficial da estação. Também não me refiro ao clima nem à neblina habitual, mas sim à agitação da agenda de eventos na nossa cidade.

    Durante largos meses do ano, por diversas razões, a agenda cultural abranda e permite-nos hibernar no conforto dos nossos lares — algo que, para muitos, é benéfico; para outros, nem tanto. Porém, com o chegar do “Verão”, os dias começam a ganhar asteriscos no calendário e lembretes no telemóvel. Pelo menos no meu caso, a Agenda transforma-se numa explosão de cores e numa autêntica sopa de letras com eventos para viver.

    É extremamente positivo sentir o dinamismo que a nossa região alcança com o regresso do som das andorinhas e das árvores em flor. Tão positivo, que dou por mim a repetir frases como: “Tenho este evento, já não posso ir a esse”; ou “Gostava de ir, mas estarei noutra ação”. Mais frustrante é, ainda, quando surge um evento de grande interesse e, por ter sido anunciado horas antes, não é possível estar presente. É, a meu ver, uma oportunidade perdida — e evitável.

    As Caldas da Rainha é uma cidade embebida de espírito criativo, associativo e empreendedor. Por isso, acredito que faria todo o sentido existir uma Agenda Cultural Integrada — Física e digital — na qual criadores, coletvidades e instituições pudessem registar e reservar datas (mesmo que sobrepostas) para as suas atividades. Assim, os munícipes poderiam acompanhar os eventos futuros, selecionar aqueles que mais lhes interessam e planear a sua participação com antecedência. Seria uma plataforma simples, mas importante, para melhorar a articulação entre os promotores e o público.

    É claro que nem todos os eventos se dirigem às mesmas pessoas. Contudo, já vivi situações — como dinamizador e como espectador, em que gostaria de ter estado presente em diversos acontecimentos e em que, dada a sua sobreposição, fui forçado a escolher ou a dividir-me.

    As Caldas e as suas atividades são tão positivas que considero quase cruel o desconhecimento de muitas delas e, acima de tudo, a incompatibilidade de horários que impede a nossa participação em iniciativas verdadeiramente interessantes. Fica, pois, esta sugestão para reflexão — um passo em frente na valorização e na acessibilidade da nossa rica vida cultural.

  • As cidades e os sinais

    As cidades e os sinais

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Numa cidade, cada olhar descobre sempre algo novo — é essa a lição que Italo Calvino nos deixa em As Cidades Invisíveis. Penso nisso enquanto caminho pelas ruas: ler a cidade é um exercício interminável. Há sinais que gritam e sinais que murmuram, uns aparecem e desaparecem em segundos, outros ficam gravados durante anos. Cada marca, cada inscrição na parede, é um fragmento de um mapa maior que nunca se completa.

    Agora, em tempo de eleições, os sinais multiplicam-se. Por onde quer que se ande, os outdoors impõem-se: slogans, fotografias, promessas rápidas. As fachadas confundem-se com rostos impressos em cartaz; os cruzamentos transformam-se em palcos improvisados; os caminhos em corredores de propaganda. Mas, à medida que os cartazes se repetem, começam a perder nitidez. Tudo se mistura. Já não se vê a cidade em si — apenas um pano de fundo encoberto por este ruído visual que fala mais alto do que a voz quotidiana da própria cidade.

    É diante deste cenário saturado de mensagens que percebemos o papel essencial do serviço público. A imprensa investiga, questiona e desmonta a retórica, confrontando promessas com factos e revelando aquilo que muitas vezes se tenta esconder por trás do espetáculo visual. A escola forma leitores atentos e críticos, ensinando-nos a decifrar exageros, metáforas e silêncios, preparando cidadãos capazes de interpretar não apenas os cartazes, mas todo o tecido social e cultural que nos envolve. A cultura desloca o olhar, abrindo-nos novas formas de perceber a cidade — um mural que nos faz parar, uma peça que ironiza a política, uma intervenção artística inesperada que inscreve histórias que não cabem nos outdoors.

    O essencial não está na presença dos cartazes, mas na forma como os lemos — eu, nós, cidadãos atentos. Reconhecer o gesto político, notar o que se repete e o que se omite, distinguir a promessa do compromisso: é isso que nos torna intérpretes da cidade. No fundo, cada um de nós é como Marco Polo nas cidades de Calvino, tentando juntar peças dispersas para dar sentido ao que vê.

    E a cidade, penso, é mesmo um palimpsesto de mensagens sobrepostas. Estes cartazes hão de desaparecer, mas o olhar que construímos permanece. Ele não deve servir apenas para o dia do voto: é no quotidiano, no cuidado com os lugares, na escolha de onde e como queremos viver, que ganha força. Porque, como lembra Calvino, aprender a ler os sinais é também aprender a escolher — e escolher, afinal, é a forma mais profunda de habitar a cidade.

  • As Assembleias Municipais caldenses

    As Assembleias Municipais caldenses

    José Luiz de Almeida Silva

    Poucos se recordarão que a primeira Assembleia Municipal das Caldas da Rainha, na passada semana homenageada, foi instalada em Fevereiro de 1977 pelo próprio Governador Civil de Leiria, Rocha e Silva, que veio às Caldas dar posse aos seus 31 membros (16 eleitos e 15 em representação das então freguesias), já presidida interinamente pelo médico Costa e Silva, cabeça de lista do PPD/PSD. Nessa reunião a escolha de Costa e Silva, de quem guardamos uma saudade profunda, seria ratificada e seria ele ao longo de dois mandatos que daria estatuto a este órgão, entendendo-o “com uma função essencialmente crítica”, mas também no sentido de “incentivar e facilitar a execução de projetos, empreendimentos ou iniciativas capazes de valorizar a região”, prometendo “falar apenas o necessário, mas com clareza”.

    Ao longo destes 48 anos passaram por aquele órgão centenas de caldenses e dirigi-o quatro deles (o próprio Costa e Silva, Marcelo Morgado, Lalanda Ribeiro e Luís Ribeiro) que agora são homenageados com a respetiva fotografia, os quais tiveram uma relação com este jornal sempre positiva e cordata, o que contrastou favoravelmente com outros responsáveis nalguns casos, demonstrando que a democracia autárquica pode funcionar numa pequena comunidade de cerca de 50 mil habitantes.

    Era interessante fazer a história deste órgão, que vai muito para além das atas do mesmo, durante bastante tempo servindo para a reprodução burocrática do desenrolar dos seus trabalhos, pois permitirá perceber o papel e o protagonismo (e a responsabilidade) que muitos ou todos tiveram ao longo dos anos na vida da comunidade. Hoje somos o que somos também pelo facto de termos sido o que fomos.
    A História do Concelho e Cidade das Caldas da Rainha neste quase meio século também passou por aqui, quer por atos e decisões, como por esquecimentos e omissões. A Vida inexoravelmente é assim!

  • Regresso às aulas

    Regresso às aulas

    Lurdes Pequicho
    Educadora de Infância

    O ano letivo está a começar, a transição para o 1º e 2º ciclo deixa as crianças de nervos em franja, sentem-se ansiosos, nervosos, criam expectativas e até podem ter receio do que possa acontecer nas relações com os colegas e professores.

    Mas… quem será que fica mais ansioso e nervoso, serão as crianças ou os pais?

    Esses receios, essas expetativas, geralmente são transmitidas pelas outras pessoas em forma de preocupação, que a criança encaixa como sendo dela. Por exemplo, situações menos boas que aconteceram connosco ou com os irmãos mais velhos. Ou expetativas que criámos para nós e não alcançámos e agora queremos que os nossos filhos alcancem por nós. Essas frustrações são nossas, não as passemos para os nossos filhos, não os limitemos com os nossos medos e inseguranças.

    Por isso, no início deste ano letivo não assustemos as crianças com aquilo que pode acontecer de mal, falemos da nossa experiência ou de irmãos mais velhos. De acontecimentos positivos que vão acontecer: vai conhecer amigos, professores e auxiliares novos, vai aprender coisas novas. Vamos preparar este recomeço com pensamentos e uma atitude positiva. Mostremo-nos confiantes e seguros com a escola que escolhemos paro o nosso filho, para que também ele se sinta dessa forma.

    Naturalmente desafios vão aparecer, conflitos, birras, opiniões e ideias diferentes, mas cada coisa a seu tempo. Quando o seu filho mostrar sinais de que alguma coisa está a correr menos bem, é a sua oportunidade de o ajudar a crescer e a superar esses obstáculos.

    Uma forma de percebermos como as coisas estão a correr na escola, é esquecer aquela pergunta, da qual nunca obtemos uma resposta satisfatória: “Como correu a escola?” Ou correu “bem” porque não nos querem ouvir a fazer mais perguntas, ou correu “igual” para nos tirarem o chão e percebermos que a vontade de ir à escola é nula. Para evitarmos estas respostas, fazemos perguntas abertas, que fomentam o diálogo. Colocamos uma postura de curiosidade e mostramo-nos genuinamente disponíveis.

    Algumas perguntas para fazer:
    Com quem brincaste hoje?
    E brincaram a quê? Como se brinca?
    O que apendeste de novo hoje? (Peça para lhe explicar)
    Qual foi a aula que mais gostaste?
    O que aconteceu hoje que te deixou triste/feliz/zangado/preocupado? O que pensas em relação a isso?

    As respostas a estas perguntas vão ajudar-te a entender como corre o dia a dia do teu filho e assim conseguirás ajudá-lo de forma mais assertiva.

    Com Amor

  • Infortúnio

    Infortúnio

    José Luiz de Almeida Silva

    Lisboa viveu uma tragédia incomensurável para a sua imagem, que as 16 vítimas mortais, mais os feridos, ficam a testemunhar por alguns anos, até que sobrevenha o esquecimento natural para a maioria.

    Haverão muitas opiniões, técnicas e científicas, e outras mais de oportunidade e de oportunismo, mas ficará na memória que afinal um instrumento de promoção turística, usado intensivamente e cobrado ostensivamente, não tinha os cuidados de segurança exigidos para um uso tão frequente. Penso nas famílias atingidas pelo infortúnio, que podia ser qualquer uma das nossas.

    Apesar de me ter cruzado inúmeras vezes com aqueles elevadores, não chegará provavelmente à dezena as vezes que os utilizei em muitos anos, quer por antes não necessitar diretamente, quer por, nos últimos anos, o seu uso turístico ser tão intenso que afastava qualquer passante de o fazer.

    Com o acidente caiu o Carmo e a Trindade, como se costuma de dizer. Mas quem observa os céus de Lisboa vê atravessá-los minutos de seguida por aviões que sobrevoam a cidade, especialmente o seu coração urbano, em modo de aterragem ou de levantamento (apesar de ser mais raro neste caso).

    Apesar das medidas de segurança serem muito maiores e mais escortinadas que as dos elevadores públicos da cidade de Lisboa, contudo, como o azar ou o infortúnio às vezes espeitam, o mesmo poderá acontecer, como tem ocorrido noutros locais, raramente sobre cidades (que não são atravessadas assim), num dia inesperado.

    Nesse dia levantar-se-ão as acusações para todos aqueles, mais responsáveis ou menos, que ao longo das últimas décadas têm impedido ou dificultado a decisão de transferir o aeroporto de Lisboa para um local menos povoado. E aqueles que defendem a localização atual, por ser cómoda e mais barata, fugirão do escrutínio, esquecendo os seus argumentos e a sua incúria.

  • Ter um propósito!

    Ter um propósito!

    António José Correia
    ex-autarca

    Há dias passou pelas nossas águas um sueco, Jonas Böhlmark, em stand up paddle. Vem dos países nórdicos, vive com bipolaridade e encontrou nos desafios extremos a forma de ultrapassar a sua condição. A Gazeta das Caldas deu destaque à sua aventura: pagaiar da Noruega até Gibraltar. Quando por aqui passou, rumo a sul, já levava mais de mil dias no mar…

    A comunidade de Peniche, tal como a da Ericeira, acolheu-o. E Jonas, por iniciativa própria, com o apoio do município de Mafra e do Ericeira Surf Clube, deu uma conferência, em que estive presente e de onde destaco três mensagens. Primeiro, o acolhimento e a solidariedade que tem sentido, em particular, ao longo da costa portuguesa: “a humanidade é muito melhor do que aquilo que os media e as redes sociais fazem crer”. Segundo, o facto de nunca se sentir só no mar, na natureza, ao contrário de vezes em que, por exemplo, num café cheio de gente, a solidão pesa. Terceiro, a mensagem mais forte: qualquer que seja o desafio, qualquer que seja a nossa condição, é essencial ter um propósito. Só com propósitos fortes vamos longe.

    Este testemunho é um bom mote para outra reflexão. Passaram recentemente quase despercebidos na comunicação social os Campeonatos Mundiais de Canoagem, onde atletas portugueses conquistaram medalhas, nomeadamente, de ouro. Todos celebramos os pódios, exultamos o orgulho nacional, mas logo depois os apoios escasseiam. Ainda esta semana, um clube do norte do país, que até tinha objetivos para os jogos olímpicos, cessou a sua atividade de paracanoagem por falta de meios. “A bota não bate com a perdigota”.
    À porta das eleições municipais de 12 de outubro, deixo um desafio: que os autarcas da nossa região façam do apoio ao desporto náutico um verdadeiro propósito. Não apenas palavras, mas programas concretos que promovam a prática de desportos náuticos, nomeadamente, da vela, da canoagem, do surfing e do remo, estimulando nas nossas crianças e jovens o gosto pela água e pelo mar.

    Muito já é feito, aproveitando a nossa costa, a nossa Lagoa e a nossa Baía de S. Martinho do Porto. Mas, só com um propósito consistente, com financiamento e planeamento, poderemos sonhar legitimamente com medalhas nos Europeus, Mundiais e nos Jogos Olímpicos. Seria inspirador que, no quadro da Comunidade Intermunicipal do Oeste, se desenhasse um plano de desenvolvimento do desporto náutico que estruturasse modalidades e etapas, honrando os recentes feitos de canoístas, verdadeiros embaixadores de Portugal, como o Fernando Pimenta, o João Ribeiro, o Messias Batista, o Gustavo Gonçalves e o Pedro Casinha.

    Tal como o nosso João Almeida, no ciclismo, fruto de trabalho de base, também nos desportos náuticos poderíamos ter orgulho em conquistas alicerçadas num caminho sólido. Um propósito partilhado pela região, transformado em ação, envolvendo os Clubes, as escolas, as empresas, as famílias, pode ser a diferença entre sonhar com medalhas… e conquistá-las.

  • 2. Identidade e arquivo(s)

    2. Identidade e arquivo(s)

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    Prometi uma pequena viagem pela história e pelos arquivos, por isso hoje escrevo sobre o nascimento da minha paixão por documentos, que se confunde com o exato momento em que percebi a importância que eles têm para a aturada conceção patrimonial de pertença, identidade. A certeza de que não podia deixar de fora o tema desta crónica foi-se afirmando ao longo da última semana e tornou-se clara quando vi, na TV, a atuação do Rancho Folclórico e Etnográfico do Reguengo da Parada, na Madeira. Todos aqueles rostos familiares, de pessoas que admiro e cuja força de trabalho e entrega à comunidade conheço, fizeram-me sentir, através desse mar de distância, que parte da minha história estava ali a ser cantada e dançada, ou não tivesse sido, também, por baixo das oliveiras dessa aldeia que os meus avós, Josefa e Francisco, travaram conhecimento.

    Pode parecer que me estou a desviar do objetivo, mas não, de todo: o primeiro arquivo que reuni e ao qual procurei dar sentido, foi o do meu avô, Francisco João Beato (1929-2016).

    Quando perdi o meu avô, tive a certeza de que deveria resgatar todas as peças de um pequeno quebra-cabeças que, a longo prazo, seria reconstituir a sua vida. Com ajuda, vasculhei em tulhas antigas, reuni tudo o que consegui. Livros de contas, alguns documentos e objetos pessoais. Tudo o que, a meus olhos, me aproximasse do seu negócio e daquele homem que foi um para mim, mas que, como no livro de Luigi Pirandello, pode ser ninguém ou ainda cem mil para outros – o moleiro, o vendedor/ comerciante, o taberneiro, o excursionista, o fadista, o dançarino, o agricultor…

    Ainda não retirei deste conjunto documental todo o potencial da sua informação, da sabedoria do meu avô aí reunida, mas hoje sei muito mais sobre a minha história familiar e essa pesquisa, lenta, complexa e cheia de pessoas e contributos preciosos, tem sido o meu alimento para continuar.

    Trabalhar com este e outros arquivos, tem-me feito, não só dar corpo à minha identidade, mas procurar ajudar familiares e amigos a definirem as suas. Muitos têm recebido mensagens minhas, quando passo pelos seus apelidos entre documentos (espero que me perdoem!). Isto mesmo aconteceu, por exemplo, quando, em julho passado, visitei o Museu Marítimo de Ílhavo e tive acesso ao seu portal “Homens e Navios do Bacalhau”, em que encontrei muitos caldenses. Se tiverem curiosidade, recomendo a pesquisa online.
    Aos meus Avós, agradeço e deixo uma singela homenagem, por terem criado em mim o amor às histórias e às pessoas que nos rodeiam.

  • “Fruta Globalizada”  do Oeste

    “Fruta Globalizada” do Oeste

    José Luiz de Almeida Silva

    Recordo bem as primeiras feiras da fruta e a produção atomizada, de minifúndio, com fruta que não obedecia às normas do comércio internacional, mais destacada pelas caraterísticas regionais e nalguns casos pelas formas e pesos surpreendentes de alguns espécimes, do que por outra coisa.

    A iniciativa caldense dos finais dos anos 70, tinha muito de objetivo de fazer animação no período estival, que seguir a evolução natural do amadurecimento dos frutos, pelo que nunca conseguiu compatibilizar os dois objetivos, mas mostrava mesmo assim um potencial regional que se veio totalmente a confirmar.

    Hoje a região é um dos maiores produtores mundiais de certos géneros frutícolas, nomeadamente da maçã de Alcobaça, da pera rocha do Oeste (ambas entretanto registadas como marcas de origem, para além da Ginja de Óbidos) e de outras espécies, localizando-se por aqui alguns dos exportadores mais importantes do país, em que a estação frutícola Vieira Natividade de Alcobaça e muitos técnicos que por aqui trabalharam tiveram um papel importante, transformando-o num objetivo estratégico central em termos nacionais.

    Provavelmente a região globalizou-se de alguma forma, especialmente em termos agrícolas nestas espécies frutícolas, ficando para trás alguns setores industriais que foram muito importantes, com exceção da cerâmica que ainda tem um papel significativo porque no resto da Europa perdeu importância, emergindo, pelos valores exportados, um setor inesperado ligado à produção de veículos aéreos não tripulados (os conhecidos drones), que criou o seu próprio unicórnio. Zé Povinho de Bordalo não adivinhava tal mudança…

    A maioria dos leitores provavelmente não esteve atento a estas transformações no tecido económico regional, mas será de contar com elas nos próximos anos.

  • Esclarecimento: O investigador da Semana Santa de Óbidos que entrou na Academia aos cinquenta

    No passado dia 21 de agosto, o vosso Jornal publicou uma peça jornalística, assinada pela Sra. Jornalista Joana Cavaco, com o título: “O investigador da Semana Santa de Óbidos que entrou na Academia aos cinquenta”.

    Após leitura do artigo em causa gostaria de corrigir o parágrafo em que se escreveu o seguinte: “Através do acervo da Misericórdia de Óbidos, Luís [Ascenso] conseguiu precisar o ano do início das celebrações: 1603”, corrigindo, deste modo, para o seguinte parágrafo: Através da publicação dos Acórdãos e Eleições da Confraria e Santa Casa da Misericórdia da Vila de Óbidos (Volume II:1601-1627), editada pela Misericórdia Obidense, no ano de 2013, Luís [Ascenso] constatou, após a leitura da obra citada, que: A Santa Casa obidense passa a ser, em 1603, responsável pela realização da Procissão do Senhor dos Passos… (ver INTRODUÇÃO, do livro citado, p. 14).

    Ainda na mesma obra, o Sr. Luís Ascenso deve ter lido a seguinte transcrição, nas páginas 26 e 27: [Fl. 229] Auto de como esta Meza tomou a sua conta corer com a obrigação da Procição dos Paços. Anno do Nacimento de Nosso Senhor Jhesu Cristo de mil e seiscentos e três aos vinte e hum dias do mês de Fevereiro sendo prezentes o Provedor e Irmãos em Mesa nela veo (=veio) o Senhor Reverendo Padre Salvador Dias Doctor na Sancta Teologia logo por ele foi dito que por serviço de Nosso Senhor e proveito das almas emtendendo e quãm proveitoso seria e provoaria a devoção o que era queria atentar fazer se nesta Vila [de Óbidos] a Procicão (=Procissão) dos Paços (=Passos) a imitação da que se custuma fazer na Cidade de Lixboa e outras partes principais destes reinos….Continuando, depois, nos Fólios 229 verso e 230, a descrição, a partir da data já indicada, da primeira Procissão do Senhor dos Passos na Vila de Óbidos.

    A Misericórdia de Óbidos, que tem, desde 2011, a totalidade da sua documentação devidamente identificada, e, naturalmente, acondicionada, ou armazenada, em estantes/prateleiras, seguindo as regras arquivísticas, hoje existentes (vide a publicação do Guia do Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia da Vila de Óbidos, 1.ª edição de 2011 e 2.ª edição de 2018), teve, sempre, a preocupação, depois de organizado o seu espólio documental, de dar a conhecer à comunidade local e ao universo das misericórdias nacionais o seu acervo, através da publicação, desde 2007 até aos dias de hoje, de diversas obras, de cariz histórico, que retratam a história de mais de 500 anos da Santa Casa obidense.

    Ricardo Pereira (Arquivista e Historiador do Arquivo Histórico da Misericórdia da Vila de Óbidos)

  • Vamos salvar a Palestina?

    A ocupação, o genocídio, a tortura, a morte pela fome, a opressão da Palestina e do seu povo é a repetição de uma violência secular, da qual nos alimentamos.

    Somos os descendentes da nação que condecorou o tentente-coronel por jogar à bola com a cabeça das pessoas que matava. Temos o nome dele em ruas, para que nunca nos esqueçamos do bem que praticou.

    Somos os descendentes da nação de violadores que foi fazer amor para as terras que colonizámos à força da bala.

    Somos a nação racista que, sem precisar de muros, esconde nos arredores da cidade os descendentes das nações que torturámos.
    Somos os demolidores de casas de família, porque achamos que há quem não tenha o mesmo direito à vida.

    Somos varredores de gente sem casa, porque não suportamos olhar para a pobreza que impomos a quem achamos ser menos que nós.
    Somos as fortalezas levantadas para impedir a entrada dos que morrem na violência das guerras feitas em nosso nome.

    Somos a apatia de quem trabalha humilde e feliz, todos os dias, para nunca chegar a ter coisa nenhuma.

    Somos os escravos voluntários de patrões que bajulamos por acharmos que são mais que nós. E desejarmos um dia ser como eles.

    Somos a precariedade dos muitos pobres que são sustento da riqueza excepcional dos muito ricos.

    Somos a indignação de esplanada. O voto de 4 em 4 anos. A indiferença à tragédia.

    Somos aqueles que adormecem a não pensar em nada, enquanto milhares de tipos inteligentes e poderosos pensam em tudo.*

    Somos descendentes de uma história que nos é mal contada. Que nos coloniza o pensamento. Que nos impede de resistir porque achamos ser livres.

    Não somos livres. Precisamos de ser resistência.
    Não vamos ser nós a salvar a Palestina.
    Mas pode ser que seja a Palestina a salvar-nos a nós.

    Palestina Livre Caldas (*”FMI” – José Mário Branco)

  • Todos na proteção do oceano

    Todos na proteção do oceano

    Teresa Lemos
    Coordenadora do GEOTA

    Portugal é um país plantado à beira-mar com uma relação histórica e cultural com o oceano que molda sua identidade. O litoral português está sujeito a pressões ambientais que exigem atenção urgente. Embora o mar represente inúmeras oportunidades para o país, ele também impõe desafios que não podemos ignorar.

    A monitorização e proteção do ambiente marinho são compromissos globais assumidos por Portugal, tanto no contexto das Nações Unidas como da União Europeia. Estes compromissos são fundamentais para garantir que o nosso oceano continue a ser fonte de riqueza, biodiversidade e bem-estar. A poluição marinha, por exemplo, é uma das ameaças mais graves à sustentabilidade dos ecossistemas.

    No entanto, não basta delegar responsabilidades às autoridades; é preciso que todos assumam o seu papel na preservação e uso responsável dos recursos marinhos. A proteção do oceano é uma causa de todos e todos temos um papel a desempenhar. Cada gesto conta – seja num consumo sustentável e consciente, na redução da poluição e recolha de lixo marinho, um gesto que todos podemos e devemos assumir em cada caminhada realizada na praia, ou participando em projetos de monitorização ambiental.

    Dentro deste contexto, a ciência cidadã surge como uma ferramenta poderosa. Projetos de educação ambiental para a sustentabilidade e voluntariado ambiental, como por exemplo o Coastwatch Europe (www.coastwatch.pt), são uma excelente forma de envolver e sensibilizar os cidadãos. A partir de um passeio numa zona costeira, como por exemplo, a nossa praia favorita, observamos a biodiversidade, recolhemos lixo marinho, analisamos os riscos e as ameaças. Sendo um pequeno gesto, é um passo que contribui para a proteção do oceano.

    Ao fomentar a cidadania ativa e a participação informada da população no planeamento e gestão ambiental, garantimos que o futuro do mar de Portugal será mais sustentável. Por isso, como cidadãos, devemos refletir sobre as nossas ações e escolhas diárias. O futuro do mar está nas nossas mãos, e a forma como lidamos com ele agora será determinante para o legado que deixaremos para as gerações futuras.

  • Turismo no “Oeste”

    Turismo no “Oeste”

    José Luiz de Almeida Silva

    O turismo e o lazer, encimados pelo fenómeno cultural, têm constituído nas últimas décadas, um dos setores mais determinantes da economia mundial, como em Portugal, e uma tendência crescente, que envolve a maioria dos países que não se dedicam à guerra. Afirmamos-lo com uma ponta de ironia, mas que está plasmada de tristeza e mesmo no horror.

    Contudo, esta tendência pesada que marca os tempos atuais, precisa de reflexão cuidada, pois não basta acrescentar oferta à oferta já existente, sem cuidar do valor proposto, porque mais com mais, geralmente resulta menos, ou seja, menos valor e mais confusão que afasta a procura de qualidade.

    Num país e numa região em que o turismo cresce “assustadoramente”, verificamos que a oferta do produto turístico e cultural se repete e se desvaloriza, na maioria dos casos, pela pouca criatividade e diversidade, servindo muitas vezes apenas ao público local e a franjas que o aproveitam pela circunstância da proximidade.

    Outro obstáculo sentido é a falta de coordenação e de partilha entre as ofertas que cada concelho faz numa mesma região, criando uma concorrência assimétrica, e que, caso existisse cooperação, beneficiaria todos, rentabilizando melhor os investimentos realizados. Quando não se digladiam por objetivos que provocam ruturas, como se verifica com o setor da saúde.

    Não se entende que esta preocupação não esteja na cabeça da maioria dos responsáveis, parecendo mais cada um querer apresentar resultados pessoais, do que partilhar resultados mais potentes, caso houvesse sinergia entre as iniciativas de todos.

    Mesmos as entidades a quem competiria este papel ou foram extintas (Região de Turismo do Oeste), ou não têm vocação ou competências objetivas para o mesmo (caso dos organismos regionais da Cultura). Em conclusão, cada um a correr para seu lado e em pista própria, com gastos acrescidos e com rentabilidades menores ou insuficientes. E o pagante é o mesmo!

  • 100 anos da Gazeta das Caldas: uma voz regional ao serviço da democracia

    100 anos da Gazeta das Caldas: uma voz regional ao serviço da democracia

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    Quando me convidaram para escrever na Gazeta das Caldas, por um ano, dando a minha opinião, não hesitei duas vezes: primeiro, por ser uma honra ser convidado e poder partilhar um pouco das minhas ideias, procurando contribuir, dentro do possível, para um pensamento mais ou menos crítico; depois, porque a Gazeta faz 100 anos e poder estar nas suas páginas (físicas e virtuais), em ano de centenário, é um grande privilégio.

    Durante o próximo ano, não vou pretender ser um “fazedor” de opinião impositivo. Aliás, nunca concordei com essa técnica de impor o que quer que seja. Sempre fui apologista da ideia de estudar, analisar, assimilar ideias para, depois, poderem ser discutidas.

    Durante este ano que, gentilmente, me cederam, vou procurar explicar a importância fundamental do jornalismo e o quão importante ele é para a Democracia e para a forma como nós nos projetamos e revemos na (e em) sociedade.

    Mas antes dessas reflexões, que vou tentar que sejam muito realistas, tenho de dar os parabéns à Gazeta das Caldas. Estar prestes a fazer 100 anos é, nos tempos que correm, em que tudo é muito acelerado, um feito. E é um feito que tem de ser enaltecido. E celebrado.

    Sei que o leitor desse lado tem a noção da importância que a Gazeta das Caldas teve ao longo destes 100 anos. São 100 anos de relatos. 100 anos de histórias. 100 anos de pessoas que fizeram acontecer. 100 anos de pessoas que nos estenderam a passadeira da Liberdade, a qual tomamos como garantida.

    O que é certo é que essa Liberdade pode não ser assim tão linear e, com o crescimento das redes sociais, por exemplo, onde cada um é produtor de “verdades”, começou a perder-se a mediação que o jornalismo faz e que é alicerçada num código deontológico.

    Celebrar os 100 anos da Gazeta das Caldas é celebrar essa mediação. É celebrar a informação com conteúdo e que nos é próxima. Informação que tem a ver com a nossa rua ou com o nosso bairro. Com a nossa cidade, freguesia ou aldeia. Com a coletividade que nos aproxima ou com os problemas que nos afastam. Sejam eles quais forem.

    A Gazeta das Caldas tem essa função: a de contar o que se passa, com a independência possível, o contraditório desejável e, acima de tudo, com a vontade de nos fazer mais cidadãos.

    Tenho a certeza de que cidadãos informados são melhores cidadãos, porque pensam a cidade, o concelho, a região e o País. São cidadãos que não têm de concordar com tudo. Mas são cidadãos que podem ter um sentido crítico sobre a vida em sociedade. E a Gazeta, neste aspeto (e noutros), tem sido um farol.

    Parabéns.

  • Grávida no Verão Descubra os cuidados que deve ter nestes dias quentes

    Virgínia Marques
    Nutricionista especializada em Fertilidade e Gravidez

    O verão chegou, os dias tornam-se mais longos, as temperaturas aumentam e, com isso, surgem alguns desafios para quem está grávida. Durante a gravidez, o corpo da mulher passa por várias transformações que aumentam as necessidades de nutrientes e de água. Por isso, adaptar a alimentação aos dias quentes é essencial para o bem-estar da mãe e do bebé.

    A hidratação é uma das principais preocupações nesta altura do ano. A água é fundamental para o transporte de nutrientes e para a formação do líquido amniótico. Recomenda-se a ingestão de, pelo menos, 2 a 2,5 litros de água por dia. Estratégias simples, como aromatizar a água com frutas (limão, laranja, abacaxi) ou usar lembretes ao longo do dia, podem ser úteis para garantir uma boa ingestão hídrica.

    Embora a hidratação seja essencial, o calor pode reduzir o apetite, dificultando a ingestão alimentar. No entanto, é importante manter uma alimentação adequada, uma vez que as necessidades nutricionais aumentam durante a gravidez. Optar por refeições leves e mais frequentes pode ajudar. Frutas frescas, legumes e saladas são ótimas escolhas, pois fornecem vitaminas, minerais e fibras. Alimentos com elevado teor de água, como melancia, pepino, tomate, melão e abacaxi, podem ser privilegiados.

    Por outro lado, alimentos muito gordurosos ou salgados devem ser evitados, pois estão associados a inchaço e desconforto digestivo, especialmente com o calor. Prefira preparações simples, como grelhados, sopas frias, saladas e pratos leves.

    Se for à praia ou à piscina, é importante levar snacks saudáveis para evitar longos períodos sem comer e reduzir a tentação de consumir alimentos de baixo valor nutricional. Boas opções incluem fruta, tostas e pão integral, queijos pasteurizados, ovos cozidos, tremoços ou pastas simples como húmus ou guacamole. A segurança alimentar deve também ser reforçada durante a gravidez, por isso os alimentos devem ser bem armazenados, idealmente em lancheiras com gelo, sobretudo laticínios e ovos.

    Por fim, escute o seu corpo. Manter uma alimentação equilibrada, segura e adaptada às exigências desta fase tão especial é fundamental para a saúde da mãe e do bebé.

  • A festa de Nossa Senhora das Mercês – um hino à amizade!

    Sou habitante de uma bonita terra que, apesar de não ter propriamente um monumento importante ou uma tradição antiga que possa servir de marco ou motivo de visita, tem uma festa muito especial. O lugar é pequeno, os recursos são escassos, mas vamos sempre mantendo esta tradição de proporcionar uma “festa rija”.

    Gostava de vos mostrar um outro lado desta festa: o lado de quem a organiza, de quem, de forma voluntária, a vai mantendo viva. É neste lado que reconheço a verdadeira riqueza desta freguesia! Para a realização deste evento, é necessária a envolvência de todos — a experiência dos mais velhos e o entusiasmo dos mais novos. Esta ligação entre o miúdo de 8 anos e a senhora de 80, numa terra com pouco mais de mil habitantes, cria laços importantes, une gerações e deixa memórias maravilhosas.

    A Kelly é um excelente exemplo de como essas memórias inesquecíveis e laços de amizade únicos são importantes!

    Os pais, emigrantes em França, voltavam sempre à terra natal em Agosto. Recordo-me de a ver, querendo muito ajudar, sempre com um sotaque bem carregado, muitas dificuldades na comunicação, mas com uma alegria contagiante!

    A Kelly cresceu, seguiu a sua vida, sempre com um olho nas redes sociais acompanhando as notícias da terra. Ironia do destino: a Kelly, durante uma viagem com a sua amiga Gisela João, decidiu convencê-la a cantar para o Carvalhal!

    Ela podia ter convencido a “enorme” Gisela a cantar numa festa privada, só para os amigos e familiares próximos… mas não! Ela convenceu a Gisela João a vir ao Carvalhal Benfeito! Ela ofereceu ao Carvalhal a oportunidade de assistir a um espetáculo que seria impossível de acontecer de outra forma!

    Disse-me há pouco tempo, quando lhe perguntei o porquê desta oferta, e ela, com voz firme e sem gaguejar, respondeu: “A festa do Carvalhal deu-me memórias inesquecíveis e amizades únicas. Fui muito feliz naquela festa. Durante anos, contava os dias para voltar a Portugal, para voltar ao Carvalhal e estar convosco na festa…”

    Vamos ver a Gisela João, amiga da Kelly que é amiga do Carvalhal…

    Não será um simples espetáculo, onde alguém contratou um artista para atuar para o público. É diferente! É um espetáculo que é fruto da amizade!

    Esta festa não é uma simples festa, é algo muito especial…

    Valter Jacinto

  • 143ª Corrida de Toiros do 15 de Agosto em Caldas da Rainha

    143ª Corrida de Toiros do 15 de Agosto em Caldas da Rainha

    Rui Lopes

    A 15 de Agosto, realizou-se a“VI corrida do Coparias” evocativa do centenário de Manuel dos Santos, com lotação esgotada.

    No início foi lançado um livro sobre Manuel dos Santos da autoria de duas das suas bisnetas e ao intervalo foi descerrada uma placa evocativa da efeméride.

    Toiros de Manuel Veiga com apresentação e comportamento diverso, dificultando alguns o brilho do espetáculo.

    João Ribeiro Telles sorteou bons toiros e teve duas lides muito bem conseguidas com ferros de muito valor e toureando a sério, principalmente no primeiro, com ferros de elevado quilate e brega adequada.

    Francisco Palha esteve bem mas teve de porfiar muito, com grande ofício, pois teve azar com o sorteio saindo-lhe dois toiros difíceis que não colaboraram, o primeiro quase não investia refugiado em tábuas, no entanto foram seus os dois melhores ferros da corrida.
    O amador Vasco Veiga ultrapassou com valor e alguma qualidade a prova de praticante perante um toiro nada fácil. Está pronto para outros voos, mantendo a calma, lidando bem e apontando alguns bons ferros.

    Pedrito de Portugal voltou a vestir-se de luzes para homenagear Manuel dos Santos e em boa hora o fez pois quem sabe não esquece. O primeiro toiro a recuar e sem investir não lhe deu qualquer hipótese mas no segundo, muito bem com grande estética bordou toureio do bom na arena de Caldas. Tanto de capote como de muleta teve momentos de grande qualidade agradando plenamente ao conclave.

    Os forcados de Santarém e de Caldas, competiram numa jornada com alguns percalços, para ambas as formações, onde sempre tentaram dar vantagens aos toiros e nunca viraram a cara às adversidades.

    Por Santarém pegaram Francisco Cabaço, muito bem, Caetano Gallego bem mas com alguma abertura das ajudas e Joaquim Grave algo precipitado e trapalhão a recuar, pegando só à 4º tentativa com ajudas carregadas.

    Por Caldas pegou à 5ª Martim Graciosa, sempre com valor e coragem um toiro que quando se sentia agarrado sacudia violentamente em todas as direções, falhou a habitual coesão e eficácia das ajudas, apanágio deste Grupo. Salvador Serrenho fez um pegão a um toiro difícil de arrancar, indo bem aos terrenos do toiro e fechando-se com decisão, bem ajudado sobressaindo Carlos Siqueira na primeira ajuda e muito bem Afonso Muñoz a rabejar.
    Abrilhantou bem o espetáculo a Banda do Comércio e Indústria de Caldas da Rainha e dirigiu com critério Ana Pimenta.

  • Caldas da Rainha: um percurso de pequena e de grande escala

    Caldas da Rainha: um percurso de pequena e de grande escala

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    A convite da Gazeta das Caldas, começo hoje uma nova colaboração. E, com o intuito de dar asas e sentido ao que, periodicamente, irei escrever e partilhar com os leitores, considero pertinente uma breve autoapresentação serpenteada pelas Caldas da Rainha.

    Nasci nesta cidade e, desde sempre, recordo-a com um brilho no coração. Um brilho que ainda não consegui desmistificar, nem interpretar a sua fórmula. Enquanto indivíduo, noto que existe, quotidiana e globalmente, uma grande procura pelo mundo exterior, isto é, um desejo de nos fixarmos para além das nossas fronteiras natais.

    No decorrer do meu dia-a-dia pelas Caldas, deparo-me com diversos confrontos, quer sejam eles positivos ou negativos. Enquanto entusiasta, vivo numa procura constante pela diferença, pela memorização e pela arte. E, entre tantos outros fatores, é natural que surja uma vontade de procurar algo distinto do nosso território.

    Confesso que, em contexto universitário, durante aproximadamente dois anos, assim o fiz. Dois anos que passaram num instante — talvez o relógio tenha acelerado com a chegada da vida adulta. No entanto, nesse tempo, o meu distanciamento com as Caldas foi praticamente nulo. Havia sempre uma deixa para regressar com a maior das brevidades. Acredito que foi precisamente nesse período que percebi o verdadeiro valor desta cidade — provavelmente o início do tal brilho de que falei.

    Antes dessas sucessivas viagens para fora do nosso território, já se desenhava a tal fórmula, ao optar por iniciar o ensino universitário aqui mesmo, na nossa cidade. Foi então que começou uma verdadeira descoberta por estas escalas que tão bem se enquadram no nosso espaço.

    Desde então – e talvez porque, ao longo desta permanência tenha vindo a descobrir que nas Caldas da Rainha é possível coexistirem vários mundos em diferentes escalas – tenho obtido e colecionado provas dessa riqueza. Quero com isto dizer que a nossa região é um misto de micromundos que nos permitem uma integração variada, um reconhecimento distinto e um paralelismo de vida único.

    Somos, no fundo, um grande mundo repleto de cultura, tradição e, essencialmente, vida – rico de possibilidades. Por isso mesmo, creio que aqui tantos se sintam inspirados a criar e a inovar. A escala de cada um articula-se, com flexibilidade e plenitude, com a escala da cidade, vivenciando diversos universos num só mesmo território.

    É tão bom ser de cá!

  • As cidades e o desejo

    As cidades e o desejo

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Italo Calvino concebeu um atlas de cidades reais e imaginadas, cada uma tecida pelo que lembramos, sentimos e sonhamos. Dizia ele que “as cidades, como os sonhos, são construídas de desejos e de medos”. Talvez nenhuma estação revele essa verdade com tanta nitidez como o verão.

    Agosto transforma os lugares. Em Caldas da Rainha, Óbidos ou Peniche, regressam os que partiram, chegam os que nunca vieram e cruzam-se com os que nunca deixaram de estar, insuflando nova energia à vida urbana. Para se prepararem, retocam fachadas, acendem as luzes das praças, afinam o tom dos sotaques.

    Mas há sempre dois lados: o de quem procura e o de quem se oferece. O visitante busca evasão, paisagem, pertença — ainda que por breves dias. A cidade prepara-se para o encontro, exibe o melhor de si, transforma-se para ser desejada. E, às vezes, quer tanto ser amada que se esquece de si mesma.

    Nem tudo se mostra em brilho ou se deixa ler em poesia; por detrás das aparências cuidadas e das celebrações de verão escondem-se necessidades mais urgentes: uma habitação digna, rendas que não devorem salários, condições para cuidar de quem cuida. Repetem-se ainda velhos mantras, sempre adiados: serviços de saúde acessíveis e eficientes, um projeto cultural que seja raiz, e não apenas flor de estação, uma economia que não dependa apenas do calendário. Enquanto as ruas antigas se esvaziam e as casas dormem fechadas, a ausência de um lugar para viver torna-se palpável — uma cidade invisível entre as visíveis.

    Talvez ao Oeste ainda lhe falte um caminho por inventar, algo que ultrapasse o turismo e a lógica efémera dos eventos sazonais. Uma força mais profunda, enraizada na comunidade, na pertença e na justiça territorial. Para o reconhecer, é preciso olhar com rigor o que se quer de verdade. Porque, ao tentar ser tudo, corre-se o risco de não ser nada para ninguém.

    Ao longo do próximo ano, deixarei que o gesto de Calvino me guie no olhar sobre os territórios que habitamos, como se fossem páginas de um livro inacabado que importa tornar visível. Tal como nas suas cidades imaginadas, as nossas só se tornam reais quando alguém as sonha, quando lhes dá corpo e significado. Talvez o primeiro passo seja pensar esta região como um lugar onde o desejo não dependa apenas do que chega de fora, mas surja e se fortaleça a partir de dentro. É desse desejo que nasce a sua vitalidade, é dele que se alimenta a sua permanência.

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